20/9/19
 
 
Ana Kotowicz 31/10/2015
Ana Kotowicz

ana.kotowicz@ionline.pt

O que é o almoço? Ar e um copo de água

O leite faz mal. Os cereais têm açúcar. O queijo dá cabo do fígado. E o pão? É um sem-fim de preocupações

Os alertas sucedem-se. Carne processada aumenta risco de cancro. Restaurantes vão reduzir sal na comida. Dieta portuguesa está a destruir o ambiente. Alimentos embalados em cartão são cancerígenos.

Ainda a cafeína não acordou o meu cérebro e já tenho sérias dúvidas sobre o que deve ser o pequeno-almoço. O leite faz mal porque não temos as enzimas necessárias para o digerir. Os cereais que comemos toda a vida têm açúcar em excesso. O queijo faz mal ao fígado. E o pão? O pão é motivo para um sem-fim de preocupações. Engorda, claro, tem sal a mais e até o trigo integral é só menos mau que o trigo refinado, estando longe de ser saudável. Na dúvida, como uma banana e tento esquecer-me daquele estudo que diz que sumos de fruta fazem mais mal que bem. 

A meio da manhã tenho vontade de trincar uma bolacha e logo dispara o alerta. A bolachinha está carregada de farinha branca, arqui-inimiga do corpo humano. Sobrecarrega o pâncreas, altera os níveis de insulina e é conhecida como a cola do intestino. Cola? Pois. Obstrui o sistema digestivo e cria um metabolismo lento que pode causar dores de cabeça, tensão e enxaqueca. Tenho fome, mas bolachas nunca mais.

Entretanto é hora de almoço e outros estudos me vêm à memória. Carne vermelha é, provavelmente, cancerígena. O frango está carregado de antibióticos. A carne de porco é fonte de doenças e parasitas e, se estiver mal cozinhada, pode trazer vermes e toxinas. E em menos de nada estou a olhar para os pratos de peixe. O cérebro não me dá descanso, dispara alarmes e luzes vermelhas. Milhares de golfinhos morrem nas redes de pesca de atum. Consumo de peixe, em especial bacalhau, faz mal ao planeta e aumenta a pegada ecológica. O salmão está carregado de mercúrio e faz mal ao coração.

Salada. Vou comer uma salada e regá-la com azeite, até porque – se bem me lembro – só faz mal se for aquecido, momento em que começa a produzir carcinogéneos. E vou-me esquecer da toxoplasmose e da E. coli que posso apanhar com estes verdes que tenho no prato, se na cozinha não tiverem lavado bem a alface e o tomate. 

Já desisti do lanche e nem a ideia de um belo grelhado no carvão me dá alento para aguentar até ao jantar. Ainda há dias li que carne ou peixe grelhados muito perto do calor têm compostos carcinogénicos. Tenho fome, muita fome, e não sei o que hei-de comer. 

Quero ser vegetariana para proteger os animais, quero evitar comer muito peixe por ter sentimentos de culpa em relação à sobrepesca, prefiro legumes e frutas biológicos para não me encher de pesticidas e só como ovos orgânicos para evitar os antibióticos. A farinha tem de ser integral e o açúcar mascavado. O arroz branco, carregado de lixívia, já foi substituído pelo integral. 

Se pudesse, trocava de lugar com a minha avó. Eu nascia em 1910 quando ninguém sabia o que era o aquecimento global, as hortas eram todas biológicas e carne era luxo para de vez em quando porque o dinheiro escasseava. Ela que vivesse com todos os luxos da modernidade e deixasse de comer chouriço para viver até aos 100 anos. Estou cada vez mais convencida de que não vale a pena o esforço. 

Jornalista
Escreve ao sábado 

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