15/6/21
 
 
Idomeni. Diplomacia por um feto na terra dos 194
Idomeni, uma aldeia de 194 habitantes, tem assistido a mais de 5 mil passagens diárias

Idomeni. Diplomacia por um feto na terra dos 194

Idomeni, uma aldeia de 194 habitantes, tem assistido a mais de 5 mil passagens diárias Joana Azevedo Viana (Texto) e João Couto C. (Fotografias) em Atenas 26/10/2015 16:08

Pequena aldeia está dividida entre os que tentam dar apoio aos refugiados, os que os temem e os que puseram o olho no negócio.

Shuhra tem 26 anos e acabou o curso de Medicina na Universidade de Cabul em Julho, um mês depois de descobrir que estava grávida. “As coisas para as mulheres já não estavam bem na nossa terra, que fica a poucas horas da capital”, explica o marido, Aziz. “Os talibãs estão lá e não a deixam andar assim, com a cara a descoberto. Quando soubemos que íamos ser pais ganhámos coragem para vir embora, não é sítio para uma criança crescer.” Se for menina vai chamar-se Maryam, se for menino Mahmoud. Aziz preferia que fosse um rapaz, mas admite que tanto faz, só quer que nasça saudável.

“Queremos ir para a Suécia. Vemos os sírios a ir para a Alemanha e achamos que o país vai ficar cheio de gente, se calhar é melhor ir para outro país e estávamos a pensar na Suécia. Sabes se na Suécia é bom?”

Shuhra não se sente bem, não consegue parar de tossir há dois dias, tem uns chinelos nos pés mas o frio está a apertar e ninguém deste lado da fronteira tem sapatos de mulher para dar. Estamos em Idomeni, uma aldeia de 194 habitantes plantada num vale partilhado com a República da Macedónia.

Em Agosto as coisas em Idomeni estavam negras, não havia organizações humanitárias a deitar água na fervura autoritária, não havia voluntários a dar comida e água e roupa aos milhares de refugiados que por aqui passam. Na sexta foram precisamente 10 490 pessoas e o número só tenderá a aumentar.

Numa terra de fábricas e comércio ao abandono, num país sucessivamente castigado por medidas de austeridade, a passagem de milhares de pessoas gerou uma miríade de reacções entre os locais. Alguns vêm aqui de máquinas em riste, como se numa excursão, curiosos como se estivessem no zoo. Há os que trouxeram roulotes de comida, dando um aspecto de arredores de estádio de futebol à fronteira; quando as ONG só têm bolachas, vendem kebabs às centenas. Há alguns desconfiados e há os que, todos os dias, aparecem para distribuir roupa dada reunida nas aldeias vizinhas, por vezes aumentando o caos.

É numa banquinha de gregos de Idomeni que Shuhra e Aziz me confundem com uma voluntária e me pedem que lhes arranje sapatos. A mulher está grávida, não se sente bem, está muito frio. Shuhra dá-me o braço para se apoiar, cospe tossidelas a cada passo. Estamos a dois metros dos agentes gregos que, à vez, deixam passar grupos de 50 pessoas para o outro lado. Shuhra e Aziz pedem--me que não os abandone e que lhes arranje um médico.

Um polícia dá-me autorização para passar e de repente estamos na Macedónia. Já só do outro lado, depois de algumas centenas de metros ladeados por famílias que se aquecem com lixo a arder, percebo que não tenho identificação alguma. Não há medicamentos na Cruz Vermelha deste lado, só vitaminas. Também não há sapatos. As chamadas insistentes do João denunciam um problema, mas acaba por ser tranquilo regressar à Grécia. Tranquilo para mim. Assim que os soldados macedónios me dizem “ok, ok” e fazem sinais para passar, o superior do agente grego desata aos berros, o polícia encolhido sobre si próprio.

Lá atrás, Aziz sonha acordado, no embalo em que o deixei perguntou-me se acho que o bebé deles vai ter passaporte sueco. Está previsto que nasça em Fevereiro e quero mesmo dizer-lhe que sim. Também queria dizer ao superior que não berre com o agente. Não digo nada.

Nota: Os jornalistas viajam no âmbito do projecto "Aquele Outro Mundo que é o Mundo", promovido pela ACEP, CEsA, seisXX e Coolpolitics, com o apoio do Instituto Camões e da Fundação Gulbenkian

Ler Mais


Especiais em Destaque

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×