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Pedro Machado. "Não estou a ver um astronauta a beber regalado um copo da água agora detectada"

Pedro Machado. "Não estou a ver um astronauta a beber regalado um copo da água agora detectada"

Nasa Ana Kotowicz 12/10/2015 17:01

Pedro Machado, do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, é especialista em atmosferas planetárias e fala-nos da descoberta de água líquida em Marte.

Já podemos dizer que afinal Marte não é um planeta deserto e árido?

Apesar disso ainda ser essencialmente verdade, Marte ganhou uma nova dimensão na maneira como o vemos. O "planeta vermelho" não é um planeta "morto", há evidências de ocorrerem escorrências sazonais de água à superfície.

Quando soube da descoberta, qual foi a primeira coisa que pensou?

O que me ocorreu imediatamente foi pensar que a química nas camadas superficiais do solo marciano deve ser muito mais interessante do que se pensava. As reacções químicas em meio aquoso evoluem de forma mais rápida e mais complexa o que pode potenciar a diversidade das moléculas existentes no solo.

A água será salgada, não doce. Isso faz toda a diferença porquê…

Sim, isso faz toda a diferença. As condições de pressão e de temperatura na atmosfera de Marte não são compatíveis com a existência de água no estado líquido à superfície do planeta. A presença de grandes quantidades de sais na água faz baixar a sua temperatura de fusão (é devido a este facto que no inverno é costume espalhar sal nas estradas de altitude, isso para prevenir a formação de uma camada de gelo na superfície da estrada). A pressão atmosférica em Marte é cerca de um centésimo da pressão atmosférica na Terra, contudo é possível existir água no estado líquido nessas condições e mesmo a temperaturas inferiores a vinte graus celsius (como acontece em Marte) dada a sua elevada concentração de sais (como é o caso do perclorato agora descoberto pela sonda espacial da agência espacial americana NASA.

Passada a euforia, já começamos a ouvir que afinal não é totalmente correcto dizer que há água líquida em Marte…

As evidências apontam para a existência de água líquida de forma localizada em encostas de montanhas e de crateras. Estas escorrências superficiais devem acontecer no fim da primavera marciana e tudo aponta para um fenómeno que ocorre de forma intermitente. As sondas não detectaram directamente cursos de água, mas sim as consequências da sua existência num tempo, vamos dizer, contemporâneo. Já há alguns anos que se suspeitava de que poderia existir água superficial em Marte, as suspeitas advinham da existência de umas manchas azuladas em forma de escorrência nalgumas encostas. Veio-se a constatar que essas marcas eram devidas à presença de um mineral, o piroxeno, que está associado à presença de água líquida. A recente descoberta da NASA prende-se com a detecção de sais na forma hidratada (percloratos) que, esses sim, para existirem à superfície sustentam de forma inequívoca a presença de água superficial, mesmo que tal aconteça somente durante pequenos períodos de tempo.

Mas já havia provas que ela existia, ainda que não em estado líquido, correcto?

Sim, e de dois modos: a existência de grandes quantidades de água líquida em Marte no passado é bem sustentada quer pela morfologia da superfície planetária, que apresenta construções que são consequência de terem existido cursos de água e bacias hídricas, assim como a presença de minerais que requereram a presença de um meio aquoso para se desenvolverem; por outro lado, é bem conhecido a presença de gelos de água na calote polar do hemisfério de inverno, apesar da maior quantidade de gelo ser de dióxido de carbono.

Para nós, terráqueos, esta descoberta tem alguma importância prática? A científica será indiscutível.

A científica é de facto indiscutível. Em termos práticos, realmente não estou a ver um astronauta a beber regalado um copo da água agora detectada. Contudo, apesar dos sais em elevada concentração é sempre possível purificar a água, por exemplo através da técnica da osmose inversa, o que já se faz hoje no nosso planeta para converter água do mar em água potável.

Uma das últimas notícias sobre o assunto é que a Curiosity não pode passar por zonas de Marte com potencial de vida. Isto complica os estudos da NASA?

Sim, mas há que acautelar possíveis contaminações do campo de estudo pela Curiosity, de facto isto já aconteceu no passado quando um outro veículo de exploração terrestre (rover) detectou a presença de moléculas orgânicas e que afinal veio-se a confirmar que essas moléculas foram libertadas no meio pelo próprio rover. As directivas de protecção planetária são muito exigentes de forma a prevenir a detecção de falsos positivos nas pesquisas efectuadas noutros corpos do Sistema Solar.

O comum dos mortais ao ouvir a notícia provavelmente pensará em dois cenários: que há vida (ou o que resta dela) em Marte ou que assim será mais fácil podermos colonizar o planeta. Há algum fundo de verdade nestas ideias?

A hipótese de haver vida, a nível microbiano, em Marte está em aberto. Penso que nos próximos anos irá haver um incremento das investigações no campo da astrobiologia com o intuito de averiguar essa possibilidade. Um caso concreto é o da missão ExoMars, da Agência Espacial Europeia, que tem como fito principal a pesquisa relacionada com a presença de vida. Exemplo disso é o estudo aprofundado da presença de metano, e da sua variabilidade, em Marte como um dos objectivos dessa missão que irá ser lançada num futuro próximo.

Quais são as grandes barreiras a conseguirmos levar uma missão tripulada a Marte? Falta de dinheiro? De tecnologia?

Uma das questões prementes a acautelar numa futura missão tripulada a Marte é a segurança. Relativamente a essa questão há ainda muito a fazer. A manutenção de vida humana em Marte ainda está longe de ser um dado adquirido. Há o problema da reciclagem de ar respirável em ambiente confinado, a questão dos víveres e água necessários...mas penso que estas considerações estarão na cabeça de todos os que estiverem a ler isto... Contudo há outras questões pertinentes, uma determinante para a manutenção de vida a longo prazo prende-se com a radiação devida ao vento solar, as partículas emitidas pelo Sol a grande velocidade e que na Terra são deflectidas para as altas latitudes (podendo eventualmente causar o fenómeno das auroras) pelo campo magnético da Terra, e que funciona assim como um escudo protector invisível, é algo que não existe em Marte e que será no futuro uma das fontes de preocupação para a preparação de missões tripuladas a Marte.

Se tivesse de apostar, em que ano diria que o primeiro homem chega a Marte?

Eu diria daqui a trinta anos, mas eu perco sempre as apostas (risos).

Elon Musk e a sua Space X tem um projecto bastante credível para chegar a Marte. Acha que vão bater a NASA na corrida, ou será necessário uma joint-venture para lá chegarmos?

Para chegar a Marte, sim. Para voltar já não sei...e para mim o regresso é uma das componentes mais importantes da viagem. De qualquer forma haver concorrência é salutar e positivo. Às vezes é preciso ser acicatado para nos abalançarmos para além das fronteiras. Veja-se o caso da ida à Lua, a corrida espacial entre os Estados Unidos da América e o então bloco Soviético foi talvez determinante para que essa aventura se concretizasse.

Uma das hipóteses defendidas para o passado do planeta – o próprio John Grunsfeld, falou nisso – é que um dia terá sido semelhante à Terra e algo aconteceu. O que pensa desta hipótese? Acha que de alguma forma as próximas três missões a Marte podem descobrir que o planeta albergou vida (ainda que microbiana)?

Os planetas evoluem ao longo da sua vida, um pouco como os seres vivos, na verdade Marte já foi mais quente do que agora e a sua atmosfera já foi muito mais densa do que agora, temos poucas dúvidas sobre isso. A meu ver, a questão prende-se com as escalas temporais. Como Marte é mais pequeno do que a Terra, perdeu o seu calor interno muito mais rapidamente e assim talvez não tenha havido o tempo necessário a que se gerasse vida e ela pudesse evoluir como na Terra...no entanto não é de se excluir a possibilidade disso mesmo ter acontecido...há que explorar e investigar.

Dê largas à imaginação e esqueça os micróbios. Como imaginaria os marcianos?

Como cientista não esqueço os micróbios, pois a haver vida hoje em Marte ela seria, seguramente, a nível microbiano... E mesmo assim eu tenho as minhas dúvidas. Retirando o chapéu de cientista, acho que qualquer descoberta nessa área trará surpresas enormes. Nós quando imaginámos extraterrestres acabámos sempre por cair na tentação de imaginá-los como uma combinação de elementos de espécies vivas terrestres... O que é normal. Mas vejamos, se na própria Terra a vida é capaz de atingir paroxismos de diversidade... Então o que esperar de um meio alienígena?

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