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Rui Tavares. “O BE pegou na nossa bandeira da disponibilidade governativa”
Rui Tavares falhou o objectivo de eleger um deputado

Rui Tavares. “O BE pegou na nossa bandeira da disponibilidade governativa”

Rui Tavares falhou o objectivo de eleger um deputado António Pedro Santos Humberto Costa 08/10/2015 11:51

O líder do Livre, que não elegeu qualquer deputado, diz que Cavaco faltou ao respeito aos eleitores e que o Bloco ocupou o espaço do seu partido. “Fomos vítimas do sucesso das nossas ideias”.

O Livre teve 39 mil votos, não chegou a 1% e ficou fora do parlamento. O que se passou?
Estamos num processo de audição. A maior parte das análises convergem na ideia de que fizemos uma campanha muito participada, mas que uma parte do nosso espaço foi tomado pelo discurso da disponibilidade governativa do Bloco de Esquerda. Fomos vítimas do sucesso das nossas ideias. Sempre dissemos que a questão da governabilidade à esquerda era central para o sistema político em Portugal e que as direcções partidárias nunca iam pegar nisso, apesar de muita gente à esquerda o pretender. A partir do momento em que uma direcção partidária pegou nisso, independentemente de nos podermos questionar se há sinceridade ou não, ocupou um determinado espaço em que estávamos.

“Temos o nosso espaço político, de uma esquerda libertária, cosmopolita e ecológica” 


Quer dizer que o Bloco pegou na vossa grande bandeira?
O BE pegou na nossa bandeira! Não permanentemente, algumas vezes de forma intermitente, que pode ser mais táctica do que estratégica, mas a verdade é que com isso ocupou um espaço importante. E uma candidatura emergente pode não ter o tempo nem o espaço suficiente para chamar a atenção para outras bandeiras, como por exemplo a da democracia participativa, a da ecologia ou a de uma visão diferenciadora do projecto europeu. Este é o ponto em que as análises coincidem e eu concordo. Além disto há o efeito das sondagens e do voto útil.

Fica-se com a ideia que o Bloco ganhou com a cisão.
O Livre não é uma cisão do BE. Temos o nosso espaço político, espaço de uma esquerda libertária, cosmopolita e ecológica. A grande maioria das pessoas não vieram exclusivamente do BE, mas de outros partidos. Há até quem nunca tenha feito política até agora. Todas dizem a mesma coisa, de uma forma surpreendente para quem acaba de ter uma derrota política: nunca se tinham sentido representadas desta maneira e nunca tinham podido fazer política de uma forma que as realizasse tanto. Isso é um património muito importante.

Mas foi uma aposta perdida?
Não olhamos para isto em termos de ganhar ou perder. Dificilmente poderemos comparar uma candidatura cidadã num quadro institucional e, sobretudo, mediático, com partidos que têm representação parlamentar e que têm uma possibilidade de fazer passar a sua mensagem nos media e de a poder alterar e calibrar. Um partido que está todos os dias nos media consegue saber se a sua mensagem resulta e se não resulta calibra o seu discurso. Nós não temos essa possibilidade. Demorámos meses a construir uma mensagem, um programa, uma candidatura cidadã, com eleições primárias e, quando chegámos a uma segunda convenção e tínhamos centenas de pessoas a votar pela primeira vez num programa político como nunca fora feito em Portugal, não estava lá ninguém para ver. Mas isso não esvazia o facto de as pessoas que o fizeram se sintam representadas. E, para a sua trajectória política, é completamente irrelevante histórias de posicionamento dos outros partidos, questões tácticas ou questões de cisões. 

“Foi fácil fazer passar uma lei que, do meu ponto de vista, viola o preceito da igualdade entre candidaturas”

E o espaço político que diz ter ocupado continua a existir?
Existe um espaço político e ideológico que é representado por esta candidatura e aonde antes não estava ninguém, e é suficientemente fértil para preservar os valores desta candidatura.

Queixa-se da pouca exposição mediática, mas algumas figuras da candidatura têm espaço de opinião nos media (Rui Tavares no Público, Daniel Oliveira na SIC e no Expresso).
As pessoas que têm alguma exposição mediática têm-no pelo seu mérito individual e não podemos transferir leitores para eleitores. Além disso, nos 15 dias da campanha, o que se passou foi uma total cartelização deliberada, nomeadamente das televisões, pelos partidos parlamentares. Tivemos aqui há uns meses uma primeira possibilidade de alteração à lei da cobertura das campanhas que foi unanimemente rejeitada e gerou tanto escândalo que depois foi fácil fazer passar uma lei que, do meu ponto de vista, viola o preceito da igualdade entre candidaturas. Durante quatro anos os partidos parlamentares ocupam o espaço mediático e, depois, o que se fez foi durante quinze dias, aonde ao menos se deveria ouvir os outros também, os partidos parlamentares também dominaram completamente o debate e a campanha televisiva. Passámos de uma lei igualitária que ninguém cumpria, mas que ao menos tinha um terreno de jogo mais ou menos equitativo, para uma lei feita para proteger os partidos parlamentares que legislaram em causa própria e em seu benefício. E depois tivemos uma cobertura em que fazer um programa detalhado para todos os sectores da acção do Estado, ou dizer uma atoarda no mercado, ou ter uma fotografia numa revista, valia exactamente o mesmo ou pior, valia muito mais. Há uma falha à responsabilidade cívica que está na base também do jornalismo. Se todos temos de fazer autocrítica acerca de tudo, não me parece justo que não se faça a dos jornalistas e comentadores. O único critério foi um critério não jornalístico mas institucional.

Como avalia os resultados eleitorais gerais?
Temos um sistema político à holandesa ou à dinamarquesa, em que vários partidos são proporcionalmente representados na AR. Creio que os portugueses se sentem confortáveis com isso. Não termos uma bipolarização forçada e termos uma pluralidade de partidos representada na AR, foi bom para o país. Depois, temos uma cultura político-institucional que, por várias razões, não favorece a formação de governos com essa pluralidade. Isto vai entrar em contradição e alguma coisa vai ter que ceder. Há um factor suplementar: há nas elites políticas do centrão, a começar pelo Presidente da República, um representante emblemático desse centrão, a tentativa transparente de excluir dos compromissos governativos praticamente 20% do eleitorado. Isto é um perigo para a democracia e para a própria sobrevivência do regime. As pessoas vão-se sentir defraudadas. Parece que há um anátema sobre BE e PCP, que não podem fazer parte das cogitações governativas. Até pelo facto de o PR e a direita os tentarem permanentemente excluir, faz com que BE e PCP não tenham que levar a sério a responsabilização governativa e possam ser tacticistas em relação à maneira como apresentam essa disponibilidade.

Não está de acordo com a intervenção do PR? 
Acho que o que o PR fez ao tentar pôr paus na engrenagem para que BE e PCP não façam parte dos compromissos governativos, foi um falhar às responsabilidades por parte da Presidência da República, é uma falta de respeito perante a Constituição e os eleitores.

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