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Hyeonseo Lee. Os gatos têm sete vidas, ela tem sete nomes

Hyeonseo Lee. Os gatos têm sete vidas, ela tem sete nomes

Raquel Carrilho 29/09/2015 21:00

Não passou fome nem foi politicamente perseguida, mas quando percebeu que era uma minoria na Coreia do Norte, fugiu. Porém, nunca parou de olhar para trás

Os gatos têm sete vidas, Hyeonseo Lee tem sete nomes. E seguramente muito mais do que nove vidas. O nome que agora usa, e que serve para se dar a conhecer ao mundo, é o que ganhou já na Coreia do Sul, onde hoje vive, 17 anos depois de ter fugido da Coreia do Norte, e onde continua a sonhar com uma Coreia reunificada. “Todos os dias tenho crises de identidade, mas quando paro para pensar não tenho dúvidas sobre quem sou: sou norte-coreana”, conta ao B.I. numa passagem por Lisboa para apresentar o seu livro “A Mulher com Sete Nomes” (ed. Planeta).
Hyeonseo cresceu a achar que vivia no “melhor país do mundo”. Era isso que ouvia dizer nas ruas, era isso que via no único canal de televisão que existia na Coreia do Norte. Filha de um militar, a sua família, abonada, nunca foi perseguida politicamente. Mas aos 15 anos, o seu mundo perfeito foi abalado de uma forma que nunca esqueceria: a irmã da sua mãe enviou uma carta à família dizendo que não comiam há dias, que tinham “os corpos no chão de casa, à espera da morte”.

Corria o ano de 1997 e Hyeonseo passou a ver a morte de frente. A fome assolou o país de tal forma que levou a vida a cerca de três milhões de pessoas. No país supostamente perfeito tropeçava-se na morte a cada esquina. E não eram só mortos anónimos. Era família. Nessa altura, Hyeonseo escondia-se por debaixo dos cobertores, à noitinha, quando toda a casa já dormia. Ligava o televisor e ficava a ver canais chineses, um ilegal privilégio a que as gentes que viviam mais próximas da fronteira conseguiam aceder. Uma ousadia, soube mais tarde, que lhe podia ter valido uma execução pública.

Era uma miúda que, por um lado, ouvia relatos de fome no seu país – apesar de não a sentir -, por outro sentia o fascínio de um país, mesmo ali ao lado, que tinha tantas mais cores do que a Coreia do Norte. E lá no fundo da memória estavam ainda as palavras de uma adivinha que previu que um dia “comeria arroz estrangeiro”. Por tudo isto, quis espreitar do outro lado do muro. Ou antes, do rio, já que era apenas um rio que separava a sua terra, Hyesan, da cidade chinesa de Changbai. Foi isso, a curiosidade – que não matou este gato – que a fez, aos 17 anos, atravessar o rio sozinha. Foi para passar um dia, mas deixou anoitecer e já era tarde demais para voltar. A partir daí, sabia que nunca mais poderia regressar: seria considerada desertora e executada.

Sozinha na China, um país que acabou por descobrir não ser assim tão colorido, teve de ganhar a vida e aprender a dominar o mandarim, de tal forma que, quando foi detida pela polícia, no meio da rua, sob acusações de ser uma imigrante norte-coreana, conseguiu convencer as forças policiais de que era chinesa. “Estava tão assustada, achava que o meu coração ia explodir. Se alguma coisa parecesse estranha, podia ser presa e deportada. Achei que a minha vida ia acabar”, explicou em 2013, na palestra que deu na TED e que a tornou conhecida em todo o mundo, somando actualmente perto de 4 milhões e 500 mil visualizações. Foi a primeira desertora norte-coreana a contar a sua história em inglês, sem o auxílio de um tradutor.

Foi desde esse momento que os olhos do governo norte-coreano não mais deixaram de acompanhar a sua vida. “Viram a minha palestra e sei que conhecem o meu livro, o próprio governo da Coreia do Sul me informou que eu estava numa lista de alvos e tinha de ter cuidado. Já recebi ameaças anónimas, até me ofereceram segurança 24 horas. Não quero viver essa vida, não quero assumir que sinto medo, mas claro que sinto. Sobretudo pelos que mais amo.”

Salvar a família

Depois de uma década a viver na China, decidiu regressar à Coreia, mas do Sul. Queria voltar ao seu país. Instalou-se em Seul, onde acabou por conhecer um norte-americano que a ajudou com o inglês e é hoje o seu marido. A vida seguia em frente para Hyeonseo. Mas a verdade é que nunca segue totalmente quando os que mais amamos ficam para trás. E correm risco. Diário. Por isso, não descansou enquanto não conseguiu resgatar a mãe e o irmão do regime norte-coreano. Em 2009, ajudou –e acompanhou - a família a cruzar a fronteira e atravessar a China até ao Laos. Gastou tudo o que tinha em subornos. Quando acreditava que o pior tinha passado, a mãe e o irmão são detidos e acusados de serem imigrantes ilegais em Vientiane, capital do Laos.

Quando olha para trás, de tudo o que viu e viveu, nada é mais perturbador do que o momento em que reencontrou a mãe, no pátio da prisão, para a resgatar, com a ajuda de um australiano que quis, através de Hyeonseo, ajudar o povo norte-coreano. “Quando soube que eles tinham sido presos deixei de sentir o meu corpo, mas ao mesmo tempo senti que algo me puxava para o fundo. Achei que nunca mais os veria na vida. Quando fui ter com eles à prisão, lembro-me de ver a minha mãe, a uns metros de distância, e ela não se mexia. Disse-me depois que não acreditava que eu estava ali, por isso estava a beliscar-se. A cara dela tinha diminuído tanto, tinha perdido tanto peso… Ela só dizia que eu era a sua salvadora.”

Foi neste momento que percebeu que tinha de contar a sua história e ajudar a chamar a atenção para “a tragédia que não termina” na Coreia do Norte. Mesmo tendo em conta que escrever seria - e foi - um processo doloroso. “Há coisas que queria apagar da minha vida e que, com o livro, me vi obrigada a recuperar. Houve momentos em que tive de parar durante alguns dias porque não conseguia mais. Tenho muitos traumas na minha vida, percebo que muitos norte-coreanos não queiram contar as suas histórias, porque é muito duro estar sempre a reviver o que vivemos e o que aqueles que amamos viveram.” Foi por isto que resolveu ser a voz dos que não conseguem falar. Fez do activismo a sua missão. “Sinto que tenho essa responsabilidade. E quando acontecer a reunificação, vou estar na primeira fila para regressar e ajudar o país a reerguer-se.”

Por isto mesmo anda a correr o mundo, a promover o seu livro e a chamar a atenção para o que ainda se passa na Coreia do Norte. E, por vezes, nestas viagens descobre um pouco mais de si. “Há duas semanas estive em Berlim, um país que também foi dividido, e conheci uma mulher da minha idade que me contou o momento em que soube da queda do Muro. Chorei a ouvi-la, porque esta é também a minha história. É com isso que sonho todos os dias. No dia seguinte, fui ao Muro, subi às cavalitas do meu marido e escrevi lá “Norte - Sul - Reunificação”, e assinei. Já não me lembrava da última vez que tinha chorado. Chorei tanto no passado que sentia que as minhas lágrimas tinham secado, de tal forma que o meu marido dizia que eu era a mulher mais fria que ele conhecia. Neste dia, chorei como um rio.” 

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