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Porque não temos um Syriza? A culpa pode ser do mau trabalho de PS e PSD
Fracasso do Syriza não significa o fim do protesto dos eleitores

Porque não temos um Syriza? A culpa pode ser do mau trabalho de PS e PSD

Fracasso do Syriza não significa o fim do protesto dos eleitores Yorgos Karahalis/ap Filipe Paiva Cardoso 19/09/2015 18:06

Alexandre Afonso, professor de Políticas Públicas na Holanda, explica ao i porque não surgiu nenhum “fenómeno de esquerda” em Portugal.

É irónico, mas será uma das razões para a inexistência de um Syriza ou Podemos português. O mau comportamento da economia portuguesa no início do século XXI, resultado de 30 anos de poder alternado entre PS e PSD, terá desempenhado um papel fundamental na inexistência de partidos de protesto a roubar grandes fatias do eleitorado ao “bloco central”, como se verificou em Atenas ou Madrid, por exemplo.

A inexistência de um Syriza ou Podemos em Portugal foi a questão a que Alexandre Afonso, professor dePolíticas Públicas naUniversidade deLeiden (Holanda) tentou responder num artigo publicado no blogue daLondon School of Economics (LSE). Otambém investigador nas áreas de mercado laboral e das reformas da austeridade identifica “várias razões possíveis para explicar o porquê de Portugal não ter registado a viragem à esquerda” como a que se assistiu em Espanha ou na Grécia.

Estagnados As razões identificadas porAlexandre Afonso são algumas, a começar então pela economia. “A primeira está na trajectória económica:um boom no período pré-crise permitiu aos partidos do poder na Grécia eem Espanha apostar em estratégias clientelísticas. Em contraste, Portugal viveu um longo período de estagnação desde que entrou na zona euro”, refere no artigo na LSE. Como os portugueses já viviam em crise antes da crise da dívida, “a mudança não foi súbita”, até porque “a austeridade já tinha começado antes”. Ao i, o investigador recorda os números da OCDEpara o PIB de cada um dos três países:entre 1999 e 2008, as economias espanhola e grega cresceram mais do dobro que a portuguesa.

“Em Portugal, a crise não foi um choque tão súbito como na Grécia ou Espanha, porque a década de 2000 foi essencialmente um longo período de estagnação, com défices crónicos e já com políticas de redução da despesa”, detalhou em entrevista ao i (ver pág. 14). “A crise foi de certeza um choque, mas foi de ‘mau’ para ‘muito mau’. Em Espanha e na Grécia, o pré-crise foi de taxas altas de crescimento e de aumento da despesa, com juros baixos”, prossegue, rematando: “Nesse sentido, a crise nesses países transformou uma situação de euforia em catástrofe.” O trauma foi maior, logo a reacção também.

No artigo da LSE, o autor salienta que no actual contexto, “o que realmente destaca Portugal é a habilidade dos partidos do centro de reter níveis relativos de apoio eleitoral, contendo a eventual subida da esquerda que observamos noutros países”. As alternativas existentes, diz, não têm ganho com a crise. Já em Atenas eMadrid, tanto o Syriza como o Podemos conseguiram capitalizar a impopularidade da austeridade, tornando-se sérios concorrentes “aos partidos tradicionais do centro-esquerda, que tiveram enormes dificuldades em conciliar os seus ideais com a austeridade promovida pela UE”, aponta, recordando que o PASOK quase desapareceu.

culpa do ps e a força do pc Outra razão que Alexandre Afonso aponta para a inexistência de um “fenómeno Syriza” em Portugal está na falta de deterioração do Partido Socialista:“Em contraste com o PASOK, que implementou duras medidas de austeridade em coligação com a Nova Democracia, os socialistas portugueses conseguiram evitar as culpas ao deixar o poder quando o país foi resgatado. A mudança na liderança também tornou possível ao partido desligar-se da anterior governação [de Sócrates]”, considera. 

E se o PS conseguiu conter a fuga de eleitores ao não fazer parte do executivo que implementou as medidas, também a força do PCPreduziu o espaço para um Syriza português. “Aterceira razão está no curto espaço político que o PCPdeixa para um novo challenger de esquerda. Apesar do tamanho modesto e do discurso de velha guarda, é um partido bem organizado e que conta com um eleitorado fiel, o que torna difícil que surjam novas forças mobilizadoras do mesmo campo”, refere o professor.

desinteresse No artigo para aLSE, outro ponto focado por Alexandre Afonso é a falta de interesse da população pelos temas políticos. “Um factor crucial para a ausência de um surto populista em Portugal é o baixo grau de politização dos eleitores”, diz. Para reforçar a ideia, cita os inquéritos da “European Social Survey”, que apontam para uma taxa de 40% de portugueses completamente desinteressados da política, contra menos de 30% em Espanha e menos de 20% em Itália – sem dados para a Grécia. 

“Hipoteticamente podemos dizer que eleitores insatisfeitos mas politizados escolhem partidos de protesto (ter voz), enquanto eleitores insatisfeitos mas apáticos optam pela abstenção (afastamento). Considerando os níveis de abstenção, terá sido esta segunda que singrou em Portugal”, afirma Alexandre Afonso.

Já sobre se a mudança de postura do Syriza representa o fim dos “fenómenos” de esquerda naEuropa ou se as eleições ainda contam para alguma coisa, isso são respostas que encontrará na entrevista da página 14. 

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