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Alegre sobre Corbyn: “É o funeral do blairismo e o renascer dos valores socialistas”
Ala esquerda do PS festeja vitória de Corbyn mas alguns socialistas temem mais uma desilusão

Alegre sobre Corbyn: “É o funeral do blairismo e o renascer dos valores socialistas”

Ala esquerda do PS festeja vitória de Corbyn mas alguns socialistas temem mais uma desilusão ANDY RAIN/EPA Luís Claro e Ana Sá Lopes 14/09/2015 11:15

A vitória de Corbyn divide o PS. Alberto Martins está entusiasmado, Zorrinho diz que é um “regresso ao passado”e Álvaro Beleza fala de uma “prenda aos tories”.

Jeremy Corbyn, o mais radical dos trabalhistas, esmagou os adversários e sucedeu a Ed Milliband – derrotado nas eleições gerais com uma agenda socialista moderada – recuperando quase todas as velhas bandeiras do Labour. É uma espécie de revolução no Reino Unido, ao ponto do novo líder dos trabalhistas ter sido logo ontem acusado pelo primeiro-ministro David Cameron de “ameaça à segurança nacional, à nossa segurança económica e à segurança das vossas famílias”. Em Portugal, a vitória do trabalhista de 66 anos, também causa fracturas dentro do PS.
“Eu estou contente. Se fosse inglês teria votado no velho Corbyn. Ou novo Corbyn”, diz Manuel Alegre ao i, para quem a vitória do homem que sempre se opôs ao “New Labour” de Tony Blair “é uma resposta de esperança ao radicalismo ideológico da direita e ao poder hegemónico do capital financeiro”. 

Alegre afirma, em declarações ao i, que os quase 60% com que Corbyn venceu as eleições internas do Partido Trabalhista significam “o funeral do blairismo e das ilusões pérfidas da terceira via” e “o renascer dos valores do trabalhismo britânico e do socialismo”.



“Eu estou contente. É uma resposta de esperança ao radicalismo ideológico da direita e ao poder hegemónico do capital financeiro. É natural que haja para aí muita gente com pele de galinha”  
Manuel Alegre
Ex-dirigente do ps



Pode o resultado de Corbyn ter efeitos para lá do Reino Unido? Alegre responde: a vitória de Jeremy Corbyn significa “o renascer dos valores do trabalhismo britânico e da ideia socialista no Reino Unido e sabe-se que o Reino Unido teve sempre grande influência. As revoluções no Reino Unido foram sempre revoluções democráticas, pacíficas, mas quase sempre tiveram consequências no resto da Europa”.

“GENTE COM PELE DE GALINHA” Alegre lembra que “a primeira grande revolução social do pós-guerra foi feita pelo partido trabalhista britânico. Fizeram o Serviço Nacional de Saúde, fizeram a Segurança Social pública, um extraordinário programa de habitação que acabou com as barracas de miséria em Londres, nacionalizaram os sectores estratégicos da economia”.

 

“É sobretudo um grande abanão na sociedade com o regresso aos princípios e aos valores” 
Alberto Martins 
Deputado do PS



Para o ex-candidato presidencial, esta vitória “é uma grande lição ao dogmatismo ideológico da direita e sobretudo a este poder absoluto do capital financeiro na Europa e no mundo”. Perante tão esmagadora vitória, Alegre admite que “é natural que haja por aí muita gente com pele de galinha”.

Alberto Martins, ex-ministro da Justiça e ex-líder parlamentar do PS, também está feliz com a vitória de Corbyn. “É uma grande esperança para uma concepção socialista moderna, identificada com os grandes valores do socialismo, a solidariedade, a liberdade, o combate profundo às desigualdades sociais e com a necessidade de afirmação na Europa contra o neoliberalimo dominante”.

 

“Corbyn não representa o caminho que eu idealizo paraa social-democracia moderna. Está próximo do PS de 1980”
Carlos Zorrinho
Eurodeputado do PS



Para Alberto Martins – que fez parte do secretariado nacional no tempo de António José Seguro – a liderança de Corbyn representa “um regresso aos princípios e aos valores”. Em declarações ao i, Alberto Martins regista que a espantosa vitória de Jeremy Corbyn “é sobretudo um grande abanão na sociedade com o regresso aos princípios e aos valores e o regresso à necessidade da afirmação da Europa dos valores do socialismo democrático”. Ao votarem maciçamente em Jeremy Corbyn, os trabalhistas formularam “um recusa fundamental do blairismo”, afirma Alberto Martins. 

 

“A vitória de Corbyn é uma boa notícia para a Europa”
Marisa Matias
Eurodeputada do BE



Álvaro Beleza, que também fez parte da direcção de António José Seguro e que foi o interlocutor de António Costa na discussão sobre a integração da minoria segurista na lista de deputados, é radicalmente contra Jeremy Corbyn. Para o antigo porta-voz para a saúde do PS, a vitória de Corbyn representa “uma prenda eleitoral para o Partido Conservador”. 

“PRENDA ELEITORAL PARA TORIES” “Temo que os meus amigos e camaradas socialistas que estão muito apaixonados vão ter outra desilusão como tiveram este ano com o Syriza na Grécia que meteu o anti-austeritarismo na gaveta”. Beleza acha que “do ponto de vista da emoção e do coração [Corbyn] vai apaixonar a esquerda europeia durante uns meses”. “Há uma coisa que para mim é clara: as eleições ganham-se ao centro e isto é uma prenda eleitoral para o Partido Conservador. E é preciso reconhecer que David Cameron é um líder conservador ao centro, não é Thatcher”.

Anti-corbynista, Álvaro Beleza faz a defesa da Terceira Via: “Os partidos socialistas e sociais-democratas só têm sucesso com programas ao centro. A Terceira Via não é mais do que a social-democracia, a terceira via entre o socialismo e o liberalismo. A história demonstra que é a única via que dá vitórias consistentes à esquerda”. 
“Em Portugal foi assim com Soares no anos 70, foi assim com Guterres e foi assim com Sócrates em 2005. O PS ganha quando é moderado. Espero que agora aconteça o mesmo com António Costa porque tem um programa macroeconómico moderado”.

Carlos Zorrinho, eurodeputado e ex-líder parlamentar, também se distancia claramente de Jeremy Corbyn. “Do meu ponto de vista Corbyn não representa o caminho que eu idealizo para a social-democracia moderna”, afirma ao i. “Se eu votasse em Inglaterra não votava Corbyn, porque representa o passado, representa um certo saudosismo, um regresso ao passado e as soluções para o mundo não se encontram no passado”. 

Para o eurodeputado, o programa de Corbyn está mais perto do Bloco de Esquerda do que do PS. “O PS em Portugal foi sempre fazendo a sua modernização ideológica e está num outro patamar. Penso que Corbyn provavelmente estará próximo de um PS em 1980. Isto significa não enfrentar os desafios da globalização”. O Bloco de Esquerda está efectivamente entusiasmado com Corbyn: “Uma notícia muito importante para a Europa”, diz a eurodeputada Marisa Matias.

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