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João Gabriel. O homem a quem os rivais chamam Mr. Burns
A alcunha Mr. Burns veio dos dragões e foi aproveitada por BdC

João Gabriel. O homem a quem os rivais chamam Mr. Burns

A alcunha Mr. Burns veio dos dragões e foi aproveitada por BdC António Pedro Santos Pedro Miguel Neves (Texto) Carlos F. Monteiro (Ilustrações) 21/08/2015 11:29

Chegou ao Benfica em 2008 para dirigir a comunicação. Desde então envolveu-se em inúmeras batalhas.

“Há deslumbrados que merecem uma boa luta e há cretinos que são só isso... cretinos.” A frase, no Twitter de João Gabriel, que se refere a Jesus e Bruno de Carvalho, foi a última polémica em que o director de comunicação do Benfica se envolveu.

Desde que Luís Filipe Vieira (LFV) contratou o antigo assessor presidencial de Jorge Sampaio que este tem defendido a direcção do clube com unhas e dentes. Alterna as críticas mordazes e perspicazes com o discurso inflamado típico de um adepto – um estilo que, mesmo entre os sócios, não reúne consensualidade.

João Gabriel (JG) chega à Luz em Maio de 2008 pela mão de Vieira e realiza uma profunda remodelação na comunicação do clube. A partir daí, o presidente começa a falar menos e, quando o faz, o seu discurso é escrito pelo antigo jornalista da TSF e SIC.

No início das funções assume a pasta do futebol profissional. Desenvolve e profissionaliza a estrutura de comunicação e torna-se um dos homens da confiança do líder encarnado.

É por isso que, no fim de 2012, LFV tudo faz para o convencer a não deixar a Luz. Gabriel pretende descansar de um cargo exigente e sai em Janeiro. Pouco depois, quando LFVjá pensa numa solução alternativa, regressa. Hoje mantém o cargo, mas trabalha sempre de perto com o líder, como fizera com Sampaio.

A comunicação dofutebol passa para segundo plano, excepto quando tem de intervir publicamente em defesa do clube.

Sporting

O Verão quente de 2015 começa em Junho, com a mudança de Jesus para o rival Sporting.

Vieira assume um discurso prudente, enquanto JG arrasa o técnico (através da sua conta pessoal no Twitter): “Sou grato a Jesus! Para o ano vamos ter treinador comprometido com o Benfica, e não apenas com o seu ego e conta bancária!”, “Sou grato a Jesus pela ingratidão que revelou. Mostrou que merecíamos mudar!” ou “Sou, ainda, grato a Jesus porque sempre partilhou os títulos com toda a estrutura do Benfica. Solidário com todos. Em Alvalade vai ser igual.”

O treinador, com quem tinha trabalhado durante seis anos, passa a ser o seu ódio de estimação. Gabriel escolhe o timing para a divulgação de um processo judicial que o Benfica vai instaurar ao seu ex-técnico (a exigir 7,5 milhões de euros) para o dia anterior ao jogo dos leões no play-off da Liga dos Campeões.

Critica-o fortemente em declarações ao “Expresso” – “Não é por ter ganho três títulos de campeão nacional (...) que deixa de ser um deslumbrado que acha que o mundo gira todo à volta dele, que entende que é melhor que Mourinho” – e explica que JJ já tinha todos os defeitos que lhe aponta quando treinava na Luz: “Quando estamos casados com alguém, temos de aceitar e calar os defeitos e as faltas de carácter. Mas esse dever termina quando o casamento chega ao fim.”

A intervenção pública não agradou a todos os adeptos benfiquistas; alguns não gostaram de ver o nome do treinador que venceu três campeonatos nacionais no clube enxovalhado na praça pública.

Compare com uma entrevista ao jornal “A Bola” em 2009: “Há uma tendência para desvalorizar o que foi conseguido. Jorge Jesus trouxe futebol de qualidade ao Benfica como não se via há muitos anos. Claro que tudo seria diferente se tivéssemos ganho o campeonato, mas neste caso em concreto não temos de mudar de treinador, temos é de mudar de árbitros.”

Antes de JJ, o clube de Alvalade já tinha sido alvo. Em Novembro de 2011, os leões queixam-se da caixa de segurança e da falta de bilhetes para um dérbi na Luz.

“Foi claro que houve lugares vazios na zona visitante. É claro o que está a suceder agora numa zona de segurança que foi autorizada pela Liga, bombeiros e PSP. Não houve fosso, ninguém caiu ao fosso.”

Uns dias antes, dois adeptos leoninos tinham sido hospitalizados por caírem no fosso de Alvalade após o Sporting-U. Leiria. A provocação de JG roça o mau gosto.

Quando o Benfica ganha a final da Taça da Liga ao rival (2009), Gabriel dá uma conferência de imprensa sozinho, com o troféu ao lado. “Há uma diferença clara entre a frustração de uma derrota e a total falta de fair-play e tremendo mau perder evidenciado desde sábado”, diz em alusão às críticas dos leões à arbitragem.

FC Porto

O bate-boca com os rivais do Norte também tem os seus momentos altos.

“Há uma pessoa que em qualquer país fora de Portugal seria caso de estudo em qualquer cadeira de Direito Penal, enquanto em Portugal continua a ser recebido na Assembleia da República. Grande parte do currículo de 30 anos que tem devia ser apresentado como cadastro, e não currículo”, diz sobre Pinto da Costa.

Em Março, num artigo de opinião no jornal espanhol “As”, escreve sobre as arbitragens, um tema recorrente nas suas intervenções. “Recordando a história dos últimos 30 anos em Portugal, eu diria que ouvir o FC Porto queixar-se da arbitragem é o mesmo que ouvir Fidel Castro queixar-se do comunismo cubano.”

A chegada de Lopetegui traz um novo alvo para o assessor.

“A pequenez revela--se de muitas formas. O Apito Dourado existiu, mas alguns insistem em falar de arbitragens!” (ilustra a frase com uma foto de um cesto de fruta, um apito dourado e café com leite) ou “Onze meses depois de chegar, o basco já percebeu que em Portugal nenhum manto protector se compara a este! #Rumoao34 (com uma foto de adeptos encarnados)”, escreve no Twitter.

Um raro sinal de fair-play e discurso positivo chega em Maio, com a confirmação do bicampeonato.

“Não alinho no coro dos que rebaixam Lopetegui por ter ajoelhado. Sinal de compromisso com o seu trabalho e clube, e isso merece o meu respeito. Como mereceu Jesus há dois anos [quando se ajoelhou no Dragão]!”

Quando ganha, mostra boa disposição:“Mr. Burns vai activar o reactor #34 da central de Benfica.” O futebol português não é um episódio dos Simpson, mas merecia menos episódios polémicos e mais destaque para os verdadeiros craques, os futebolistas. Esses, nas actuais estratégias de comunicação, têm de ficar quase sempre calados. É pena.

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