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Jeremy Corbyn. O estranho socialista de esquerda
"Não sou apoiante de uma intervençãomilitar contra o ISIS"

Jeremy Corbyn. O estranho socialista de esquerda

"Não sou apoiante de uma intervençãomilitar contra o ISIS" Ana Sá Lopes 11/08/2015 19:57

Ainda a ressacar da derrota tremenda das eleições de Maio, o Labour prepara-se para escolher o sucessor do fracassado Ed Milliband. Jeremy Corbyn, o mais velho dos candidatos e último a entrar na corrida, antiblairista militante mesmo nos tempos áureos de Tony, afirma-se agora numa posição privilegiada para vencer as eleições para a liderança do Partido Trabalhista em Setembro. Quem é este homem que, aos 66 anos, está no topo das sondagens em defesa do “velho trabalhismo”?

a quinta-feira fez 70 anos que foi lançada a bomba atómica sobre Hiroxima. Discursando na Praça Tavistock, em pleno bairro londrino de Bloomsbury, numa cerimónia evocativa da tragédia, Jeremy Corbyn defendeu o seu plano para o desarmamento nuclear do Reino Unido. Se Corbyn chegar a primeiro-ministro (o que nunca acontecerá antes dos seus 70 anos, nas eleições de 2020), irá iniciar um processo de transição para a retirada total de armas nucleares do Reino Unido.

Os empregos que se vão perder com o desinvestimento nas indústrias de defesa, diz Corbyn, serão recuperados com investimento em projectos de novas infra-estruturas. Nem Clement Attlee – o socialista que governou a Grã-Bretanha no tempo da Segunda Guerra Mundial em coligação com Churchill e que foi eleito primeiro-ministro em 1945, pai do serviço nacional de saúde inglês – foi tão longe. Antes pelo contrário: os planos para o Reino Unido construir a sua própria bomba atómica vieram precisamente da cabeça de Clement Attlee.

Apesar de se rever no velho trabalhismo, Corbyn não é Attlee e pensa de maneira radicalmente diferente: “Enquanto signatário do Tratado de não Proliferação de Armas Nucleares, o Reino Unido tem de estar comprometido para acelerar progressos concretos para atingir o objectivo do desarmamento nuclear. Importantes figuras da estrutura militar já descreveram as nossas armas nucleares como ‘militarmente inúteis’. O facto de as possuirmos encoraja outros países a procurarem um arsenal semelhante ao mesmo tempo que prejudica os esforços que estão a ser feito pelo avanço da causa do desarmamento nuclear internacional.”

O programa Trident, na visão de Corbyn, é para parar. Desta vez Jeremy Corbyn foi à praça Tavistock, em Bloomsbury, assinalar o aniversário da bomba atómica sobre Hiroxima como candidato à liderança do Partido Trabalhista. Mas aparece lá todos os 6 de Agosto. É um dos principais dirigentes britânicos da campanha para o desarmamento nuclear internacional.

Desde sempre opositor de Tony Blair e do New Labour – a famosa terceira via do trabalhismo que governou o Reino Unido durante dez anos –, Jeremy Corbyn defende que Blair devia ser julgado por crimes de guerra se existirem provas de que violou a lei internacional na guerra do Iraque de 2003. Esta semana, Corbyn desafiou Blair a “confessar” como combinou com George W. Bush a invasão do Iraque.

Foi na BBC que, interrogado sobre se o antigo primeiro-ministro deveria ser sujeito a julgamento, Corbyn respondeu: “Se tiver cometido um crime de guerra, sim. Todos os que cometeram crimes de guerra deveriam sê-lo.” Para Corbyn (membro activo do movimento Stop the War naqueles anos, a guerra do Iraque “foi ilegal”: “Kofi Annan confirmou que se tratava de uma guerra ilegal.” Corbyn acha que Blair tem de se explicar. “Ele vai ser julgado por isso? Não sei. Ele pode ser julgado por isso? Provavelmente.”

Quando tudo se souber sobre os bastidores da guerra do Iraque, diz Corbyn, “Tony Blair e todos os que tomaram as decisões vão ter de arcar com as consequências”. Na entrevista à BBC, Jeremy Corbyn disse que nunca aprovaria o envolvimento do Reino Unido em ataques aéreos contra as tropas do Estado Islâmico no Iraque e na Síria. “Eu quero isolar o ISIS, mas não penso que uma campanha de bombardeamentos na Síria contribua para a sua derrota. Penso que isso os tornará mais fortes. Não sou apoiante de uma intervenção militar.” 

Regresso à escola
Em 1999 Corbyn e a ex-mulher, Claudia Bracchita, admitiram em público que se divorciaram por causa de opiniões opostas sobre a escola que o filho Benjamin, de 11 anos, deveria frequentar. Por causa das suas convicções ideológicas, o agora candidato à liderança do Partido Trabalhista defendia que Benjamin deveria ser matriculado na escola pública da área da residência, mal colocada nos rankings nacionais, enquanto a mulher queria que o filho fosse educado num dos melhores colégios do país.

Em 1999, num comunicado que tornou público, Claudia Brachitta afirmou: “A educação do meu filho é a minha prioridade absoluta e esta situação deixou-me sem alternativa senão aceitar um lugar na Queen Elizabeth Boys’School. A decisão foi tomada exclusivamente por mim, sem o consentimento do meu marido. A dificuldade de tomar decisões nestas circunstâncias teve um papel importante na decisão do divórcio.” Apesar de afirmar que a decisão de terminar o casamento foi “penosa”, a ex-mulher de Corbyn “culpa-o” implicitamente por estar a prejudicar o filho à sua carreira política. “Não posso comprometer o futuro do meu filho por causa da carreira do meu marido. Lamento as dificuldades que isso possa trazer a Jeremy, mas era uma decisão impossível.

Ninguém sai disto a ganhar.” O próprio Jeremy Corbyn confirmou que o motivo do fim do casamento de 12 anos foi a discórdia à volta da escola do filho. No Reino Unido, os políticos trabalhistas, defensores da escola pública, são duramente criticados pela opinião pública quando decidem matricular os filhos em escolas privadas. Aconteceu com Tony Blair quando enviou um dos filhos para uma escola de elite e também com Harriet Harman, antiga ministra da Segurança Social, que sofreu um “problema” idêntico. A relutância de Corbyn em ceder neste ponto levou ao divórcio. Aliás, numa entrevista recente ao “The Guardian”, Corbyn admitiu que não era capaz de ter uma relação com alguém que não fosse de esquerda: “Ao fim e ao cabo o que está em causa são valores. E isso conta.”

Defensor da renacionalização dos Caminhos de Ferro ingleses, contra o Tratado Transatlântico e adepto do aumento dos impostos sobre os mais ricos, Corbyn é um crítico das medidas de austeridade e da “narrativa” dos anos de crise. “A austeridade foi utilizada como capa para reconfigurar uma sociedade e aumentar a desigualdade e a injustiça. O Labour precisa de oferecer uma alternativa económica coerente.” De todos os candidatos à liderança do Partido Trabalhista, Corbyn é o único a defender o aumento do investimento público para apoiar o crescimento da economia e a criação de emprego. Aposta também na construção de casas a custos controlados nas grandes cidades e na reindustrialização do Norte de Inglaterra.

Contra a austeridade enquanto política económica, austero na vida privada e pública. Jeremy Corbyn não tem automóvel, anda de bicicleta e diz que não gasta muito dinheiro no dia-a-dia. Na altura do escândalo com as despesas de deputados que abalou o parlamento britânico ficou-se a saber que o veterano deputado Corbyn (que está no parlamento desde 1983) era dos que menos gastava nas suas funções.

Apesar de se ter candidato à última hora – só no fim do prazo conseguiu reunir as condições necessárias, nomeadamente o apoio de 35 membros da Câmara dos Comuns, muitos dos quais só assinaram a proposta de candidatura com o objectivo de “alargar o debate interno” –, Corbyn é hoje o candidato com mais possibilidades de ser eleito para suceder a Ed Milliband.

Numa sondagem publicada pelo “Daily Mirror” a 27 de Julho, Jeremy Corbyn estava com uma vantagem de 20 pontos sobre os outros candidatos à liderança do Partido Trabalhista. Em segundo lugar está Yvette Cooper (ministra-sombra de Ed Milliband para a Administração Interna e mulher de Ed Balls, o responsável-sombra pelo Tesouro na equipa Milliband), em terceiro Andy Burnham (ministro para a Saúde no governo-sombra de Ed Milliband) e em último lugar Liz Kendall, a mais blairista do grupo de candidatos à sucessão de Ed Milliband, a quem os opositores internos chamam a trabalhista “Torie” – ou seja, um submarino conservador dentro do Partido Trabalhista. Kendall chegou a estar bem colocada nas sondagens para a liderança do Labour, mas foi por aí abaixo. Os principais sindicatos que financiam o Partido Trabalhista já declararam o seu apoio a Jeremy Corbyn. O apoio dos sindicatos foi decisivo na vitória de Ed Milliband contra o irmão, David, há quatro anos.

Daqui a uma semana, a 14 de Agosto, os militantes do Partido Trabalhista – e os dos sindicatos – receberão os boletins e poderão votar por correio ou online. Os boletins têm de ser devolvidos até 10 de Setembro. Os resultados serão conhecidos a 12. O sistema é de voto preferencial: os eleitores ordenam os candidatos segundo as suas preferências.

Se as sondagens se confirmarem, o Labour terá um novo líder que revolucionará tudo aquilo que o partido tem sido nos últimos anos. Será eleito um homem que sempre foi da ala esquerda (ou mesmo extrema-esquerda do partido), defensor dos palestinianos, que simpatizou com a luta do IRA na Irlanda do Norte no auge da guerra (o que lhe causou enormes dissabores internos) e quer inverter a política económica regressando aos velhos princípios do socialismo.

É uma utopia? É um avião? É um pássaro? É o super-homem? É pelo menos uma pedrada no charco do socialismo habitual.

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