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Helly Luv. Quando a música é uma arma
“Podia ter feito este videoclipe em Los Angeles, mas não mostraria a verdade da guerra”

Helly Luv. Quando a música é uma arma

“Podia ter feito este videoclipe em Los Angeles, mas não mostraria a verdade da guerra” Raquel Carrilho 07/08/2015 23:32

O tema “Revolution”, cujo videoclipe foi gravado em pleno palco de guerra, no Iraque, fez com que a cantora HellyLuv - para muitos, a Shakira curda - passasse a ser um alvo a abater para o ISIS.

Ali não há figurantes, mas homens, mulheres, crianças reais. São curdos da região de Mossul, noIraque, um dos palcos principais do conflito entre a milícia curda peshmerga e o ISIS. No centro das imagens, uma extravagante mulher de cabelo cor de fogo, trajes de inspiração militar e eyeliner carregado, serpenteia de forma sensual no topo de um tanque militar enquanto canta, numa batida bem ritmada, “It’s a revolution!”. O videoclipe, lançado no final de Maio mas que só agora começa a correr mundo, conta já com mais de um milhão e 700 mil visualizações no YouTube.

A protagonista é Helly Luv, uma cantora de 26 anos que muitos consideram a Shakira curda. Este tema, “Revolution”, já lhe valeu a inclusão numa lista de alvos a abater pelo ISIS. Mas Helly diz não ter medo. “O que estou a fazer é mais importante do que o medo que posso sentir. Sinto que posso fazer chegar a minha voz a milhões de pessoas e falar por aqueles que não o podem fazer. Se me ameaçam, isso significa que a mensagem de “Revolution” é tão poderosa quanto as suas armas. E a música é a minha arma”, disse numa entrevista ao programa “After the Bell”, da Fox.

O videoclipe de “Revolution” foi rodado a cerca de três quilómetros de distância da frente onde se encontravam os jihadistas e foram inúmeras as vezes que as filmagens tiveram de ser interrompidas devido a tiroteios e bombardeamentos. Aliás, a equipa precisou de autorização dos curdos para filmar na frente de batalha. A autorização chegou, mas com um aviso: “ Se acontecer alguma coisa, corram o mais depressa que conseguirem.”

Estas dificuldades ditaram que fossem necessários três meses de filmagens – um período durante o qual a equipa teve de estar em permanente standby. “Os pershmerga contactavam-nos a dizer que podíamos ir naquele dia ou no dia seguinte, mas por vezes chegávamos ao local, começava mais uma batalha e tínhamos de ir embora. Sempre que íamos para o terreno rezávamos para que nada acontecesse, mas a verdade é que, por várias vezes, as balas passaram demasiado perto e tivemos de nos ir embora.”

Apesar de viver em Los Angeles desde 2006, Helly Luv estava no Iraque quando começaram os ataques do ISIS. Foi isso que a levou a querer ter uma voz mais activa na defesa do seu povo. “Eu vi o que fizeram ao meu povo e isso fez com que nascesse algo dentro de mim... As pessoas do meu país estão a sofrer.Até podia ter feito este videoclipe em Los Angeles, num cenário e com figurantes, mas não mostraria a verdade da guerra.” Este desejo de ajudar o Iraque tornou-se de tal forma forte que, há sete meses, a cantora acabou por deixar os Estados Unidos da América e voltar para o Curdistão (região que atravessa oIraque, oIrão, a Síria e a Turquia).

Sede de palco

Helly Luv nasceu em 1988 em Urmia, uma região do Irão próxima da fronteira com a Turquia e o Iraque, com o nome de Helan Abdulla. Nascida no seio de uma família de peshmergas onde “corre nas veias que se luta até ao fim”, cresceu a ver a mãe com um traje típico, cabelo comprido e uma kalashnikov na mão. “Tivemos de sair do país porque o Saddam Hussein estava a atacar os curdos” – uma imagem que nunca lhe saiu da cabeça.

Fugiram para a Turquia, onde toda a família ficou a viver na rua porque os campos de refugiados estavam lotados. Só ao fim de nove meses foram aceites num campo na Finlândia.Já com o sonho de ser artista, Helly estudou canto, dança, representação e piano. Mas tinha o desejo dos grandes palcos e, por isso, assim que fez 18 anos mudou-se para Los Angeles em busca do sonho americano.

Quando já se preparava para desistir e regressar à Finlândia, recebeu uma mensagem no Myspace que lhe mudaria a vida: o produtor e vencedor de um Grammy Los Da Mystro queria contratá-la. Trabalhou com o cantautor e também vencedor de um Grammy The-Dream para lançar “Risk it All”, em 2013, e o single foi um sucesso imediato na Finlândia, disputando a liderança das tabelas com “Diamonds”, de Rihanna. No ano seguinte foi a protagonista do filme “Mardan”, de Batin e Bahman Ghobadi, tornando--se a primeira actriz curda a participar no Festival de Cinema de Toronto.

Apesar de ter passado a maior parte da sua vida longe das suas raízes, HellyLuv nunca as negou.Bem pelo contrário, aliás. A cantora e actriz deixou sempre que as origens marcassem a sua personalidade artística. E este “Revolution” é prova disso. Agora quer continuar a ajudar a região que a viu nascer.Até porque acredita que, ao fazê-lo, está a ajudar o mundo. “Os curdos sempre viveram em paz com as várias religiões, o que é algo muito especial no Médio Oriente e é aquilo que o ISIS quer destruir.Os pershmergas não estão apenas a proteger os curdos, estão a proteger o mundo inteiro de um inimigo chamado ISIS.” 

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