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Artur Pereira 06/08/2015
Artur Pereira

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O grego maluco e o senhor qualquer coisa

Varoufakis é calvo como um mongol, reconhecidamente inteligente, um sex symbol de mota, que como sabemos tem um simbolismo psicológico poderoso. Vive à beira do vulcão é actor da história colectiva do seu país

Marques Mendes, na sua consulta semanal televisionada, veio regurgitar indignação a propósito da, em sua douta opinião, comprovada doença mental de Varoufakis.

O destrambelhamento do grego terá ficado óbvio após a descoberta de um perverso plano B com a sua assinatura, que incluía a prisão de governadores, roubos de identidade fiscal dos cidadãos, assalto a bancos, cerco a empresários, enfim, o terror jacobino à solta nas ruas de Atenas.

“Este homem é louco e perigoso, é louco, louco…”, prevenia um Marques encolerizado, ao mesmo tempo que apontava com o dedinho para a cabeça, num esforçado domínio da linguagem gestual que merece registo.

Mas há um inconveniente neste suponhamos delirante do Dr. Mendinho. O famoso plano B, que qualquer gerente de matadouro acautela para o caso de as alimárias lhe falharem ao facalhão, nunca teve os factores tenebrosos que Marques Mendes sublinhou espevitado. 

Todo isso já foi denunciado, pela imprensa grega e pela imprensa internacional, pelo Parlamento de Atenas, pelo primeiro-ministro Tsipras, e até por políticos europeus. 

Foi um boato inserido numa campanha de contra-informação, ao bom velho estilo das campanhas psicológicas para destabilizar governos legítimos. Faz parte do abecedário das técnicas do golpe de Estado.

É sempre preciso descobrir insondáveis intenções, agendas ocultas, um projecto antidemocrático escondido aos cidadãos pelos governos eleitos. 

Foi assim no golpe de Estado no Irão de 1953, na Operação Ajax, organizada pela CIA para derrubar o governo democraticamente eleito do primeiro-ministro iraniano Mohammed Mossadeg, e foi assim no Chile em Setembro de 1973, para derrubar o governo eleito e assassinar Salvador Allende, só para dar dois exemplos.

O objectivo do boato, e de uma campanha negra, passa por destruir e atingir a personalidade e a idoneidade do líder ou do rosto mais destacado num processo de mudança ideológica e política. Destruído o homem, debilita-se o símbolo, fragiliza-se a ideia e quebra-se a unidade.

Além de que o boato nunca é comprovado. É uma especulação, um conjunto de afirmações imprecisas que no conjunto formam um imaginário com fortes referências aos receios colectivos, à insegurança, à suspeita, a mitos e preconceitos.

São os canais usados para o boato crescer, como credo ou notícia, e o perfil dos emissores, que lhe vão dar forma e aparência de credibilidade. O boato não precisa de conteúdo, precisa de espaço.

Ele deve criar o ambiente e as condições para que no limite seja aceite como natural pela maioria da sociedade, sem praticamente resistência ou com a indiferença generalizada, uma interferência externa, um golpe ou a suspensão da democracia.

No Portugal pós-25 de Abril fizeram o mesmo. O boato foi uma arma privilegiada de uma reacção ferida, desejosa de limitar e mesmo fazer recuar as liberdades acabadas de conquistar. Muitos dos que nesse tempo, de forma generosa e séria, lutavam por criar melhores condições de vida para os portugueses eram acusados de loucos.

Nestas campanhas de contra-informação, que são parte integrante do arsenal das guerras não declaradas, são as personalidades e os governos visados que têm de se desmultiplicar nos desmentidos e na desmontagem da falsidade. 

Batalha quase sempre perdida, porque como o boato não existe como elemento formal e material, como a sua origem é sempre impossível de referenciar, é praticamente impossível provar o embuste daquilo que não se consegue apresentar. 

Marques Mendes sabe tudo isto, mas preferiu ser porta-voz da perfídia, colaboracionista e cúmplice da farsa. Sente--se mais no tamanho de Schäuble, é da sua natureza.

Preferiu o princípio, inventado nos anos 30 na Alemanha por um antecessor seu na pasta da Propaganda, de que “uma mentira repetida mil vezes passa a ser verdade”.

Logo o Marques é um intruja, o que nem é de admirar de quem se especializou na fancaria política, a querer controlar alinhamentos dos telejornais da RTP, e a censurar as agendas das redacções.

Claro que tudo isto pode encontrar simples explicação nas indizíveis margens da complexa engenharia da alma humana. Quer dizer, pode ser trauma.

Varoufakis é calvo como um mongol, reconhecidamente inteligente, um sex symbol de mota, que como sabemos tem um simbolismo psicológico poderoso, vive à beira do vulcão e é actor da história colectiva do seu país.

A nós, que somos periféricos, saiu-nos o Marques Mendes às voltas com Freud, sempre a olhar para cima, perseguido pelo maldito adágio popular de que “homem pequenino, velhaco ou dançarino”.

E para dizer a verdade não o estou a ver dançar nada, nem a macarena.

Consultor de comunicação
Escreve às quintas-feiras

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