27/7/21
 
 
Henrique Neto 06/08/2015
Henrique Neto

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A democracia em crise

O Ministério das Finanças tornou-se um ser omnipotente e omnipresente na sociedade, a viver acima da lei, e a cobrança de impostos, taxas e multas passou a constituir o momento de terror das famílias e das empresas à abertura do correio.

Ao longo dos últimos 20 anos a qualidade da democracia portuguesa tem--se degradado, ao mesmo tempo que os portugueses empobreceram e perderam qualidade de vida, nomeadamente a classe média, que foi a grande perdedora do desvario do endividamento e da política de austeridade que se seguiu. 

Pouco a pouco, os partidos políticos no poder tornaram-se mais conservadores e as direcções partidárias tornaram-se mais poderosas, enquanto os governos foram aumentando o seu poder sobre a sociedade, fenómeno que tem muito a ver com o declínio intelectual, cívico e profissional da classe política, que por sua vez passou a dedicar-se aos negócios.

Ao mesmo tempo, o poder e a independência das instituições da sociedade, como as associações empresariais, de consumidores e de grupos de cidadãos, foram sendo sucessivamente reduzidos, quer na lei quer na prática.

Paralelamente, os reguladores das diferentes actividades foram--se tornando cada vez mais amigos do poder político e dos governos. Por exemplo, sempre pouco a pouco, os conselhos consultivos das entidades reguladoras foram sendo marginalizados das decisões, que no passado eram quase colegiais, deixando de ter acesso às informações que faziam chegar aos cidadãos.

O Ministério das Finanças tornou--se um ser omnipotente e omnipresente na sociedade, a viver acima da lei, e a cobrança de impostos, taxas e multas passou a constituir o momento de terror das famílias e das empresas à abertura do correio. A solução é sempre pagar, a alternativa, e apenas a posteriori, seria recorrer à justiça e esperar anos pela decisão, já que o Estado anda determinado a fechar os centros regionais de arbitragem, através da asfixia financeira.

Os desempregados, agora sem subsídio, dedicam-se aos biscates, à criminalidade ou à mendicidade, e os que estão empregados vivem no terror do perder o emprego.

A família tradicional portuguesa, da solidariedade e da entreajuda entre avós, pais, filhos e netos, está em via acelerada de extinção e o medo do dia seguinte generalizou-se na sociedade. Ao mesmo tempo, as elites políticas e profissionais correm de conselho de administração para conselho de administração, nunca se venderam tantos carros de alta cilindrada das melhores marcas e os restaurantes caros não têm mãos a medir.

Ao longo de mais de uma década, o verdadeiro crescimento económico tornou-se uma miragem, o investimento estrangeiro só existe para comprar as empresas nacionais e as maiores oportunidades de atracção do investimento para as actividades produtivas e para a exportação são desconhecidas ou desprezadas, como está a acontecer com o porto de Sines. 

Em contrapartida, não falta imaginação aos nossos governantes: inventou-se um porto no Barreiro cuja finalidade é o mais bem guardado segredo de Estado, obra certamente notável a juntar ao jardim de Santa Apolónia, aos estádios do Europeu, ao aeroporto de Beja e à auto-estrada de Sines a Beja, à marina da Madeira e ao monocarril de Oeiras, entre muitas outras notáveis construções, oriundas do génio político, o maior desde que o cartão de crédito foi inventado.

Este ano, ano de eleições, é o momento ideal para que os portugueses ganhem consciência de que é isto que os espera se continuarem de olhos vendados relativamente às responsabilidades do poder político no descalabro financeiro, económico, social e comportamental do nosso país. 


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