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Isabel Moreira. A deputada das mil causas e das mil polémicas
O activismo político surgiu nos tempos da faculdade, quando defendeu o casamento entre duas mulheres em 2009

Isabel Moreira. A deputada das mil causas e das mil polémicas

O activismo político surgiu nos tempos da faculdade, quando defendeu o casamento entre duas mulheres em 2009 Patricia de Melo Moreira José Paiva Capucho 02/08/2015 14:04

No parlamento desde 2011. Há dois anos filiou-se ao PS. Agora é número dezassete por Lisboa,  e leva novamente consigo as causas LGBT.

O tom afiado, as palavras críticas e o activismo em prol da comunidade lésbica, gay, transexual e bissexual(LGBT), são as três bandeiras políticas que escreveram a história do primeiro mandato da advogada Isabel Moreira, filha do histórico democrata cristão Adriano Moreira, ex-ministro de Salazar.

“Cresci livre, rodeada de uma enorme biblioteca, e convivi sempre bem com o meu pai: a política não foi genética”, conta a socialista. O i foi conhecer a mulher que leva tatuada no braço a data da aprovação do casamento homossexual em Portugal (8 de Janeiro de 2010), que se formou em Direito Constitucional e que entrou como independente pelo PS em 2011.

Na bagagem leva também uma mão cheia de polémicas, como a troca de acusações com a eurodeputada Ana Gomes, ou o conflito interno com o partido, que dividiu o PS em 2012, aquando da fiscalização do Orçamento do Estado.

A mulher “das causas”

A alcunha que ganhou nestes últimos anos de “mulher de causas” começou a ganhar forma antes da chegada à vida política, em dois momentos diferentes. Aos três anos passou pelo colégioMira Rio, que a marcou“negativamente, por ter um ensino religioso abusivo”. “Sempre fui sensível, disse adeus a um‘Deus bom’, mas não abandonei a fé zangada”.

E revela: “há uma Isabel Moreira antes e depois da escola pública”. No antes, teve um contacto muito próximo com o escritor Rui Nunes, seu professor, em que leu Marx, Kant ou StuartMill, e conviveu com o espelho da sociedade: “um arco íris que me salvou”, desabafa. Depois, já no ensino superior, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde se formou – e mais tarde leccionou durante onze anos – ganhou consciência da igualdade, concretamente na lei do casamento.

“Quando saí da faculdade, vi duas mulheres impossibilitadas de casar”.Refere-se a TeresaPires e Helena Paixão, o casal que viu chumbado o seu pedido de casamento peloTribunalConstitucional em 2009.Oque levou Isabel a publicar um livro com o parecer jurídico para oTC defendendo a inconstitucionalidade do chumbo, com a ajuda do advogado do casal,LuísGrave Rodrigues.

“Não me considero irreverente, porque lutar pela igualdade não o é, deveria ser normal, isso são ‘rótulos’ que eu não aceito”, resume.

A co-adopção foi a luta seguinte de Isabel Moreira. “Pareceu-me urgente a luta pela adopção de casais homossexuais, olhando para as escolas e para crianças sem família”. Em 2013 foi aprovada na generalidade. Pelo meio, o PSD tentou referendar, mas viu a proposta chumbada peloTribunalConstitucional.

“Foi a primeira subscritora deste projecto, e tem dado eco a uma série de reivindicações pelas pessoas LGBT”, conta ao i Paulo Côrte Real, da associaçãoILGA-Portugal. Um ano depois, na votação final global, novo chumbo. A adopção plena sofreu o quarto chumbo em janeiro deste ano. “Mesmo chumbado, ficou o debate, e existe um trabalho muito importante que ficou”, afirma Isabel Moreira.

A procriação medicamente assistida (PMA) e as famosas “barrigas de aluguer” também conheceram a cara da derrota, algo que marcou muito Isabel.“É uma ideia patriarcal e muito forte: uma mulher infértil que não se case não pode ter filhos”. Só em Espanha é que a situação, infelizmente para a activista, se resolve: “vai-se a Espanha para se ser mãe”, declara incrédula.

Há porém vitórias neste ainda curto percurso da socialista. A Lei da Identidade de Género em 2011, que permite às pessoas transexuais terem identidade no país, e 4 anos mais tarde, a inclusão da identidade de género no código de trabalho. “Uma temática ocultada, vítima de um preconceito enorme”, conta Isabel, regozijando-se com a candidatura de Júlia Pereira, a primeira transexual a surgir nas listas de um partido.

Ataques pessoais? É para esquecer

Os ataques de que foi alvo nesta última legislatura são desdramatizados pela própria. “Vêm de uma franja que não representa a sociedade”.Essas críticas, segundo Maria Antónia Almeida Santos, socialista, colega de trabalho e “amiga” de Isabel, são expectáveis: “foi sempre frontal, nunca foi deselegante, é pena que mais não tenham feito o mesmo”. Sobre o estilo irreverente, como a tatuagem que a amiga ostenta no braço, Maria prefere não falar disso. “Não valorizo mais uma pessoa ou a Isabel pelo estilo, usa-se o que se quer”.

Já Paulo Côrte Real atribui a culpa à própria sociedade: “há um sexismo evidente no país, o peso do preconceito é ainda muito forte e tem impacto de quem se mobiliza pela igualdade”.

Olhando para o futuro, Isabel Moreira vê que as causas pelas quais batalhou só poderão chegar a bom porto “com uma maioria de esquerda”. A também escritora – e é assim que se define – diz que a luta pela igualdade é “aditiva”. Depois de quase ter sido excluída das listas, será o número 17 por Lisboa pelo PS, quer novo mandato, para que o vício do activisimo não se apague.

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