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Legislativas. Há lugar para as minorias no parlamento?
O investigador científico Alexandre Quintanilha é o cabeça-de-lista socialista pelo Porto

Legislativas. Há lugar para as minorias no parlamento?

O investigador científico Alexandre Quintanilha é o cabeça-de-lista socialista pelo Porto Ana Brígida José Paiva Capucho 02/08/2015 10:52

Uma transexual, uma cega, dois negros, uma refugiada e um cientista que poderávir a tornar--se o primeiro ministro assumidamente gay:o i foi conhecer os rostos dos candidatos que poderão quebrar a monotonia no hemiciclo.

Para encontrarmos no parlamento um deputado representante das minorias precisamos de recuar a 2009. Nesse ano, o antropólogo e activista LGBT Miguel Vale de Almeida foi eleito pelas listas do PScomo independente – tratou-se do primeiro deputado assumidamente homossexual no hemiciclo.

Depois de ver garantidos na lei o direito ao casamento de pessoas do mesmo sexo e da identidade de género, saiu da política. Acerca de nomes comoo de Júlia Pereira, doBloco de Esquerda – a primeira transexual a candidatar-se a um lugar no parlamento –, ou do investigadorAlexandre Quintanilha, do PS, cabeça-de-lista pelo Porto e homossexual assumido, Miguel considera “excelente haver candidatos assumidamente LGBT”. Porquê?

“Afinal, somos 10 por cento da população.” Mas faz uma ressalva: “Espero que não sejam candidaturas simbólicas, sobretudo depois da vergonha em relação à co-adopção e ao aborto.” Além de candidatos LGBT, há espaço para candidatos negros ou a primeira cega a concorrer, Ana Sofia Antunes, na lista socialista por Lisboa.

Na coligação, caras conhecidas

Nas fileiras da coligação há dois nomes ligados a estas minorias:Hélder Amaral, angolano, 4.o por Viseu, e Nilza de Sena, moçambicana, cabeça-de-lista por Beja, ex-vice--presidente da comissão política doPSD e conselheira da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial. O primeiro declara ao i: “É garantido, vou manter-me como o único deputado de origem africana emViseu. Caso contrário, teremos maioria socialista.” Já Nilza de Sena nega fazer parte de uma minoria, porque não coloca “esse rótulo” a si própria. “Não foi a minha cor que me trouxe à política”, diz. Acredita que é preciso “dar oportunidades a todos”, congratulando as novas caras, mas quer que o próximo parlamento se foque noutras áreas: “Devemos ter um parlamento que não fale só nas questões das minorias, que não são prioritárias, mas sim que garanta condições de governabilidade”, remata.

PS: mudanças no porto e lisboa

Alexandre Quintanilha é um dos nomes mais importantes na área da investigação científica portuguesa. O seu currículo inclui os cargos deex-director doInstituto de Biologia Molecular e Celular, presidente doConselho dos Laboratórios Associados e antigo director doCentro dos Estudos Ambientais naUniversidade da Califórnia. É casado com o escritor Richard Zimler há cinco anos e lança-se agora na política. “Afirmei na minha última aula pública que agora me sentia mais livre para me dedicar a outros desafios. No dia seguinte fui contactado por António Costa com esta proposta.”

A resposta foi “sim”, e não vê a sua homossexualidade como problema na hora de os eleitores decidirem o sentido de voto: “Passou a ser um não assunto, porque sempre tentei ser transparente em tudo o que faço.”Caso ganhe um lugar na AR, tem como ambição principal que os “jovens voltem a ter esperança, e não desalento”, e que o seu exemplo amplie o debate além da sexualidade.Confessa estar integrado numa “enorme variedade de diferentes minorias”, considerando-se um cidadão do mundo.Alexandre Quintanilha pode mesmo vir a ser o primeiro ministro homossexual, caso seja escolhido para integrar o executivo de Costa se o PS vencer as eleições.

Na 20.a posição da lista socialista por Lisboa encontramos Ana Sofia Antunes, a primeira candidata cega desde sempre.É presidente da Associação dosCegos e Amblíopes e ex-assessora jurídica da Câmara Municipal deLisboa. “Não pude dizer que não a este convite, tenho um envolvimento político há muitos anos.” Admite, no entanto, que é “constrangedor” que Portugal esteja tão atrasado relativamente a outros países que têm ministros ou presidentes da República cegos. E a razão, segundo a jurista, está na “falta de abertura das organizações de listas para pessoas com deficiência”. Garante bater-se pela defesa daqueles que, como ela, têm limitações, mas deixa uma mensagem clara: “Caso seja eleita, não quero ser vista como a deputada com deficiência.”

Um BE que pode ser histórico

ShahdWadi, número oito do BE por Lisboa, é conhecida dentro do partido. “O convite voltou depois de participar nas europeias como independente, pelo meu activismo na causa palestiniana.” Vem de uma família de refugiados, nasceu no Egipto e faz parte do Comité de Solidariedade com a Palestina. “Vim para Portugal por amor ao país”, confessa. Licenciada em Estudos Feministas pela Universidade deCoimbra, destaca o principal problema das minorias: “Nós olhamos para as pessoas como tal, como sendo ‘os outros’.” Essa e a defesa dos refugiados serão duas das suas bandeiras se chegar ao parlamento.

Do outro lado da ponte, em Setúbal, pode mesmo fazer-se história. Júlia Pereira, activista LGBT e membro da associação Acção pela Identidade (API) é a primeira transexual a integrar as listas de um partido.“É uma oportunidade para lutar pela comunidade trans, algo que já trabalho há vários anos”, diz a número dois pelo distrito. A discriminação tem feito parte do seu quotidiano – e continua a fazer: “O meu mediatismo dá visibilidade à discriminação, como vemos nas redes sociais, mas isso deixa-me feliz”, remata.Entre várias medidas, quer rever a lei da identidade de género de 2011 e combater a ideia de que a transexualidade é uma patologia mental.
Muito em breve, o parlamento poderá mudar uma tradição com 40 anos. Resta aos portugueses perceber se também querem que o seu voto conte para isso.

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