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António Costa. "Todos sabem que eu não sou um melão que só se conhece depois de abrir"
Costa está excepcionalmente confiante na vitória do PS

António Costa. "Todos sabem que eu não sou um melão que só se conhece depois de abrir"

Costa está excepcionalmente confiante na vitória do PS Ana Brigida Ana Sá Lopes e Rita Tavares 01/08/2015 16:47

António Costa acredita que os indicadores das sondagens concorrem para que nas últimas semanas os portugueses decidam vir a dar ao PS uma maioria clara, se não for absoluta. 

Na quarta-feira, no Largo do Rato, António Costa estava extraordinariamente bem-disposto. Ironizou connosco e consigo próprio (“eu tenho uma cassete para as presidenciais”), com Yanis Varoufakss e até com a sua mãe (que é quase do género “hay gobierno, soy contra”).

A única vez que franziu o sobrolho e ia perdendo a fleuma que atravessou toda a entrevista foi quando lhe perguntámos sobre os socialistas que o criticam por não defender Sócrates. Aí ficou rígido: “Já tenho idade suficiente para me preocupar pouco sobre o que os outros pensam a meu respeito. Ajo como acho que devo agir e respondendo exclusivamente perante a minha consciência”.

De resto, está excepcionalmente confiante na vitória do PS e não teme a falha de uma maioria absoluta. Lembra que “sempre se soube desenvencilhar” quer quando ganhou a Câmara de Lisboa sem maioria ou quando esteve nos Assuntos Parlamentares durante o primeiro governo Guterres, um governo minoritário que chegou ao fim do mandato.

António Luís Santos Costa…
Da Costa.

Ai é da Costa?
Esse “da” é muito importante para os meus pais. Para não se confundir com o então ministro Santos Costa. Por respeito aos meus pais faço muita questão que esse “da” se mantenha (risos).

O António Costa é um beto…
Beto???? Desculpará, mas não sou.

Mas é filho de dois intelectuais, viveu sempre entre classes privilegiadas e não estou a falar de dinheiro. Tem consciência de que viveu nesse berço de ouro?
Infelizmente não tive nenhum berço de ouro e beto, de todo, não sou. Mas claro que nasci numa família culturalmente privilegiada e que foi um factor muito importante na minha formação.

Aqui há dias o seu irmão fez anos e escreveu uma coisa do género “se o Vasco da Gama não tivesse ido para a Índia à vela e o meu pai não tivesse vindo para cá de barco a vapor eu não existiria”. Como é a sua relação com a origem goesa, para além do seu pai?
Olhe, começou mal, porque eu detestava a comida picante (risos). Mas quando fui amadurecendo fui melhorando o paladar. Hoje sou um adepto franco da comida goesa. O meu irmão aqui há uns tempos esteve a desfazer a casa do meu pai e doou-me algo que eu anseio ter um dia tempo para, respeitosamente, poder cuidar. É um velho livro de receitas da minha avó, para me aventurar numa cozinha cuja delicadeza requer bastante tempo e concentração.

É um grande cozinheiro e nunca cozinhou comida indiana?
Só tentei uma vez. Mas é uma cozinha de tal forma sofisticada que requer uma enorme disponibilidade.

Tempo?
Tempo, concentração, desde a mobilização dos ingredientes até à confecção é algo que merece muito respeito. Tenho esperança de um dia ter a concentração suficiente para me dedicar.

Foi à Índia pela primeira vez aos 18 anos…
17.

Foi chegar a um mundo completamente diferente daquele em que foi criado…
Bastante diferente. Mesmo para quem foi criado no Bairro Alto a Índia era bastante diferente e contrastante (risos). Na altura bastante mais do que hoje.

Foi um choque?
Há uma enorme diferença entre Goa e o resto da Índia. A experiência do impacto de Bombaim foi absolutamente devastadora. Mas a natureza luxuriante de Goa, sendo uma sociedade com níveis de desigualdade bastante menores, e também o facto de ter relações familiares e maior proximidade cultural, atenuou bastante. Agora, Bombaim foi uma experiência inesquecivelmente traumática.

É filho de pais divorciados. Naquele tempo não era vulgar. Nunca sentiu nenhum estigma por isso?
Claro, quando era miúdo, sim. Tenho uma medida para como a sociedade mudou. Na minha escola primária só eu e um colega meu éramos filhos de pais divorciados. No colégio onde os meus filhos andaram eles eram os únicos que não eram filhos de pais divorciados. A sociedade mudou bastante nestes últimos anos (risos). E claro que na altura em que os meus pais se divorciaram o protótipo da madrasta era a madrasta da Branca de Neve (risos).

Deu-se bem com a sua madrasta, a mãe do Ricardo?
Fomos criando boas relações ao longo da vida.

E como consegue esse milagre de estar casado há 20 e tal anos?
É assim.

Não tem qualquer explicação? É um mistério?
Acho que ganhámos muito em ter uma grande amizade antes de termos uma relação amorosa.

Conheceram-se no liceu?
Conhecemo-nos no liceu, fomo-nos tornando amigos e começámos a namorar muitos anos mais tarde, já estava eu no último ano da faculdade. Havia uma amizade muito grande antes de surgir a relação amorosa. A partir daí, os casamentos constroem-se – e também presumo que se destruam – todos os dias (risos). Acho que temos sabido construir todos os dias a relação que, obviamente, se vai transformando, ganhando novas formas, novos desafios. Os anos da Câmara de Lisboa implicaram alguma separação física e não foram propriamente fáceis. Mas foi uma prova que passámos e acho que os casamentos também se fortalecem com essas provas que se ultrapassam.

A sua mulher, Fernanda Tadeu, participou naquela enorme manifestação de professores contra o governo de que fazia parte. Ela disse-lhe “Vou à manifestação, estou farta disto”? Como viveu isso?
O problema não foi ir à manifestação, foram as manifestações que todos os dias me fazia ao pequeno-almoço! (risos). Mas venho de uma família onde aprendemos todos a viver com essas diversidades. O meu pai foi militante do Partido Comunista até ao fim dos seus dias, a minha mãe enquanto presidente da Caixa de Jornalistas teve enormes conflitos com o governo a que pertenci por causa da extinção da Caixa. Com o meu irmão, nós somos, como eu digo, irmãos em regime de separação de vidas. Temos um hábito grande na família de conviver nesta diversidade. Esse momento da manifestação foi só mais um.

José Sócrates deve ter odiado…
Acho que não. Mas acho que foi um sinal e o PS aprendeu aí uma lição importante, a de que não é possível fazer reformas contra toda uma classe profissional. As reformas fazem-se mobilizando as pessoas e têm de ser geridas, têm de ser dialogadas.

No fundo dava razão à sua mulher?
Em algumas coisas tinha muita razão. Vi o absurdo que constituiu aquele modelo de avaliação de professores. Gastei fins-de-semana procurando preencher aquelas quinhentas fichas de avaliação e percebi bem o absurdo do monstro burocrático que se estava ali a criar. Não me surpreendeu o grande castigo político que o PS sofreu por tudo isso. É das boas lições que o PS deve reter, para que nunca mais repita estratégias reformistas desse género. 
Portanto, não irá pôr à frente da educação uma pessoa com o perfil de Maria de Lurdes Rodrigues…
Não pessoalizo. Eram políticas do governo e sendo eu membro do governo também eram minhas. Não quer dizer que não deva ter um juízo crítico relativamente a isso. Gosta de tudo o que lê no seu jornal? (risos).

O seu pai era comunista, a sua mãe foi militante socialista, mas deixou de militar em confronto com o governo socialista…
Não me lembro de nenhum governo socialista com que a minha mãe, sendo socialista, não tenha estado em confronto. Ou como jornalista, ou como feminista, ou como dirigente do sindicato, ou como presidente da Caixa de Jornalistas. A minha mãe caracteriza-se essencialmente por ser um espírito livre. Não diria que é como a expressão latino-americana do ‘se hay gobierno soy contra, pero…’ (Risos) É quase!

A sua mulher apareceu na convenção, vai andar consigo em campanha?
Ela tem tido agora mais disponibilidade, mas também mais vontade. Tem uma preocupação fundamental de manter a sua própria identidade mas não deixa de ser cidadã.

Quando avançou para a liderança do PS, o seu irmão Ricardo escreveu uma crónica lindíssima no “Expresso” sobre as dificuldades que viriam aí. Leu?
Li.

Como sentiu aquilo?
Também achei lindíssima e a partir daí segui o bom conselho dele e não li mais as suas crónicas.

Tem relações difíceis com o “Expresso”? Ainda há uns meses teve um problema com um subdirector e um SMS. Não lê as crónicas do Ricardo mas lê de outros jornalistas…
Não leio as do Ricardo para ele ser livre de escrever sabendo que não o estou a ler (Risos). Agora claro que leio o “Expresso”! Acha que é possível ser político sem ter a obrigação de ler o “Expresso”? 

Acha que dificulta a sua vida como político o seu irmão ser director do “Expresso” que é o jornal mais influente no país? Balsemão queixava-se disso quando foi primeiro-ministro…
O director do “Expresso”, Ricardo Costa, deixou bem enunciado nessa crónica que o jornal seria indiferente ao nosso grau de parentesco e não presumo que o meu grau de parentesco tenha alguma influência na forma como o “Expresso” trata a vida política portuguesa.

Por que é que mandou aquele SMS? Foi um ataque de fúria.
Para mim, o SMS é uma comunicação tão privada como um telefonema ou uma conversa a dois portanto não vou comentar em público o meu SMS como também não comento nem divulgo o SMS que recebi em resposta.

Era um rapaz bem comportado aos 14, 15 anos? Embebedava-se?
Não. Quer dizer, claro que me lembro de ter bebido demais uma ou duas vezes. Não sei se ao 14 anos, aos 18 ou aos 19, mas não guardei para a terceira idade a oportunidade de realizar os disparates que se podem realizar no momento próprio da vida. 

Começou a fumar cedo?
Sim, horrível… e fumava imenso. E aconselho a todos que façam o tratamento que fiz.

Começou com 14?
Mais continuamente no final do liceu e fumei até 2005. Era um fumador inveterado, com mais de dois maços por dia, um elevadíssimo grau de dependência tabágica.

O que fez para parar?
Foi quando estava no Parlamento Europeu. O médico de lá disse que estava tudo bem, mas perguntou se eu não queria deixar de fumar e disse-me que tinha muito sucesso com os tratamentos que fazia. No Parlamento Europeu, naquela altura, já só se fumava nos gabinetes e começou a discutir-se que nem nos gabinetes se podia fazê-lo, por contaminar o ar condicionado. Comecei a sentir-me  naquela figura ridícula que já não tinha desde a escola de fumar às escondidas e achei que aquilo era demais e fui experimentar. Não tenho nada daqueles actos heróicos, da força de vontade, da determinação. Foi um tratamento de drogas químicas e que funcionou, aconselho a todos. Não custou, mesmo para quem era um fumador inveterado. Fumei o meu último cigarro no sábado anterior a tomar posse como ministro de Estado e da Administração Interna. Toda a gente me dizia que era a altura errada, mas até hoje não voltei a ter vontade. Nada. Mas sinto-me como os alcoólicos anónimos, todos os dias é mais um dia sem fumar.

E charros, experimentou?
Claro que experimentei! Que pergunta tão demodé...

A sua fúria, teimosia e irascibilidade é tão verdade como dizem as lendas?
Oh! Nada como testar…

Então vamos testar com um tema sensível…
Ah!

Vai voltar a visitar José Sócrates até as legislativas?
Não tenho previsto.

Não ter previsto quer dizer que não está na sua intenção?
Não está na minha intenção.

É um assunto que queima? É por isso que não volta?
Não tem a ver com a política. É um assunto simplesmente doloroso e não tenciono fazer essa visita.

O PS seguiu o seu discurso de separação de águas. No passado, durante a investigação Casa Pia, fez declarações sobre “fortes indícios” de “montagem” de um processo que envolvia figuras do PS. Aprendeu e não repete a famosa tese da cabala?
Acho que aprendemos todos os dias com as experiências que vivemos.
Esta em particular é uma experiência com que aprendeu e não quer repetir?
Acho que são circunstâncias diferentes e em momentos diferentes.

Mas o PS misturou tudo na altura, ao contrário do que faz hoje. Irrompeu com toda a força contra a separação de poderes.
É um caso sobre o qual já disse tudo o que tinha a dizer no momento próprio. Não tenho mais nada a acrescentar sobre o assunto.

Mas Sócrates é um activo tóxico que vai persegui-lo nos próximos meses.
Não considero as pessoas nem activos tóxicos ou não tóxicos. É um caso obviamente doloroso do ponto de vista pessoal, que tem objectiva relevância política, mas que deve ser tratado no foro próprio que é a Justiça. Significa isto que a quem compete dirigir o inquérito deve inquirir, a quem compete garantir as liberdades deve garanti-las, a quem compete exercer o direito de defesa deve poder exercer, beneficiando do princípio da presunção de inocência.

A cada seis meses aparece um  ex-alto dirigente do PS a ser investigado pela Justiça. Isto não mina a credibilidade do partido?
Não só devo deixar à Justiça o que é da Justiça como devo deixar aos analistas políticos o que é do domínio da análise política.

O que pode prometer aos eleitores, em termos de actuação de governo, para mostrar que não mistura política e negócios?
Não faço comentários sobre o caso e também não assumo a presunção de culpabilidade que está implícita na sua pergunta. O direito à presunção da inocência todos têm e é uma grande conquista da civilização que a justiça tenha sido institucionalizada e tenham sido eliminados os julgamentos populares.

Sabemos de onde vem o seu salário.
Sim, os meus rendimentos estão declarados no Tribunal Constitucional.

Conhece a declaração de rendimentos de José Sócrates depois de abandonar o governo? É zero.
Não conheço nem tenho de conhecer.

É normal que um ex-primeiro-ministro saia do governo a declarar zero rendimentos?
Vou fazer uma declaração à Vítor Gaspar: não sei bem qual a parte da minha declaração que não percebeu. Não tenciono comentar o caso, muito menos julgar o caso e ainda menos com base em informações que circulam de um inquérito que deve ser desenvolvido na paz do Senhor pelas autoridades competentes, no respeito pelo exercício dos direitos de defesa, pela isenção e imparcialidade do juiz a quem cabe julgar.

Também há socialistas irritados com esse discurso e que acham que devia defender Sócrates.
Respeito muito os que me criticam por achar que devia ter outra atitude, mas tenho aquela que acho que devo ter e já tenho idade suficiente para me ser absolutamente indiferente os que os outros pensam a respeito da forma como penso que devo gerir este caso que é, antes de tudo, mais um caso da minha própria consciência.

Há pouco mais de um ano desafiou a liderança de António José Seguro depois de um resultado nas europeias a que chamou “poucochinho”. Hoje tem pouco mais do que “poucochinho” nas sondagens das legislativas.
Ora essa! Nessas eleições o PS teve 31% e agora as sondagens dão 37 ou 38%. Temos a direita toda junta próxima do seu mínimo histórico e estamos a aproximar-nos do momento decisivo em que um vasto número de pessoas que ainda não decidiu onde vota, que não responde às sondagens ainda não realizou o que conta: se vota no PS ou na coligação de direita. Nesse momento acho que se marcará a distância necessária para o PS ganhar com maioria estas eleições.

O PS não pode descer, só tem por onde subir?
O PS tem de se bater pela maioria. É muito significativo que a maioria das pessoas, nas sondagens todas, deseje que exista uma maioria. É muito significativa a avaliação que as pessoas fazem quer da credibilidade da propostas do PS, quer no confronto de escolhas para primeiro-ministro. Acho que isso contará no momento decisivo quando as pessoas tiverem de escolher o que têm de escolher: quem vai governar. E acho que o PS ganhará e com a maioria necessária para governar com estabilidade e garantir que se pode mudar de política, que é a vontade das pessoas.

Como se pode convencer os portugueses que o PS pode mudar de política se está sujeito aos mesmos ditames da austeridade europeia que este governo?
O grande mérito do nosso cenário macro-económico foi o de acabar com o mito de que não há alternativa à austeridade dentro do euro. A direita diz que é preciso austeridade para nos mantermos no euro e a esquerda radical diz que é preciso romper com o euro para nos livrarmos da austeridade. O que mostramos é que é preciso mudar de política cumprindo as regras do euro e esse é o nosso plano A. E é uma diferença muito importante e até premonitória relativamente à tentativa grega de adoptar como plano A o da confrontação. O nosso plano A é cumprir as regras, mas temos um plano B que é que elas sejam mudadas. Desejamos que elas possam ser mudadas não numa lógica de confrontação mas de negociação. Já o fizemos no quadro da família socialista e isso deu lugar ao documento aprovado no Congresso do PSE do “Novo Impulso para convergência de Portugal-Espanha”. Mostrámos que é possível fazer as duas coisas: cumprir as regras mas também mudar de políticas ainda dentro destas regras.

Está convencido que é possível conseguir  fazer evoluir a família socialista europeia…
Não é uma questão de convencimento, é uma questão objectiva. O documento foi aprovado no congresso e a verdade é que desde as europeias tem vindo a haver vários sinais de mudanças. Gostaríamos que fossem mais sólidas e consistentes, mas existem. Para quem tinha dúvidas, creio que a experiência grega foi uma infeliz ilustração. As regras na Europa não se mudam em confrontação nem isoladamente. Mudam-se por negociação e na construção de alianças. Recusamos a estratégia de submissão que o governo tem assumido, mas não assumiremos a da confrontação.

Como consegue falar de sucesso perante um acordo grego que é humilhante?
Falei de sucesso sobre o documento aprovado pelo Partido Socialista Europeu, do novo impulso para a convergência, que nada tem a ver com a o acordo da Grécia. O acordo com a Grécia tem uma vantagem essencial: estabilizou uma situação de crise e constituiu uma derrota daqueles que, como o senhor Schäuble, apostavam na expulsão da Grécia da zona euro e permitiu reafirmar um princípio fundamental, o da integridade da zona euro. Quanto ao conteúdo em concreto, as autoridades gregas terão as suas razões para o terem aceite. Relativamente a Portugal a prioridade que temos a definir é para a convergência. Obter na UE os fundos necessário para fazer os investimentos naqueles que são os nossos bloqueios estruturais e que estão enunciados naquele documento: vencer o défice de qualificações, a modernização do Estado e do sistema de justiça, a capitalização das empresas, a reabilitação urbana, a eficiência energética e o 

reforço da coesão social. O que conseguimos estabelecer no quadro da família socialista é uma nova metodologia, em que, a par do Tratado Orçamental e dos fundos estruturais, tem de haver um programa específico para a convergência de países como Portugal e Espanha.

Conseguimos sair do estado de crise e acabar com o desemprego com uma varinha mágica? Os fundos vão demorar a chegar.
Concerteza que não, por isso o programa de governo que apresentamos não é um conjunto de promessas, mas um programa que contém um conjunto de medidas avaliadas nos seus impactos e consequências e relativamente às quais podemos garantir viabilidade orçamental e sucesso económico. E podemos acrescentar mais: fomos os únicos que o fizemos. Nenhum dos nossos concorrentes apresentou até hoje um estudo económico, é até duvidoso que tenham apresentado um programa. E o que sabemos da coligação de direita é que ao longo destes quatro anos todas as previsões que fizeram falharam e todos os objectivos que traçaram, fracassaram. Queriam reduzir a dívida, ela aumentou. Queriam reduzir o défice para 0,5% e ficaram em 4,9. E isto apesar das doses maciças de austeridade, dos aumentos dos impostos, de salários e pensões. Ao fim destes quatro anos, em vez de terem aprendido com os erros e dizerem ‘vamos mudar de política’, o que dizem é ‘vamos continuar não há surpresas, pelo contrário o que propomos é um novo corte de pensões de mais 600 milhões de euros’. Se há algo que hoje é claro é que a alternativa da austeridade como caminho para a redenção da economia nacional revelou-se um fracasso. Há no espaço europeu uma alternativa à submissão ou à confrontação que passa pela construção de alianças e  pela negociação.

O presidente do Eurogrupo, Dijsselbloem, e o vice-chanceler da Alemanha, Sigmar Gabriel, são da sua família política e foram radicais contra a Grécia. Há socialistas portugueses como Manuel Alegre, Sérgio Sousa Pinto ou João Cravinho que são bem mais pessimistas na avaliação da resolução da crise grega.
Não faço a leitura nem optimista nem pessimista, mas determinada sobre o que é necessário fazer e de ter feito ao longo deste ano o trabalho necessário para dizer hoje que é possível fazer outro caminho. Corri várias capitais, reunimo-nos no quadro do PSE e conseguimos, ao contrário do que o Syriza fez e que este governo nem tentou, obter um acordo com um documento e uma estratégia concreta. E esse documento teve o suporte do presidente do Parlamento Europeu, do grupo dos socialistas europeus e do PSE, onde estiveram vários desses dirigentes que refere, Renzi, Sigmar Gabriel, Hollande. Se basta o acordo da família socialista? Não, mas apesar de tudo é meio caminho andado.

E se lhe sair tudo ao contrário? Está sinceramente contente com os socialistas europeus?
A União Europeia não é o mundo da Alice no País das Maravilhas. Agora, eu já tive por duas vezes assento nos Conselhos, em 2000 quando era ministro da Justiça e entre 2005 e 2007 quando fui ministro da Administração Interna. Já fiz uma Presidência, já preparei uma segunda. Sei bem que nada é fácil de obter na União Europeia, mas também sei que poucas coisas são impossíveis de obter. O que é necessário é fazer o caminho certo: primeiro identificar muito claramente quais são os nossos interesses e o objectivo a alcançar, em segundo lugar identificar as alianças que temos de construir e depois é preciso trabalhar, ganhar o apoio dos outros. Este governo foi o primeiro governo português a apresentar-se em Bruxelas de forma submissa, nunca se bateu por nada em defesa do interesse de Portugal e isto é absolutamente imperdoável. Claro que ninguém pode partir numa aventura irresponsável, de peito feito às balas, qual cavaleiro andante, aqui vou eu montado na minha mota derrotar a Alemanha.

Está a gozar com Yanis Varoufakis...
Claro que foi derrotado e criou um clima que conduziu a um resultado bastante pior do que certamente teria alcançado se tivesse adoptado uma outra estratégia. O caminho não é fácil, não é um boulevard largo e florido, mas é um caminho que é possível construir.

Leia a segunda parte da entrevista, "O primeiro-ministro está viciado no engano".

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