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Tatuagens. Discriminação em creche gera onda de indignação
Mel fez acaba de fazer três meses. Os pais ainda não sabem em que creche a vão inscrever

Tatuagens. Discriminação em creche gera onda de indignação

Mel fez acaba de fazer três meses. Os pais ainda não sabem em que creche a vão inscrever Arquivo pesssoal de Cliff Barbosa Marta F. Reis 20/07/2015 12:25

Relato do tatuador Clife Barbosa foi partilhado por milhares no Facebook. E já ligaram para oferecer vaga a Mel.

Em três dias, mais de 11 mil partilhas no Facebook e 600 comentários. O relato de Clife Barbosa, tatuador de Oeiras, sobre a tentativa de inscrever a filha num infantário de uma Instituição Particular de Solidariedade Social está a gerar uma onda de indignação nas redes sociais.

Depois de lhes ter sido garantida uma vaga, o casal foi informado de que os seus rendimentos não chegaram a ser analisados – o que é suposto acontecer nas IPSS – e que a única forma de Mel ter lugar seria pagarem o valor que a directora considerava “justo”. Isto numa reunião que incluiu comentários sobre as tatuagens dos pais e onde lhes perguntaram se não tinham ninguém com quem deixar a filha. Quando responderam que os avós da criança não podiam, a directora da instituição terá mesmo questionado se o casamento deles não tinha sido aceite. 

Clife Barbosa, de 27 anos, disse ao i que ainda estão a ponderar tornar público o nome da instituição, não o revelando para já. “No momento ficámos meio abananados porque não tínhamos mais escolas”, explica. “Depois de todos os comentários, a directora diz-nos que tínhamos de decidir na hora se aceitávamos o valor porque tinha mais pais à espera. É lógico que depois de nos olhar de lado nunca lá deixaríamos a nossa filha.” 

Clife deixou passar uns dias e decidiu partilhar o sucedido nas redes sociais. “A minha tristeza é grande por saber que ainda existem pessoas assim. Não é por estar tatuado que sou bandido, que me drogo e que não tenho princípios”, lê-se no post, publicado na quinta-feira. 

O tatuador diz que não estava à espera da reacção em massa. Além de mensagens de solidariedade, chegaram boas notícias:“Ligaram-nos da IPSS ali à volta a dizer que têm vagas.”

discriminação Clife nunca tinha passado por nada do género. “Até aqui o máximo eram olhares. Se vou ao centro comercial de Inverno com uma camisola ninguém olha, se levo as tatuagens à mostra toda a gente olha.”

Entre quem tem tatuagens, as experiências são variadas. Mas a questão está longe de ser pacífica. Isabel Moreira, deputada do PS, nunca sentiu necessidade de esconder as suas – no braço, pulso e perna. “Para isso teria feito noutras zonas”, diz. Considera-as uma forma de expressão: tem, por exemplo, tatuada a data de legalização do casamento gay, que elegeu como símbolo dos valores de liberdade. Nunca ouviu um comentário depreciativo, mas admite que o vestuário expõe mais as mulheres. “Há deputados homens muito mais tatuados do que eu”, diz. Ainda assim, reconhece sentir por vezes que as suas tatuagens são associadas a uma maior rebeldia, mesmo não tendo provas concretas disso. Ana Gonçalves, administrativa de 32 anos, já teve reacções mais desagradáveis. Aos 25 anos tatuou no fundo das costas folhas e uma borboleta. “Já fui chamada de maluquinha, má pessoa e vadia.” Mas o cúmulo foi na maternidade: “O anestesista fez o comentário ‘se tiveste coragem para fazer uma coisa destas bem podias ter o teu filho sem anestesia.”

mudar mentalidades Salvaguardando não conhecer o caso de Clife Barbosa, Isabel Moreira assinala que são situações que não devem passar impunes: a discriminação é anticonstitucional. “No fundo estão a discriminar a criança via pai que não está a fazer mais nada se não dispor livremente do seu corpo. Tatuar ou não tatuar a partir dos 16 anos ou com autorização dos pais é um direito de personalidade”, diz a deputada, jurista de formação.

Para a advogada Joana Silva Aroso, da JPAB Associados, apesar de não haver legislação específica, como já se discutiu em países como o Reino Unido, não faltam mecanismos de defesa. Mas a especialista admite ser uma área onde ainda existe em Portugal pouca justiça. “É muitas vezes um fenómeno subtil e há uma mentalidade pouco aberta. Em Londres é normal um senhor engravato sair do banco e ir buscar o amigo com crista cor-de-rosa para tomar café e isso cá ainda é impensável.”

A aparência continua a ser muito relevante, nomeadamente no mundo do trabalho, concorda Filipa Leite Castro, consultora da Jason Associates e especialista no recrutamento de executivos. Havendo mais abertura, a especialista prevê que continuem a existir culturas organizacionais com diferentes parâmetros, pois isso reflecte o pensamento da sociedade. “Hoje se entrar num banco e vir alguém de piercings e cabelo azul vai estranhar mais do que se entrar numa empresa de Tecnologias de Informação.” 

Se acatar algumas questões culturais como proporcionais pode ser aceitável, o facto de quem se sente melindrado reagir pode ajudar a ir mudando mentalidades, diz a advogada Joana Silva Aroso, exemplificando que pode ser compreensível uma empresa opor-se a uma tatuagem de uma cruz suástica e não a uma mais inofensiva. “Da mesma forma que eu percebo por que não devo vir de calças de ganga para o escritório ou que tenho de cobrir os ombros para entrar num monumento religioso. Mas se não me deixarem entrar porque sim, tenho de reagir”, diz. 

Usar o livro de reclamações é um primeiro passo, defende a advogada. “Muitas vezes o que faz falta é essa cultura de reacção, as pessoas acatam”, diz Joana Silva Aroso. Nesse sentido, as redes sociais parecem estar a conquistar algum espaço. “E são muitas vezes mais eficazes do que as pessoas julgam”, remata a advogada. 

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