24/9/18
 
 
Ana Kotowicz 16/07/2015
Ana Kotowicz

ana.kotowicz@ionline.pt

Seis anos é muito tempo para quem ameaça furar olhos a crianças?

A professora da Amadora tinha por hábito dar chapadas aos alunos, dava-lhes pancadas na cabeça com o livro de ponto e desferia-lhes golpes com o pau de vassoura que guardava perto de si. 

“Professora condenada a seis anos de prisão por bater em alunos.” O título da notícia causa-nos estranheza. Nada tem a ver com a convicção de que as orelhas de burro e as reguadas devem ficar no mesmo sítio que as escolas do século XX: no passado. O que surpreende é haver um tribunal português que tenha condenado a seis anos de prisão efectiva uma professora que maltratava os seus alunos.

A primeira associação é com os casos de pedofilia. Basta uma volta no Google para encontrarmos casos de pais, avós e padrastos que violaram menores durante décadas e acabaram com penas suspensas de três ou quatro anos. Outra pesquisa, em qualquer motor de busca à escolha, e descobre-se que em 89% dos casos de violência doméstica, o agressor condenado por um juiz não chega sequer a pôr pé na cadeia.

A moldura legal para todos estes casos existe e se formos conversar com quem vive os bastidores da justiça portuguesa, a resposta é invariavelmente a mesma. A convicção do juiz é determinante para que esta ou aquela pena seja, na opinião do leigo, demasiado leve ou demasiado pesada.

Portanto, comparando os seis anos da professora com casos conhecidos de pedofilia, a pena parece pesada. Será? A professora da Amadora tinha por hábito dar chapadas aos alunos, dava-lhes pancadas na cabeça com o livro de ponto e desferia-lhes golpes com o pau de vassoura que guardava perto de si. Segundo o acórdão, os gritos das crianças ouviam-se nas salas em redor. Para além da agressão física, havia ainda a psicológica.

Ameaçava os alunos que, caso contassem aos pais o que se passava na sala de aula, lhes furaria os olhos e ainda ficariam sem intervalos e de castigo. Chegou a atirar uma cadeira à cabeça de um aluno e deixou um outro a sangrar. Falta um último pormenor.

Os seus alunos eram crianças de cinco e de seis anos. Em tribunal não mostrou qualquer arrependimento, o que terá levado o juiz a decidir por uma pena mais pesada. Pesada? Para quem ameaça furar os olhos de um miúdo de cinco anos? Dos seus 27 alunos, muitos passarão o resto da sua vida académica a associar a escola ao inferno. Seis anos talvez seja, afinal, uma pena leve.

 

 

 

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