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Cometa 67P. Philae detecta indícios de vida extraterrestre
Elena Duvernay/Stocktrek Images

Cometa 67P. Philae detecta indícios de vida extraterrestre

Joana Azevedo Viana 07/07/2015 15:21

Autor diz ao i que as provas “inequívocas” de organismos no cometa apontam origem da vida na Terra.

Para os leigos, a descoberta ontem divulgado pelos cientistas Chandra Wickramasinghe e Max Wallis pode ser resumida assim:“Há 500 anos foi uma luta levar as pessoas a aceitar que a Terra não era o centro do universo. Mas depois dessa revolução a nossa forma de pensar continuou a ser centrada na Terra no que toca à vida e à biologia. Isso está profundamente enraizado na nossa cultura científica e vão ser precisas muitas provas para o conseguirmos alterar.”

As primeiras parecem ter chegado. Não foi há muito tempo que o robô Philae, transportado pela sonda Rosetta – que a Agência Espacial Europeia enviou para o espaço em Novembro –, quebrou um silêncio de meses. “Olá, Terra, consegues ouvir--me?”, foi a mensagem de 19 minutos enviada pelo Philae a 16 de Junho, confirmando que tinha estacionado no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko. E duas semanas depois chegaram “provas inequívocas” de vida para além da Terra. 

Assim explicou ao i Wickramasinghe:“A comprovar-se, isto quer dizer que a vida foi trazida para o planeta Terra por cometas de impacto”, diz o astrónomo da Universidade de Cardiff, que é também professor honorário na Universidade de Birmingham. “A vida na Terra surge gravada em rochas pela primeira vez há 4 mil milhões de anos. Hoje sabemos que a Terra foi intensamente bombardeada por cometas, que também trouxeram água para formar os oceanos. O processo de os cometas trazerem bactérias e vírus para a Terra, contudo, não parou nessa altura. E foi essa entrada de micróbios de cometas que, ao longo do tempo geológico, controlou efectivamente a evolução da vida até à emergência dos hominídeos e do Homo sapiens [na Terra].”

Descoberta fulcral Oque o Philae permitiu que os astrónomos detectassem é que a crosta negra orgânica do cometa, gelada, parece esconder microrganismos no subsolo. “As erupções do cometa ocorrem à distância do Sol, a uma tal distância que não poderia ser isso a provocar a subliminação da superfície”, explica ao i. “Isso indica que existe vida microbiana na subsuperfície em bolsas de gases de alta pressão que criam fissuras no gelo e libertam partículas orgânicas” – as que a sonda Rosetta detectou e que se assemelham a “partículas virais”, no que o cientista britânico nascido no Sri Lanka diz serem “extremófilos”, semelhantes ao tipo de micróbios que habitam as regiões mais inóspitas do nosso planeta.

Com os dados recolhidos pelas sondas europeias, e através de simulações em computador, Wickramasinghe e Wallis, seu colega na Cardiff, apuraram a existência de sais anticongelantes produzidos pelos organismos, o que explicará a crosta negra e gelada do cometa 67P – microrganismos esses que podem estar activos a temperaturas tão baixas quanto 40 graus negativos, o que lhes permite sobreviver à dura travessia do espaço. “A superfície negra do cometa e o seu espectro de reflectividade correspondem a material biológico e sugerem provas independentes da presença, em grande abundância, de hidrocarbonetos aromáticos”, adianta ao i o astrónomo que passou os últimos 15 anos a preparar a missão da Rosetta e do Philae.

“Não é fácil explicar isto em termos de química pré-biótica [que estuda a origem da formação das moléculas orgânicas necessárias à vida na Terra]”, acrescenta por email. “O material negro [do cometa] está a ser constantemente reabastecido à medida que é evaporado pelo calor do Sol. E, dada a distância a que está do Sol, alguma coisa está a provocar isto de uma forma bastante prolífica.” As descobertas foram apresentadas pelos cientistas ontem no Encontro Nacional de Astronomia da Sociedade Real de Astronomia, em Llandudno, no Norte do País de Gales.

Vida noutras galáxias Numa busca na internet, o nome de Chandra Wickramasinghe aparece citado num artigo, que, apesar da origem duvidosa, remete a notícia para a revista oficial do parlamento britânico. No texto datado de 2011 e publicado no site Lankaweb.com é noticiada a expulsão de Wickramasinghe de Cardiff, com duras críticas ao trabalho de décadas do astrobiólogo sobre a teoria de que foram cometas e asteróides a trazer vida para a Terra e outros planetas do sistema solar e de outros sistemas exoplanetários.

Sobre o assunto, o britânico de 76 anos diz apenas ao i que “é totalmente falso e que os responsáveis já estão sob ameaça de processos judiciais”, escusando-se a avançar mais pormenores. Prefere falar do trabalho a que dedicou grande parte da sua vida, sobretudo à teoria da vida cósmica, desenvolvida em parceria com Fred Hoyle, e a teoria da panspermia, em parceria com Carl H. Gibson e R. E. Schild, à qual dedicou os últimos 15 anos.

Nenhum desses nomes é (ainda) tão sonante como o de Arthur C. Clarke, o inventor e escritor de ficção científica britânico que viveu no Sri Lanka até à sua morte, em 2008, famoso pelo conto “ASentinela”, que deu origem ao filme “2001:Odisseia no Espaço”. Pouco antes de morrer, Clarke definiu Wickramasinghe como “um dos principais astrónomos do mundo de hoje e, como comprovado pelo seu impressionante currículo, um farol nas investigações de astronomia britânicas, com contribuições fundamentais para o estudo e para a compreensão das poeiras cósmicas”.
Sobre a sua descoberta mais recente, o cientista explicou ao i o impacto alargado de se confirmar que o cometa 67P esconde vida microbiana. “É inevitável que os mesmos cometas que plantaram vida na Terra o tenham feito não só no sistema solar mas também em sistemas planetários vizinhos. Estudos recentes mostram que os planetas em torno de estrelas que não o Sol são bastante comuns, estimando-se que existam neste momento cerca de 140 mil milhões de sistemas exoplanetários na nossa galáxia. Acredita-se hoje que adistância média entre sistemas planetários vizinhos que possam albergar vida é de meros anos-luz – o correspondente ao alcance de uma cuspidela em termos astronómicos. Portanto toda a nossa galáxia é uma biosfera interligada.” Aexplicação termina com uma exclamação. “Os nossos antepassados genéticos deverão, por isso, existir em vastos números por entre as estrelas!”

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