30/5/17
 
 
Marta Horta Varatojo. Os alimentos como forma de vida

Marta Horta Varatojo. Os alimentos como forma de vida

Margarida Vaqueiro Lopes 01/07/2015 19:34

Os amigos aprendiam que comer sopa fazia bem à saúde enquanto ela aprendia que o sal era um alimento mais yang. Cresceu macrobiótica e acredita que é a alimentação que salvaguarda o corpo.

Primeiro fala o sorriso.Depois os olhos, sempre brilhantes, expressivos. “Na altura havia algum desconforto” em relação à macrobiótica, conta Marta Horta Varatojo, quando recorda a infância. Filha de dois pesos-pesados no mundo macrobiótico – Francisco e Geninha Varatojo –, aprendeu desde pequena o que são alimentos yin (potenciam uma atitude mais gentil e reflectida) e alimentos yang (criam uma atitude mais enérgica e dinâmica). “Os meus colegas aprendiam que comer sopa fazia bem, e eu que o sal era mais yang. Nunca pensei muito nisso. Era normal.”

O equilíbrio que defende – “não gosto de extremismos” – veio também de casa, onde os pais se complementavam na educação dos quatro filhos. “Se ia a uma festa de aniversário, comia o que houvesse”, conta. “Desde que haja arroz, um ovo e uma salada, está tudo bem. Além de que como peixe”, o que continua a facilitar-lhe a vida. “Mas sempre houve espaço para experimentar coisas pelas quais tivesse curiosidade. Nunca tive, por exemplo, curiosidade de experimentar um bife ou um hambúrguer”, revela a rir. “Estou tão habituada ao sabor dos alimentos, ao verdadeiro sabor, que não tenho curiosidade por coisas demasiado condimentadas ou processadas.” Apesar de a macrobiótica ser estranha para algumas pessoas, a verdade é que os preconceitos têm diminuído.“O facto de ser uma dieta que tem toda uma filosofia por trás torna mais difícil explicá-la às pessoas.”

E garante, com uma gargalhada, que sempre foi saudável, como os irmãos. Actualmente a macrobiótica “já não é vista como uma seita, como era quando o meu pai a descobriu, nos anos 70”, recorda.

Marta começou por querer ser designer de moda.Tentou, durante três anos, entrar no curso em Lisboa, conseguiu uma vaga em Castelo Branco, mas o encanto durou apenas um mês. “Sempre fui uma sonhadora com alguma dificuldade de pôr as coisas em prática”, admite. Depois de Castelo Branco foi para Londres, de Londres para Brighton e de Brighton voltou a Lisboa.“Fiquei a trabalhar em moda com a Helga Carvalho, que ao fim de seis meses me disse que eu não estava feliz. E não estava.” Aprender a ler os sinais que a vida lhe vai dando fez parte do seu crescimento, e acabou por fazê-la regressar às raízes. “Uma boa alimentação pode dar-nos esse centro interno que nos permite estar no sítio certo à hora certa”, explica, sublinhando que quando fala em macrobiótica fala sobretudo numa alimentação“de qualidade, com produtos da região e da estação em que estamos”.

A vida pôs-lhe o festival Boom – um festival alternativo que todos os anos acontece em Idanha-a-Nova – no caminho e foi aí que percebeu que precisava de estar mais ligada à terra, à sustentabilidade. Mas foi apenas em 2009, depois de se ter demitido de uma loja onde tinha arranjado trabalho, que se deu o clique. Pelo caminho tinha ficado um namorado brasileiro – ainda viveu três meses do outro lado do Atlântico – e muitas lágrimas, que mais tarde perceberia que provavelmente eram de gratidão. O Boomfoi uma das melhores experiências da sua vida, garante.

Regressando a 2009, sem emprego e a duas semanas de precisar de pagar a renda de casa, foi passar um fim-de-semana com uma amiga, para meditar e descobrir efectivamente o que a vida quereria de si. “Fiz um exercício de visualização e vi-me numa cozinha.” Não deixava de ser estranho, uma vez que só aprendeu a cozinhar quando saiu de casa dos pais. Ligou à mãe porque “havia sempre gente à procura de professores de culinária ao domicílio no Instituto Macrobiótico de Portugal”. A mãe atendeu, pediu um tempo, desligou e voltou a ligar. “Fui trabalhar para casa da Ruxa, cujo frigorífico era o sonho de qualquer cozinheiro”, conta com nostalgia e gratidão no olhar. “No ano seguinte, no festival Boom, fui cozinhar para a equipa. Todos os dias, durante três meses, para uma equipa que estava zero habituada a este tipo de alimentação.” Renderam-se, e nos meses seguintes Marta teve vários convites para ir ao estrangeiro mostrar a sua cozinha. Passou pela Suíça e pelo Rio de Janeiro e durante dois anos dedicou-se ao pequeno catering e a cozinhar para particulares, registo de que gosta “muito”. Em 2011 achou que estava na altura de dar mais um passo e abriu uma loja de produtos macrobióticos em Leiria. Alugou um pequeno espaço e fazia da cozinha da avó o local para organizar workshops de culinária. “Não gostava muito de dar aulas, mas como é que as pessoas iam comprar os produtos se não conheciam a cozinha?” Pouco tempo depois estava a mudar-se para um espaço maior e a trocar o nome da loja de Macroexotic – o blogue que criou e alimenta mantém o nome – para Instituto Macrobiótico de Leiria.

Um feliz acaso da vida levou-a a um evento nas Amoreiras, onde se cruzaria com a editora que lhe lançou a ideia de escrever um livro de receitas – “A Cozinha da Marta”. Não apenas receitas soltas, mas um livro em que explica a importância dos alimentos para a energia, o bem-estar, a vida. “Acho que se tivermos a base, que é o nosso corpo, forte e saudável, naturalmente as coisas fluem e conseguimos ir até onde queremos”, explica. Mas aprender o que o corpo quer e deve consumir não é uma fórmula mágica e universal.

Éum caminho que se faz com muita calma e paciência. “A sociedade moderna procura soluções rápidas. Há um bocado o mito da pílula mágica. Mas há muitos factores a ter em conta: o estilo de vida, a energia de que se precisa, aquilo de que se gosta, aquilo a que o corpo reage positivamente.” Pela energia, o sorriso e a saúde da Marta, a macrobiótica, que tem estado muito na moda, é claramente qualquer coisa que vale a pena seguir – “acho realmente que estas modas podem fazer a diferença na vida das pessoas”. Em relação ao futuro, Marta continua tão sonhadora como há dez anos. “Não vou fazer isto [cozinhar, escrever receitas] a minha vida toda.” E embora não saiba exactamente o que fará, tem a certeza de uma coisa. “As coisas vão acontecendo. Vou ver o que a vida me traz”, remata com um sorriso aberto. 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

Não tem utilizador? Clique aqui para registar

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×