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Santa Apolónia. Estação e linhas férreas abrem caminho a hotel e jardim
Dois meses depois de fazer 150 anos, a estação de Santa Apolónia corre o risco de ser desactivada para dar lugar a um jardim

Santa Apolónia. Estação e linhas férreas abrem caminho a hotel e jardim

Dois meses depois de fazer 150 anos, a estação de Santa Apolónia corre o risco de ser desactivada para dar lugar a um jardim Alexandre Almeida Marta Cerqueira 23/06/2015 09:49

Pode ser o fim da linha para Santa Apolónia. Depois de 150 anos a servir de estação de comboios.

Em 2008, Manuel Salgado garantia que a desactivação da estação de Santa Apolónia não estava “nem pouco mais ou menos” nos planos da autarquia. Hoje, o vereador do urbanismo não só pôs o encerramento da estação na agenda, como apresentou já um novo cenário para o local: a criação de um jardim.

Quando há sete anos foi lançado o projecto de ampliação da estação do Oriente, o então presidente da câmara, António Costa, defendeu que deveria ser equacionada a desactivação de Santa Apolónia para ser transformada num terminal de cruzeiros. A ideia gerou mal-estar entre moradores, comerciantes e as empresas do sector ferroviário – CP e Refer –, levando a autarquia a abandonar a ideia.

Sabemos agora que o projecto não foi posto na gaveta, mas sim adiado. No sábado, Salgado defendeu “numa visão de futuro”, o encerramento da estação de comboios de Santa Apolónia para dar lugar a um espaço verde com ligação ao Tejo. Apesar de não reunir o consenso da oposição, o plano conta com o apoio do vereador José Sá Fernandes, que afirma que o novo espaço vem “completar a estrutura ecológica da cidade”.

O vereador da Estrutura Verde não adianta pormenores sobre a ideia avançada por Salgado, mas acredita que o edifício não será demolido e traça até três destinos possíveis: hotel, centro de congressos ou edifício de apoio aos cruzeiros. As linhas férreas, essas, serão desactivadas, mas avança a hipótese de uma delas poder ser usada para prolongamento do metro. Apesar de ter já algumas ideias para o local, admite que o projecto não se realize a curto prazo: “Como implica a saída de contentores e a desactivação das linhas férreas, não depende só da câmara, mas também da Refer.”

Este novo jardim a nascer em Santa Apolónia vem aumentar o número de espaços verdes da cidade que, lembra o vereador, cresceram desde 2007 mais de 340%, como resultado da intervenção em mais de 50 hectares. “A ideia é prolongar a zona verde que nasceu na Ribeira das Naus e que se vai prolongar com as intervenções previstas no Cais do Sodré, no Campo das Cebolas e na Expo”, refere.

Especialistas divididos Entre os defensores de mais espaços verdes e aqueles que têm uma visão mais prática da cidade, o fim do serviço ferroviário para dar lugar a um jardim não é uma ideia consensual. Os vereadores da oposição já se mostraram publicamente contra o fim de Santa Apolónia como estação e quem utiliza regularmente o serviço também não esconde o seu descontentamento.

Oposições e críticas à parte, o i procurou perceber se a parte estética e, por outro lado, a funcional, ficariam salvaguardadas com esta intervenção. O arquitecto Manuel Tojal não duvida das vantagens que chegam com mais um espaço verde: “A revitalização de Santa Apolónia faz parte da tendência mais recente, que passa por aproximar o rio da cidade.” O especialista refere que as linhas férreas têm sido, nos últimos anos, o grande impedimento para que essa ligação seja mais facilitada, assim como forma de dar continuidade ao trabalho de reabilitação feito na zona ribeirinha da capital.

Com uma visão mais prática do projecto, o arquitecto Manuel Graça Dias considera “péssima” a ideia de desactivar a estação de caminhos-de-ferro, “não pelo edifício em si, mas pela sua utilização diária”. Segundo dados da Refer, o fluxo médio mensal em Santa Apolónia era de 236 mil passageiros em 2013.

O arquitecto lembra que, apesar de a utilização ser inferior à da Estação do Oriente – uma das justificações apresentadas por Manuel Salgado – neste caso não faz sentido “ir por maiorias” e prefere lembrar que “quanto mais rica for a cidade em opções de transportes melhor”. Aliás, Graça Dias acredita que algo que rentabilize os transportes públicos “nunca deve ser trocado” por outra coisa, “muito menos por um jardim”, algo que não considera essencial. “O nosso tempo não é todo de lazer, temos que pensar na cidade como algo funcional e, neste momento, Lisboa não precisa de mais jardins”.

Apesar de algumas ideias opostas, autarquia e arquitectos acreditam que a estação de metro que tem saída para a estação de Santa Apolónia não sairá prejudicada. O vereador Sá Fernandes lembra que vai continuar a servir os moradores da zona e o arquitecto Manuel Graça Dias sugere que seja complementada com uma linha de eléctricos rápidos para o Oriente.

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