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José Roquette. “O espectáculo da privatização da TAP confrange-me"

José Roquette. “O espectáculo da privatização da TAP confrange-me"

António Pedro Santos Isabel Tavares 06/06/2015 21:03

Amigo de Sá Carneiro, passou ao lado da política para ajudar os Espírito Santo.

Dono dos vinhos Esporão, José Roquette considera-se o sexto “ramo” da família Espírito Santo. Foi director-presidente do Banco no Brasil, depois das nacionalizações em Portugal, lugar que viria a ceder a Ricardo Salgado para regressar a Portugal e começar o grupo do zero. Foi aí que Ricardo se perdeu, acredita. E conta a sua versão de uma história em que, definitivamente, Carlos Costa, não é o mau da fita, garante.

Roquette é um homem low-profile mas não poupa críticas a um país e uma União Europeia à beira do abismo. “Não há na Europa líderes capazes de olhar para a senhora gordinha de Berlim de frente e dizer: somos pobrezinhos e temos de aprender a viver com Fiats e Peugeots, não podemos viver com BMW e Mercedes. Ia apanhar o susto da vida dela.”

E fala de outras lideranças fracas, como as de novos partidos políticos que proliferam, a de António Costa, do PS, a do Sporting, de Bruno Carvalho. Denuncia ainda “a falta de integridade com que resolveu tratar Marco Silva” ou até do governo e “do espectáculo da privatização da TAP”.

É por estas e por outras que, logo que pode e eles querem (e querem), põe os netos daqui para fora, com pelo menos um oceano pelo meio. “Na Europa isto não vai correr bem. Tenho 19 netos e decisões de investimento importantes para tomar. Um está na Austrália, outro nos EUA, outro em Manchester e outra no Quebeque. Vão para verem a coisa de fora para dentro”.

No início desta legislatura deu uma entrevista ao i em que dizia que Portugal não ia sair incólume mas acreditava no governo. Ainda acredita?

Não nos podemos queixar muito da classe política que temos em Portugal. Infelizmente não vejo grandes diferenças de qualidade em relação ao que vai por essa Europa fora. Vejo sobretudo uma incapacidade para entender e procurar estratégias. Estamos em permanente tentativa de ajustamento às mudanças, sempre a atirar ao lado. Se queremos acertar num alvo em movimento, temos de atirar para a frente. Portugal atira para trás e não era suposto que a União Europeia estivesse já viciada neste tipo de perspectiva, puramente reactiva. Quando toma medidas já a realidade lá vai, às vezes, longíssimo. A Europa é, nesse aspecto, frágil. Os seus líderes continuam a acreditar que a Europa é o centro do mundo e isso já lá vai.

Como vê a União Europeia, neste momento, e o que espera dela?

O senhor Juncker foi ao Reino Unido falar com Cameron por causa do problema complexo das eleições inglesas, que forçaram o primeiro-ministro a prometer um referendo até 2016 sobre a permanência na UE. Estava a senhora gordinha de Berlim e o atrasado mental do Hollande em conversações para colocarem riscos no chão do senhor Cameron, a dizer daqui e dali não passa. Ora isto não acrescenta rigorosamente nada, excepto a probabilidade cada vez maior de o Reino Unido ficar fora da UE. Isto, quando há duas questões importantíssimas pendentes para a Europa.

Quais?

A primeira são as correntes migratórias. Os ingleses têm muita experiência nisso – alguém me dizia que em Londres devem estar 5% a 10% das cabeças do exército islâmico. Mas a experiência do RU como democracia é muito mais antiga do que a da UE, têm muito mais linhas de defesa de prática objectiva do que a Europa comunitária. Quando Juncker tomou posse disse – e depois mandaram-no calar  –, que a UE precisava de um exército europeu. Porque não são só as correntes migratórias, é o que se está a passar na Rússia: nesta altura, Putin não está a encarar outra coisa que não seja aquilo que os russos fizeram sempre que se sentiram apertados, que foi sair aos tiros. Se não podem vender petróleo, vão vender kalashnikovs.

Qual é a segunda?

Barack Obama vai acabar o segundo mandato e quer deixar uma herança que tem a ver com dois grandes projectos em curso: o TTIP – Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento, a assinar com a União Europeia, e o TPP – Parceria Transpacífica de Comércio, a assinar com a Ásia Pacífico. A Europa está a pôr areia na engrenagem de forma clara, embora possam existir algumas razões, e o TPP vai ser assinado já, para surpresa de todos. O mais extraordinário é que uma parte dos decisores do Reino Unido também acredita que o acordo pode ser um cavalo de Tróia e o que se vai seguir é que Cameron vai querer recuperar alguns compromissos.

O que vai acontecer à UE sem o acordo?

O que acontece é que o crescimento da economia global está todo naquela zona do Pacífico. Por isso o acordo acontece a esta velocidade; vai mudar o mundo. Haja ou não aceleração por parte da União Europeia nas negociações, estamos outra vez a cuspir para o ar. O bloco que se vai formar em termos da Ásia e dos países que subscrevem o TPP é inultrapassável pela Europa. Mas o que é grave é que no caso do TTIP a Rússia ficou excluída por razões óbvias e porque o TPP exclui a China, por considerar que o tipo de economia que o país pratica não está dentro dos padrões do acordo. A exclusão da China e da Rússia são, quanto a mim, riscos absolutamente dramáticos.

Porquê?

Uma parte importante do meu dia é ler as várias versões dos acontecimentos. A minha faixa etária [fez 78 anos o mês passado] tem essa vantagem; a experiência ajuda a destrinçar, a fazer as interpretações de diferentes versões dos factos. Os chineses estão a construir estruturas para controlar espaço terrestre, marítimo e aéreo. Ora, se isto não nos cheira a turbulência e a trapalhada... E não posso deixar de juntar isso ao que está a acontecer em termos de TPP. E a União Europeia vai ser vítima da assinatura desse acordo.

É empresário, está habituado a ter cenários alternativos. Portugal tem, devia ter, um plano B?

Portugal não pesa nada em termos geoestratégicos. Devíamos ter, mas estamos de pés e mãos atados. Estamos virados de frente para a Europa e com as costas voltadas para aquilo que devia ser uma estratégia alternativa, leia-se África e Américas. Uma coisa que a mim me dá um sentimento dramático de impotência é isto: Draghi [presidente do BCE] esteve no Estoril há dias e disse, em leituras atravessadas, que tentou fazer o seu trabalho mas, nesta altura, é uma questão política, por isso o problema não é dele.

Draghi diz isso desde que chegou ao BCE.

Mas há um ano houve uma alteração, que foi o Quantitative Easing (QE) e Draghi pôde dar finalmente à manivela com a autorização da senhora gordinha de Berlim. Ele, que de burro não tem nada, já percebeu que não vai conseguir, mesmo que faça printings de euros a uma velocidade inconcebível, recuperar alguma coisa daquilo que podia ter sido possível se tivéssemos começado há quatro ou cinco anos. Continua a ter inflação negativa, mas tentou entrar pela via do QE muito mais cedo.

Demitia-se. Ou não? Afinal há muitos magrinhos à volta da senhora gordinha de Berlim...

Infelizmente, o mais magrinho que anda à volta da gordinha de Berlim é o senhor Schäuble, que deve ter um trauma. E vive uma coisa que para a Alemanha é um objectivo nacional frustrado há centenas de anos, que é ganhar uma guerra. Acontece que a Alemanha acabou sempre destruída. Agora a senhora encontrou um processo para fazer uma guerra económica e são considerados a locomotiva económica da Europa. Mas não há liderança política capaz de olhar para a senhora gordinha de Berlim de frente e dizer: somos pobrezinhos e temos de aprender a viver com Fiats e Peugeots, não podemos viver com BMW e Mercedes. Ia apanhar o susto da vida dela.

Porque é que ninguém faz isso?

Porque  estamos todos dependentes daquilo que acontece em Frankfurt. Os estatutos do Banco Central Europeu são um susto. Draghi tem experiência suficiente, Constâncio também. Estão a olhar para isto e a ver a história do Japão, há anos mergulhado em deflação, a repetir-se. Agora o problema é saber se o dinheiro que é injectado chega aos destinos certos, aos sistemas bancários dos vários países, para ficar disponível para promover o investimento.

E chega ao destino certo?

Esse é um dos problemas mais difíceis, não se saber onde fica. Em Portugal estamos em zona de investimento negativo. Acreditava-se que a mão-de-obra barata ia resolver os problemas todos e agora é preciso criar um ambiente que permita pensar novas decisões de investimento. Aconteceu que esta gente, tipo aprendizes de feiticeiro, com vassouras e balde, espalhou por aí um remédio chamado austeridade sem saber as doses certas e mataram a plantinha, que é débil. A instabilidade em sectores como a justiça e o fisco sempre foi um obstáculo e não há ninguém lá fora que não tenha pensado vir cá fazer um negociozinho especulativo, ganhar uns tostões e ir embora. Já nem vou falar do espectáculo da privatização da TAP, que me confrange.

Fale lá da TAP...

Os dois senhores que estão a concurso [Efromovich e Neeleman] são fugas para a frente, obviamente para tentar resolver os problemas das empresas onde já estão instalados e não o problema da TAP. A TAP no universo dos dois candidatos é uma estrutura pesada. E cada vez estou mais convencido de que não vai haver um candidato vencedor. Não me parece razoável que, com a diferença de alguns dias, um candidato altere significativamente para melhor a sua proposta de compra, como pediu o ministro da Economia.

O que falha na TAP?

A capacidade financeira para se tornar concorrencial. A TAP precisa de novos aviões, porque do ponto de vista competitivo estes já não chegam lá. Fernando Pinto sabe perfeitamente que tem de reformular a frota. A greve dos pilotos foi uma estupidez sem nome. A alternativa, e esta não é uma história nova, é a falência. Chipre tinha uma companhia nacional e fechou. O que a TAP_tem de mais atractivo são as rotas da América Latina e África. Causa-me estranheza que nenhum operador de nível global, como uma British Airways, tenha mostrado interesse. É possível que queiram apenas as rotas? E, na hipótese de não haver decisão de venda, qual o plano B?

Há grupos nacionais com capacidade financeira para comprar grandes empresas, como o Novo Banco?

Se reparar, em termos de referências, e olhando para o sistema bancário do país como hoje existe, não sobra nenhum banco com centro de decisão – maus centros de decisão – em Portugal, só a Caixa Geral de Depósitos. Ou são chineses, ou angolanos ou espanhóis, para quem Portugal é uma deriva de segunda. Foi por isso que a Fitch fez um downgrade de todos os bancos portugueses: BCP, BPI e por aí fora são quase irrelevantes.

 

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