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Homeopatia. Quando os médicos se convertem
Telma Gonçalves Pereira. “Medicina há só uma”

Homeopatia. Quando os médicos se convertem

Telma Gonçalves Pereira. “Medicina há só uma” Marta F. Reis 06/06/2015 18:48

Daniel sempre duvidou até uma dor que nunca mais passava o fazer descobrir as alternativas.

Telma era anestesista e começou a estudar a homeopatia por curiosidade. O seu consultório médico e de homeopatia na Rua da Prata, em Lisboa, tornou-se uma referência. Daniel sempre duvidou até uma dor que nunca mais passava o fazer descobrir as alternativas. David estava no primeiro ano de Medicina quando ficou surpreendido com a cura praticamente do dia para a noite de um dos seus pastores-alemães. Sonha com um mundo onde haja espaço para a medicina “integrativa”.

 

Telma Gonçalves Pereira. “Medicina há só uma”

Queria ser arqueóloga, mas teve de pôr o sonho de lado. Telma Gonçalves Pereira, de 65 anos, cresceu em Moçambique numa altura em que só havia hipótese de tirar cursos científicos. Entrou para Medicina e acabou o curso em Portugal. Em meados da década de 70, ainda não existia o SNS, poria pela primeira vez a vocação à prova: foi destacada para Santa Maria nos Açores, no então chamado serviço obrigatório à periferia. “Foi uma grande experiência. Foi como chegar a um lugar que nunca tinha tido médicos”, lembra. 

Passaram mais de 40 anos mas o percurso da médica está longe de ser convencional. Fez a especialidade de anestesiologia nos Hospitais Civis de Lisboa, como se chamava antigamente a S. José, Santa Marta ou Curry Cabral. Quis contudo uma carreira mais ligada à investigação, fez um doutoramento em Bioquímica e começou a dar aulas na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova. A homeopatia surge praticamente ao mesmo tempo, ao início por pura curiosidade, explica. Acabaria por permitir-lhe encontrar o seu lugar na medicina. “Na altura havia apenas um pediatra já muito velhinho a fazer homeopatia e desafiaram-me a conhecer um pouco melhor.” 

Foi tirar um curso sem preconceitos e ao perceber os resultados decidiu incluir a homeopatia no seu arsenal terapêutico. Acabou por abrir um consultório médico e homeopático na Rua da Prata, em Lisboa, e hoje é das médicas a exercer nas duas vertentes há mais tempo. Para Telma não há nada de especial nisso. “Trata-se de olhar para o doente como um todo. Não se pode falar de medicina homeopática, medicina há só uma”, resume, defendendo que só os médicos deveriam poder fazer homeopatia, após dominarem o diagnóstico. “Passo exames e receito medicamentos convencionais. Uso a homeopatia ou suplementos quando me parece indicado.”

Sabe que está em minoria entre os colegas, mas diz que é procurada por muitos médicos e outros enviam-lhe doentes. Tal como ela envia doentes a especialistas de outras áreas. Diz que é importante reconhecer os limites, mas ao mesmo tempo não ignorar a eficácia nos casos em que é fácil conseguir bons resultados, como problemas respiratórios ou quistos. “Se tivéssemos curado o cancro já tínhamos ganho o Nobel. Mas aparecem doentes em fases terríveis e procuro ajudá-los a sentirem-se melhor”, diz a médica. Nunca os incentiva a trocar os tratamentos oncológicos, como contraria todos os pais que dizem que não querem dar vacinas aos filhos. “Há muitos medicamentos convencionais que são importantes. Sou médica, não sou pata”, insiste. Irritam-na as críticas dos cépticos, que diz serem fáceis de derrubar nas centenas de fichas de doentes que tem arrumadas no consultório. “Se fosse água e açúcar, estavam todos diabéticos.”

Daniel Matos. “Fui convertido quase obrigado”   

Daniel Matos só acreditou quando viu. Faz quase 30 anos, o médico de família estava no pico da actividade quando começou a ter um problema logístico: uma dor no cóccix que tornava insuportável estar sentado a dar consultas. “Fui ao topo de gama, fizeram-me todos os exames, eu morria de dores e nada.”

Passaram meses até tentar uma última cartada: falar com um médico que fazia acupunctura, na altura já mais reconhecida, para tentar resolver o problema. O colega perguntou-lhe se tinha algum problema psicológico grave. Daniel estava no meio de um divórcio complicado e respondeu que sim. “Quando ele me diz que não era coisa para acupunctura mas para homeopatia não acreditei minimamente. Era muito cartesiano e fui convertido quase obrigado.”

Por respeito ao colega, Daniel deu o benefício da dúvida e tomou as gotas. Passada uma semana sem efeito ligou ao médico, que corrigiu o preparado para uma dose centenas de vezes mais diluída e lhe disse que tomasse o frasquinho de uma vez. Mais céptico ainda, anuiu. “Passados quatro ou cinco dias saí de casa com dores, sentei-me e guiei até ao consultório. Quando cheguei as dores tinham desaparecido. Liguei ao médico a dizer que por acaso tinha ficado bem e ele disse-me que tinha milhares de acasos como o meu”.

Daniel começou a estudar medicinas alternativas. Quando tinha problemas no consultório que não conseguia solucionar devidamente, encaminhava-os para a homeopatia e começou também a usar em casa. Lembra-se sobretudo de casos respiratórios e problemas de pele. E de uma mãe que ainda hoje lhe agradece ter salvo a vida da filha. “Estava internada na Estefânia com hemorragias, na sequência de uma gripe. Fizemos o tratamento e num fim-de-semana ficou boa.” 

Daniel até admite que pode não ser mais que efeito placebo, mas “o que é que não é psicológico, mesmo no efeito dos medicamentos convencionais? A relação entre médico e doente tem um efeito placebo”. Reformou-se do SNS há seis anos, quando fez 63. No centro de saúde nunca explorou a homeopatia. Nem acredita que fosse possível. “É preciso uma longa conversa com o doente para perceber tudo o que se passa na sua vida e isso não é possível no ritmo de trabalho que têm os médicos de família.”

Com mais tempo, tem-se dedicado a estudar a fundo as alternativas que acredita têm lugar como complemento da medicina clássica. A que mais o fascina é o colorpunctura, em que se estimulam os pontos de acupunctura com luzes coloridas, uma técnica proposta nos anos 80 pelo alemão Peter Mandel. Tem o seu estojo de lanternas e usa-o apenas em amigos e familiares que o procuram. “Se algum dia tiver uma queimadura numa mão, experimente apontar uma luz laranja durante quatro minutos”, desafia.

David Nascimento Moreira. “Os cães não pensam que vão ficar bons”  

Foram muitas dores de cabeça com o Stimpi Feetback, lembra David Nascimento Moreira. O jovem estudante de Medicina, que antes tinha passado pela Faculdade de Veterinária, fazia criação de pastores-alemães com o irmão e logo um dos cães que lhes tinha custado 2500 euros estava sempre com eczemas e dava cachorrinhos também com problemas de pele. Depois de um ano e meio a tentar antifúngicos e corticóides decidiu pedir ajuda a um professor de Veterinária que trabalhava com homeopatia. O especialista não viu dificuldades: indicou-lhe Natrium muriaticum 30CH, “feito de sal de cozinha”, explica David. Decidiu experimentar o frasquinho, que lhe custou quatro euros, sem contar nunca com grandes resultados. “Ao fim de quatro dias a pele deixou de escamar e três semanas depois apareceu pele nova. Não teve mais problemas e as ninhadas saíram normais.”

Apesar do êxito, David admite que foi cauteloso. Afinal estava a tirar Medicina e nunca tinha ouvido falar de alguém credível reconhecer eficácia à homeopatia. Aliás, ao longo do curso só ouviria denegri-la. Mas, como obtinha resultado, daí para a frente sempre que os cães tinham problemas ia ao homeopata.“Sempre fui céptico mas andei um ano a fazer experiências e a certa altura era de mais.” Chegava a pedir à mãe para umas vezes dar o medicamento e outras apenas água, para registar os resultados sem se deixar influenciar. “Só havia melhorias quando tomava o remédio.”

David acabou por tirar um curso de homeopatia enquanto fazia o de Medicina e apresentou a tese final na Faculdade de Medicina de Lisboa sobre a investigação científica em homeopatia. Na avaliação, o professor assinalou tratar-se de “um contributo de índole científica numa área pouco estudada na nossa faculdade”. 

O incentivo fê-lo continuar. Aos 29 anos está a fazer o internato em Saúde Pública na Unidade Local de Saúde do Alto Minho e colabora com a Associação Médica Portuguesa de Homeopatia. Diz que não faltam estudos a demonstrar as propriedades dos medicamentos homeopáticos e a sua eficácia. Quanto a tudo não passar de um efeito psicológico, diz que para si a maior prova são os seus cães, que ao que sabe não tomam remédios a pensar que vão ficar bons. Ainda não tem autonomia para exercer, só no próximo ano, quando passar ao segundo ano de internato.

Sonha com um mundo onde seja possível integrar todos os conhecimentos médicos que podem ajudar os doentes e vê na homeopatia uma arma sobretudo na prevenção e em pediatria, por ser menos agressiva. Defende ser preciso mais investigação e o envolvimento dos médicos e por isso colabora com o laboratório LIMMIT na Faculdade de Medicina de Lisboa, que estuda interacções entre mente e matéria na intervenção terapêutica.

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