22/11/17
 
 
Mais que milagres, os doentes procuram menos dor
Os preços dos tratamentos, que não têm comparticipação, são a principal queixa contra a homeopatia

Mais que milagres, os doentes procuram menos dor

Os preços dos tratamentos, que não têm comparticipação, são a principal queixa contra a homeopatia Getty Images Marta F. Reis 06/06/2015 18:39

Paulo recusou os tratamentos no IPO. Ana não aguentava os efeitos secundários dos anti-histamínicos.

No dia 23 de Maio, Paulo Varela Gomes fez uma festa em casa para celebrar três anos de vida sem “sofrimento excessivo”, conta. Foram uma vitória para quem, na Primavera de 2012, viu de repente os dias contados, quando acordou com um inchaço do tamanho de uma amêndoa no pescoço. Seguiram-se exames e um diagnóstico dramático: um tumor na cadeia linfática cervical posterior e metástases no pulmão, um cancro que já não era operável. Os médicos deram--lhe quatro meses de vida mas Paulo recusou os tratamentos, que os oncologistas disseram que poderiam prolongar a sua vida apenas um par de meses mas possivelmente o deixariam sem maxilares e com um cateter permanente na garganta.

Paulo não quis esse desfecho para si e procurou outros caminhos, também por já ter visto morrer muitos amigos com cancro depois de tratamentos dolorosos, que acredita que muitas vezes destroem as defesas do organismo e podem acelerar a progressão da doença. A homeopatia surgiu logo como uma hipótese, explica o professor universitário. Tinha alguns livros em casa sobre tratamentos alternativos e admite que sempre foi um pouco partidário da teoria da conspiração de que a indústria farmacêutica alimenta o cancro e outras doenças. Como muitos livros eram assinados por médicos, pessoas “responsáveis”, admite que essa curiosidade académica o fez sempre desconfiar dos dogmas universitários.

Nos últimos tempos a saúde piorou e o homeopata, que nunca lhe prometeu milagres, disse-lhe que pouco podiam continuar a fazer por ele. Está agora a tomar medicamentos que compra no estrangeiro, na expectativa de que retardem como aconteceu até aqui a progressão da doença e lhe dêem mais tempo. Mas três anos depois não se arrepende da decisão que tomou. “Se não foi a homeopatia que produziu este resultado, foi quem ou o quê? Deus ajudou, claro. Mas nenhum médico oncologista interveio”, diz Paulo, que publicou recentemente na revista “Granta” um testemunho na primeira pessoa sobre a forma como tem vivido a doença. Chamou-lhe “Morrer é mais difícil do que parece” e acredita que com a medicina convencional, mais agressiva, talvez não pudesse ter feito tudo o que fez desde 2012. Com os resultados que teve, viajou, brincou com os netos, orientou alunos. Publicou quatro livros.

menos dor Uma alternativa com menos dor, de que Paulo não abdicou, é um motivo comum para procurar a homeopatia. Acontece no cancro – para substituir os tratamentos quando o prognóstico é difícil ou para aliviar os tratamentos – mas também em muitas outras doença.

Paulo lamenta que os médicos desacreditem estas abordagens e recusem que possa chamar-se médico a um homeopata. Com o aconselhamento do seu, mudou a sua vida. Adoptou uma alimentação quase macrobiótica, sem açúcar e fritos, e passou a tomar suplementos e medicamentos homeopáticos com o objectivo de reforçar o sistema imunitário e combater melhor a doença, o que acredita ter acontecido. 

Ana Campos, também professora e com 69 anos, viveu toda a vida com alergias e depois uma rinofaringite crónica. Também sente que mudou de vida graças à homeopatia. “Por mais que me mudassem os anti-histamínicos, reagia mal, como cansaço, dores de cabeça, até deprimida. Chegava a preferir a rinofaringite àquilo.” Por conselho de uma amiga, há dez anos procurou uma homeopata. “Ainda hesitei porque ouvia dizer que era preciso tomar medicamentos de duas em duas horas.” Hoje admite ser preciso disciplina para as gotas ao acordar e ao deitar, mas nada de especial. E até se esquece que tem aspirinas em casa, pois as dores de cabeça nunca mais voltaram. 

Também Teresa Joaquim, de 60 anos, descobriu na homeopatia a solução para a asma e há quase 40 anos combina a medicina convencional com a homeopática, depois de uma primeira experiência na Bélgica. “Tive uma crise renal e não aguentava a agressividade dos medicamentos”, justifica.

Reconhecem que o debate em torno da homeopatia está polarizado mas rejeitam fanatismos. Agrada-lhes a forma como são avaliados de modo global e se insiste na prevenção, no estilo de vida. Mas também vão a médicos convencionais. O senão são os preços, já que não há comparticipação. Paulo gastou 2 mil euros por mês no tratamento, uma despesa que só tem conseguido suportar porque as irmãs, os tios, os primos e os sobrinhos abriram uma conta para o ajudar. Ana Lucas, de 45 anos, usa homeopatia há 20 anos e considera-a o seu luxo. Enquanto der, vai continuar a usar só homeopáticos para os problemas respiratórios e a fibromialgia. “Com corticóides desde tão nova como é que eu poderia chegar aos 80?”

As explicações científicas não os inquietam. Sentem resultados e basta. Ana Campos sorri: está a tomar gotas que levam arsénico sem medo, já tomou o “veneno” antes e fez-lhe bem. “Não me faz confusão, também não sei como actuam os medicamentos normais. Não creio que seja apenas psicológico porque os resultados são visíveis. Se dizem que a homeopatia é só água e resulta comigo, venha mais água como esta.”

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

Não tem utilizador? Clique aqui para registar

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×