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Pedro Braz Teixeira 06/06/2015
Pedro Braz Teixeira

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Negociações gregas

O governo grego apresentou finalmente uma proposta concreta sobre a sua dívida, mas as negociações deverão ser muito duras.

O governo grego está a revelar-se mais perigoso do que se imaginava, tendo jogado todas as cartadas. Em primeiro lugar, aproximou-se da beligerante Rússia de Putin, como forma de salientar a sua importância geoestratégica e de obrigar os EUA a envolverem-se naquilo que tinha sido até agora uma questão “interna” europeia. Se é verdade que a Alemanha é o líder incontestado da zona do euro, a sua importância relativa é muito menor no contexto mundial, em particular quando comparada com a maior potência mundial.

O presidente Obama já pressionou publicamente os líderes europeus a encontrarem uma solução e é de admitir que, à porta fechada, esteja a ser colocada pressão para a UE evitar a saída da Grécia do euro, um evento duma enorme gravidade geoestratégica e económica, com capacidade de fazer a falência do Lehman Brothers em 2008 parecer uma ligeira contrariedade. 

O novo executivo helénico também usou o trunfo das reparações de guerra, que entretanto saiu do espaço público, mas poderá estar a ser usado em privado ou em preparação para voltar à ribalta. 

A posição negocial do Syriza tem sido muito intransigente, recusando reformas estruturais, ainda que esteja cada vez mais no limite da capacidade de resistir. Aliás, toda a actual incerteza está a paralisar a economia grega e a ter graves efeitos nas contas públicas, reduzindo a margem de manobra do governo. Apesar disso, não parece disposto a ceder, por estar consciente de tanta coisa estar dependente da sua permanência no euro. 

Do outro lado da barricada, a posição mais rígida e difícil é a do FMI, que tem responsabilidade perante os seus accionistas, muito descontentes com o excesso de apoio que tem sido dado a vários países europeus que, no contexto mundial, são dos mais ricos. A decisão grega de adiar um pagamento ao FMI até ao final do mês poderá parecer chocante, mas foi aceite pelo Fundo. 

Segue-se a posição do BCE, que poderia ser forçado a cortar o financiamento à banca grega, caso se dê a interrupção de pagamentos do Estado helénico. O BCE deverá tentar tudo para não ser uma acção “técnica” sua a desencadear a saída da Grécia do euro, mas há limites estatutários à sua actuação.

Por isso, a última proposta grega de reestruturação da dívida envolve um perdão significativo, mas também a substituição das dívidas ao FMI e BCE por dívida ao Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira. A ideia é diminuir os custos com os juros e conseguir retirar pressão, nos próximos anos, de qualquer pagamento do capital dos empréstimos, eliminando este sufoco sucessivo com a aproximação das datas de amortização dos vários créditos concedidos a este Estado.

Apesar de tudo, esta proposta merece ser discutida. De acordo com os termos indicados, a Grécia não receberia nenhum euro mais de empréstimo, mas é evidente que os credores europeus ficariam, directa ou indirectamente, mais sobrecarregados, pelo que não estarão dispostos a aceitar as condições sugeridas sem impor nada.

Exagerando um pouco, o que a Grécia teve até hoje foi muita austeridade com poucas reformas e o que faz sentido neste momento é suavizar a austeridade, mas acentuar as reformas. Um dos fracassos mais claros no caso grego foi o facto de uma desvalorização interna muito forte, que envolveu mesmo uma queda dos salários nominais, quase não se ter traduzido em crescimento das exportações, ao contrário do que se passou em Portugal, onde a desvalorização interna não foi tão grande. 

Temo que nas negociações com a Grécia, os parceiros comunitários se envolvam num equívoco grave de pensar que fora do euro a austeridade seria muito maior, o que levaria o executivo grego a evitar a saída a qualquer custo. Isto é esquecer que fora do euro o foco passa das contas públicas para as contas externas. De volta à dracma, a austeridade é muito mais disfarçada; vem sob a forma de inflação e, por isso, é politicamente muito mais atraente. Aliás, até se pode dizer que os eleitores gregos revelaram preferir esse tipo de austeridade nas décadas que precederam a entrada no euro. 

Investigador do Nova Finance Center, Nova School of Business and Economics
Escreve ao sábado

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