23/5/19
 
 
Ana Sá Lopes 03/06/2015
Ana Sá Lopes
Política

ana.lopes@ionline.pt

Os gregos são os nossos vizinhos

Talvez Tsipras tenha sido eleito com um mandato impossível: acabar com a austeridade numa Europa em que a austeridade foi sufragada pela maioria dos que se sentam nos conselhos.

© Thanassis Stavrakis/AP

É provável que haja um acordo qualquer de última hora que impeça a Grécia de falir nos próximos dias. É evidente que as coisas nunca acabarão em bem (o voto do povo grego é incompatível com a linha dura da zona euro), mas podem acabar em mais ou menos. Aliás, os alarmes sobre o risco de uma saída da Grécia da zona euro já estão a soar, a começar por Berlim.

Os sociais--democratas que fazem parte do governo alemão já mostram abertamente o mal-estar com a incapacidade da Europa de arranjar uma solução para a questão grega. Sigmar Gabriel, o vice-chanceler e líder do SPD, já disse que as consequências da bancarrota grega seriam “gigantescas”.

Para Sigmar Gabriel, que está longe de ser um extremista de esquerda (na realidade, a sua política financeira é muito semelhante à de Merkel e Schäuble), o mundo perderia toda a confiança na Europa se a união económica e monetária se desfizesse na sua primeira grande crise. Os Estados Unidos estão em pânico – por razões económicas mas essencialmente porque a Grécia, membro da NATO, ocupa uma posição geoestratégia relevante. 

Vários economistas – incluindo um professor de Economia deputado do Syriza – defendem que a Grécia estaria melhor fora do euro do que dentro. A capacidade de manejar uma moeda própria permitiria mais facilmente uma saída da crise. Acontece que o Syriza foi eleito com o programa de se manter no euro a todo o custo, mas acabando com a austeridade e com o sofrimento que tem sido imposto às famílias. O próprio Varoufakis é profundamente contra a saída do euro, que classifica como um “desastre”.

Talvez Tsipras tenha sido eleito com um mandato impossível: acabar com a austeridade numa Europa em que a austeridade foi sufragada pela maioria dos que se sentam nos conselhos europeus, e não apenas por Merkel. Mas a derrota de Tsipras provará que não há caminhos alternativos fora da “linha justa” da Europa que expulsou a social-democracia enquanto ideologia de governo.

Uma ruptura da Grécia com a Europa – um cenário com consequências imprevisíveis – daria, à partida, razão ao governo português, que aproveitou estes anos para provar que “era bom aluno”. Seria a vitória do TINA (There is No Alternatives, como a ideologia vigente na Europa ficou conhecida) e um soco no PS,  que promete genericamente que um novo governo socialista faria um corte com a política de austeridade, por muito que Costa se tenha empenhado em se afastar do Syriza nos tempos recentes.

Mas, independentemente de qual dos discursos seria mais favorecido no worst case scenario, na realidade a fragilidade de Portugal deixaria o país acorrentado à derrota grega. Se se abrir a caixa de Pandora, é provável que os juros da dívida de Portugal disparem como no auge da crise do euro. Portugal devia estar a torcer pela Grécia – infelizmente não está. O PSD percebe-se porquê, o PS entende-se mais dificilmente.

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