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Manuel Coutinho. “A palmada pedagógica é uma ideia que deve ser banida”
A linha só funciona porque existe um trabalho de equipa com vários parceiros, diz Manuel Coutinho

Manuel Coutinho. “A palmada pedagógica é uma ideia que deve ser banida”

A linha só funciona porque existe um trabalho de equipa com vários parceiros, diz Manuel Coutinho José Fernandes 26/05/2015 11:00

Os maltratados são os que menos recorrem à linha SOS-Criança, conta-nos o secretário-geral do Instituto de Apoio à Criança.

Esta linha surgiu nos anos 80, associada ao IAC. Como é que foi recebida?
Logo nos primeiros anos percebeu-se que as crianças eram maltratadas normalmente dentro da família. O modelo cultural permitia isso. Em Novembro de 1988 surgiu o SOS-Criança, precisamente para dar voz à criança. Psicólogas, assistentes sociais e educadoras ouviam--nas e tentavam dar uma resposta. Mas o serviço que ia trazer alegria e esperança não foi logo muito bem aceite por todos. Foi considerado um serviço que dava muito trabalho aos outros, como se fôssemos inventar situações de risco e de perigo. Era-nos frequentemente dito que os casos não constavam dos seus registos. Depois as coisas foram-se alterando e a criança começou a ser considerada um sujeito de direitos.

Era um serviço pioneiro, mesmo para o resto do mundo.
Em termos internacionais, foi uma das primeiras linhas a existir. Levou a que os países da Europa criassem linhas europeias, anónimas e confidenciais. Criaram-se os números 116 111, iguais em todos os países europeus, para serem usado nas situações de risco das crianças. Para Portugal foi muito fácil fazer a permuta. Para além desta linha, no início dos anos 90 percebemos a necessidade de criar uma linha 24 horas por dia para as crianças desaparecidas e abusadas sexualmente. Foi feito um trabalho nacional, fez-se um estudo para perceber quem eram as organizações que trabalhavam com esses casos e lançámos o número 1410. A Europa, mais tarde, cria o número europeu: 116 000.

O que fazem no caso do desaparecimento de uma criança?
O desaparecimento não é só o rapto efectuado por terceiros. São também as fugas da família ou da instituição, os raptos parentais (subtracção de menores), imigrantes não acompanhados. Quando desaparece uma criança, os pais e os familiares devem imediatamente contactar a linha, a PSP ou a PJ. Não recomendo que divulguem a imagem da criança. Os raptores estão atentos a todos os sinais e quando vêm a imagem em todo o lado tendem a desfazer-se da criança. A imagem de uma criança na internet fica para sempre na internet, tal como os emails que todos recebemos sobre crianças que desapareceram – e que muitas vezes já apareceram. O que não é bom para as crianças, nem para as famílias, nem para as pessoas que trabalham nestas situações. No âmbito das crianças desaparecidas existe um serviço designado “alerta rapto de menores” que é accionado em caso de rapto por terceiros. Só quando os meios acham que se deve lançar este alerta – durante três horas e depois pára – é que a linha de apoio é chamada para que todas as pessoas que possam ter informações rapidamente actuem. Há muitos pais que têm a ideia errada de que os de-saparecimentos só podem ser denunciados passado 24 horas. Isso é falso. Até um minuto pode fazer a diferença.

O que acontece depois de o SOS-Criança receber uma chamada?
Orientamos as situações para outros serviços. Só existimos porque fazemos um trabalho de equipa com outros parceiros. Mas o SOS é mais do que a linha telefónica. Tem um serviço psicológico, social e jurídico gratuito e uma equipa de mediação escolar que parte do princípio de que é na escola que os problemas familiares muitas vezes se manifestam. Vamos às escolas tentar sensibilizar as crianças e os adultos para a existência destes apoios. Quando percebem que uma criança está a passar por uma situação de vulnerabilidade, que está a conviver com alcoólicos, toxicodependentes, que apresentem a situação porque o objectivo é evitar que o perigo aconteça. Muitas vezes vêm depois das fatalidades dizer que sabiam e não denunciaram. De forma indirecta, foram cúmplices.

Quem é que liga?
Crianças, jovens e adultos. Quem liga mais são os adultos. E, dentro dos adultos, as mulheres. O maltratado nem sempre liga. Normalmente quem liga são pessoas próximas dele. Na família, quem mais maltrata as crianças são as mães. Uma vez dizia-me uma menina: “A minha mãe diz que o meu pai é um cobarde porque lhe bate. Então porque é que também me bate a mim?” A palmada pedagógica é uma ideia que deve ser banida. Nenhuma mulher gostava que o seu homem ou o seu chefe lhe desse uma palmada pedagógica.

Há quem ligue por estar só?
Sim, chega-nos muito. Crianças que estão tristes, que não têm quem brinque com elas. Os pais têm hoje muito pouco tempo para estar com os filhos. As crianças não são adultos em miniatura. E como não o são, não devem, depois de cargas horárias brutais, vir para casa com trabalhos de casa. As crianças estão sobrecarregadas e esses trabalhos potenciam os conflitos intrafamiliares. Os professores avaliam os trabalhos de casa feitos pelos pais que os sabem fazer. As crianças não se sentem bem-amadas ou sentem-se desprotegidas. Muitas telefonam durante anos, regularmente. Tenho lá dentro o quadro de uma criança que aos 16 anos tinha tendências suicidas porque passava os Natais e os fins-de-ano sozinha. Recebeu apoio de um serviço de especialidade. Uns anos mais tarde mandou-nos um desenho a agradecer.

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