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Laurentino Gomes. “Todo o brasileiro estuda Álvares Cabral, mas não sabe bem quem foi”
O historiador prepara uma nova série de  de três livros sobre a história da escravidão no Brasil, com previsão de lançamento a partir de 2019

Laurentino Gomes. “Todo o brasileiro estuda Álvares Cabral, mas não sabe bem quem foi”

O historiador prepara uma nova série de de três livros sobre a história da escravidão no Brasil, com previsão de lançamento a partir de 2019 Bruno Simões Castanheira Maria Ramos Silva 26/05/2015 08:00

Num 15 de Novembro, Pedro II é forçado a abandonar o trono e a sair do país. Corria o ano de “1889” quando a República foi proclamada no Brasil.

Em “1808”, a corte portuguesa de Dom João desembarcava no Rio de Janeiro. Em “1822”, o Brasil conquistava a independência. Jornalista e vencedor de quatro prémios Jabuti, Laurentino Gomes, encerra a trilogia sobre a história do seu país com “1889”, ano da proclamação da República. A queda do imperador, a liderança de um velho marechal, e os ecos de uma mudança ainda em curso, que então se fez escutar num navio ancorado na distante capital do Ceilão, sem saber que bandeira hastear. 

A sua visita a Portugal passa por Belmonte, terra de Pedro Álvares Cabral. Como é tratada a figura no Brasil?
É a primeira vez que estarei lá. Tenho grande curiosidade porque Pedro Álvares Cabral é uma personagem pouco conhecida. Toda a criança e estudante sabe o seu nome mas não sabe exactamente quem foi. É uma personagem meio nebulosa na história do Brasil. Cheguei até a pensar fazer uma biografia para os brasileiros mas desisti. Vou fazer uma trilogia sobre o tema da escravidão. Mas tenho curiosidade. É como se o Brasil tivesse começado em Belmonte. Cabral sempre aparece como um verbete, uma personagem de passagem na história do Brasil.

No começo desta trilogia, defendia já que o começo dessa história se situa no século XIX.
É, é uma boa discussão. Acredito que a invenção do Brasil, como estado independente, nação soberana, ocorre no século XIX, com a chegada da corte de D João. Quando Cabral chega à Baía, em 1500, nos três séculos seguintes o Brasil foi uma grande fazenda de Portugal, de onde a coroa extraía as suas riquezas. Claro que havia uma cultura portuguesa se instalando no Brasil. Basta ir ao Ouro Preto, Olinda, Salvador, e ver o barroco mineiro. Mas do ponto de vista administrativo, legal, o nascimento do Brasil se dá com a ida da corte. Dá início ao processo de independência, apenas 14 anos depois da chegada de D. João. 

O que mais caracteriza essa independência?
Tem duas características muito distintas da restante América. Primeiro, não é uma ruptura, não se torna uma República, é uma continuação de Portugal no Brasil. Não é por acaso que quem faz a independência do Brasil é o herdeiro da coroa de Portugal, o vosso futuro D. Pedro IV. Depois, o Brasil não se fragmentou na época, ao contrário dos vizinhos da América espanhola. Isso também se deve à presença da corte portuguesa. Se D. João não fugisse de Napoleão rumo ao Rio de Janeiro...

Como imagina o Brasil?
A independência viria, mas o Brasil provavelmente se tornaria republicano, e seríamos uma constelação de países de língua portuguesa na América do Sul. É a corte que passa a funcionar como uma amálgama daquela elite, e como elemento de força e unidade territorial. Agora, é um estado forte, centralizado, há muita corrupção, muita promiscuidade entre interesses públicos e privados, desigualdade social. O número de analfabetos estima-se em 99% da população. Portugal ocupou esse território enorme com escravidão e distribuição de grandes porções de terras para os poucos portugueses que se dispunham a ir lá colonizar o Brasil. Características como o latifúndio mantêm-se até hoje no Brasil. 

Como vê o Brasil esta herança?
Às vezes faz um julgamento muito duro. De Portugal também vem uma sociedade relativamente tolerante, do ponto de vista racial, político. Portugal foi um império mercantil e precisava de negociar com o outro, não bastava impor pela força do canhão. Claro que temos muita intolerância e preconceito, mas na média é um país multicultural, que assimila facilmente. 

Especula-se sobre como seria se a identidade do colono fosse outra?
É uma discussão grande no Brasil, que é  um país muito diverso e difícil de governar. Às vezes ouço teses curiosas. Ah, talvez tivesse sido melhor se o Brasil se fragmentasse. Ou então, “se fosse os ingleses que nos tivessem colonizado seriamos melhores do que somos hoje” [risos]. Eu sei lá, seria uma Austrália ou uma Nova Zelândia. Não seria o Brasil. 

A monarquia poderia ter tido uma vida mais longa?
Acredito que não. Tinha exaurido as suas forças no final do século XIX. A monarquia é resultado de um pacto na época da independência. Havia muito medo em 1822, de que o Brasil pudesse mergulhar numa guerra civil republicana. Um segundo medo era de uma guerra étnica, um banho de sangue como no Haiti. Éramos o maior território negreiro das Américas e havia o receio de que esses escravos contaminados pelas ideias libertárias pudessem pegar em armas. A elite brasileira aceitou assim uma forma conservadora. Permaneceu a monarquia, em compensação o trono não abole a escravidão nem alfabetiza as pessoas. Esse é o pacto que mantém a monarquia no Brasil durante 67 anos. 

Que não é propriamente derrubada.
Quando se abole a escravidão, há uma implosão no edifício da monarquia. O partido republicano fazia muito barulho na imprensa mas não tinha votos. Começa a explorar as fragilidades da monarquia para viabilizar a mudança do regime. Primeiro, as divergências entre a liderança militar e o governo imperial após o fim da guerra do Paraguai. Segundo, a própria campanha republicana. O manifesto de 1870 tem uma frase curiosa: somos da América e queremos ser americanos. Não queriam mais esse modelo europeu, monárquico, português. E o imperador Pedro II estava velho, cansado, doente. Havia ainda um problema de sucessão no trono. A princesa herdeira era uma mulher e o Brasil é um país machista, patriarcal.

Era preferível um republicano a uma mulher.
Exacto. Havia grande oposição a uma mulher a governar. E quando a própria princesa Isabel se torna abolicionista da escravidão, em 1888, os barões do café sentiram-se traídos e tornaram-se republicanos. Essa república só chega mesmo por meio de um golpe militar, pelo marechal Deodoro da Fonseca, liderança idosa mas respeitada pela monarquia, que decide derrubar a monarquia por brios próprios e questões pessoais. Os civis, que não ganhavam nas urnas, embarcam numa canoa golpista. O que cria uma contradição. Defendiam ideais civis mas chegam por um golpe militar. É uma característica que chega até agora.

Diz que o país ainda está a aprender a construir esse estado.
É. Tem a ver com essa complexidade do Brasil. A monarquia foi um elo de construção de cima para baixo. Com a República, a situação social era semelhante. É curioso observar essa ideia de que era preciso ter um elemento de força para impedir o caos social. Daí que a República seja sempre feita por generais, ditadores, caudilhos, que organizam o estado de cima para baixo. Até recentemente, ao regime militar de 64. Está mudando. 

Como vê hoje os efeitos do regime?
Temos uma sociedade mais educada, menos analfabeta, uma economia mais complexa, um país que se urbanizou muito rapidamente. As cidades trazem práticas políticas novas, como o panelaço. Cada vez que a presidente vai para a TV fazer um discurso, as pessoas vão para a rua e batem panelas. Agora, sim, está se exercendo uma democracia republicana como a sonhada lá atrás. Faz 30 anos, e não é por acaso, que temos uma democracia no Brasil sem golpes, rupturas. Em 1984 o povo pediu o direito de votar, foi como uma segunda república. Jovem, dada a sobressaltos, com problemas que continuam. O brasileiro é pouco paciente, vive do fenómeno do salvacionismo. 

Resquícios da influência portuguesa?
É, o herói da pátria, o D. Sebastião que vem e muda tudo rapidamente. Achámos que era o Fernando Henrique, o Lula, a Dilma, e eles são produtos da democracia. Têm coisas boas e más. É um aprendizado rico e sofrido. Há que manter a esperança.

A república brasileira antecipa-se à portuguesa. Qual o nível do contágio?
É interessante observar como as histórias são paralelas. A dinastia de Bragança tinha até então governado dois países. Quando D. Pedro II chega a Lisboa encontra já uma monarquia nos seus estertores. E surge o quinzismo, inspirado no 15 de Novembro brasileiro, da proclamação da república. Há um reforço do ideário. Mas veio mais tarde e mais violenta. O brasileiro gosta de se apresentar com um povo pacífico e cordato mas a república também não veio pela via mais pacífica. Não houve regicídio mas nos 10 anos seguintes morreram mais de 30 mil pessoas no Brasil. 

Mais uma vez, irmãos na ideia dos brandos costumes?
Acho que essa ideia tem a ver com a mitologia imperial, monárquica. O país vive em estado de rebelião e sobressalto durante muito tempo. O imperador apresenta-se como uma figura freudiana; o pai que pacifica os conflitos e aglutina os interesses. Vem daí a ideia de que não brigamos, mas é como em qualquer família, sempre se briga. O Brasil precisava se distanciar do pai e da mãe, o que criou muito antagonismo. Mas o grande justiceiro da história é o tempo. Ainda há muito preconceito, mas se somos independentes há 200 anos e continuamos corruptos, não dá mais para culpar os portugueses. É tempo de buscar as riquezas dessa herança e menos de atribuir ao outro os nossos problemas. 

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