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Linha SOS-Criança. Uma chamada a cada hora, a cada hora uma criança
Do outro lado da linha, seis técnicas escutam as denúncias, as queixas e o desespero

Linha SOS-Criança. Uma chamada a cada hora, a cada hora uma criança

Do outro lado da linha, seis técnicas escutam as denúncias, as queixas e o desespero José Fernandes Sílvia Caneco 26/05/2015 11:00

O i conversou com os técnicos, ouviu os telefonemas e conta-lhe as histórias de quem liga para o 116 111.

– Por favor... Alguém me ajude. Há dois dias que não dou comida à minha filha.

Paula, a técnica responsável pelo atendimento da chamada feita para o 116 111, começava a sufocar. Como consegue alguém ouvir que uma criança corre perigo e continuar ali, agarrada a uma secretária e a um telefone, sem poder ir a correr salvá-la? À medida que a mãe se ia desembrulhando de um discurso de coisa sem coisa, Paula tomava conta da gravidade do que estava a acontecer, algures numa casa do país: aquela mãe não tinha caído na pobreza; não estava inválida, nem paralisada, nem tinha qualquer problema de mobilidade. Quem ligava era uma mulher barricada entre o que sabia estar certo e o que um transtorno de personalidade lhe pedia para fazer.

– Ela tentou ir buscar umas bolachas. Mas ela não pode. Ela não pode chegar à comida.

Paula teve a certeza, naquele momento, de que se tratava de uma emergência: se a mãe desligasse, ou se a chamada simplesmente caísse, não teria forma de detectar o rasto da chamada telefónica. Era preciso manter a mãe em linha, acalmá-la e conseguir identificar uma morada entre tanto discurso sem nexo para que as autoridades fossem enviadas ao local. Nesse dia, sem se levantar da cadeira, Paula salvou uma criança de morrer à fome.

Naquele dia, quem ligou foi a mãe. Noutra hora é um pai, ou uma avó, ou uma vizinha, ou uma professora, ou uma amiga. Ou simplesmente um homem ou uma mulher. Alguém só com um timbre, não precisa de rosto, nem nome, nem tão-pouco grau de parentesco. Desde que a linha foi criada há 25 anos, pelo Instituto de Apoio à Criança (IAC), já foram feitas por esta via mais de 132 mil denúncias.

Em média, a cada hora que passa há uma chamada que chega à linha e mais um registo, na folha de Excel, de uma criança em risco. Vítima de maus-tratos físicos e psicológicos. Vítima de abandono ou negligência. Vítima de bullying, violência no namoro ou abusos sexuais. Há ainda histórias de pais que não sabem dos filhos. Pais sem condições económicas ou mentais para cuidar das crianças. Pais que ameaçam pôr os filhos fora de casa. Pais que sofrem agressões e querem ver os filhos longe delas.

As seis técnicas responsáveis pelo atendimento não esquecem o que ouvem quando, ao fim de um dia de trabalho e dezenas de chamadas, entram em casa. Mónica – assim mesmo, sem apelido, por razões de segurança as técnicas não os têm – tinha acabado de sair de licença de maternidade quando, do outro lado da linha, começou a ouvir um relato pormenorizado de maus-tratos a um bebé.

– Tive de fazer um esforço sobre-humano para a minha voz não se separar de mim. Ali, sei que tenho de manter uma voz calma, que não me posso descontrolar, mas aquilo tudo, talvez por ter sido mãe há pouco tempo, mexia muito comigo –, recorda.

Quando chegou à sala ao lado, onde estavam as colegas, já as lágrimas escorregavam pelo queixo. Só conseguia repetir: “Como é que é possível? Como é que é possível? É um bebé!”

O vermelho do S.O.S chega de todos os lugares. Nos últimos seis anos, pelo menos 36 mil menores foram sinalizados como estando em risco ou tendo sido vítimas de qualquer tipo de maus-tratos: num extremo está a negligência, falhas nos cuidados alimentares, no acompanhamento escolar ou na saúde; no outro, os abusos sexuais e emocionais e as agressões psicológicas e físicas. Os números são perturbadores: entre 2011 e 2013, o Instituto de Medicina Legal detectou, em média, dois casos semanais de suspeitas de agressões a crianças. Seis acabaram por morrer vítimas de asfixia, intoxicação e lesões traumáticas. De acordo com o estudo “Maus-tratos infantis e morte em Portugal: estudo retrospectivo de três anos”, divulgado em Outubro, em Coimbra, em quase metade dos casos (45,5%), os agressores são os próprios pais. A maioria das crianças sinalizadas como vítimas tinham entre um ano e meio e dois anos e meio de idade. Há registo de traumatismos de natureza contundente, de natureza cortante, de intoxicação com gases e fármacos e até de queimaduras com cigarros.

Os números não incluem o caso do pai que saiu de casa com as mãos ensanguentadas depois de matar o filho de três meses, em desatinados golpes de faca, em Linda-a-Velha. Nem o de Maria Isabel, de dois anos, que morreu dias depois, em Loures, após ser espancada pelo padrasto.

Não há limites para a realidade.
“Nunca ninguém pensa que um homem pode ligar à mulher para lhe dizer: vou espetar uma faca no coração de uma criança. Quem trabalha nestas equipas tem de ter muita resistência à frustração. Muitas vezes, a realidade que chega ao telefone ultrapassa a ficção. Se cada um varrer a frente da sua porta, a rua fica limpa. É melhor apresentarem uma situação e ela não ser verídica do que não a apresentarem e ser. A criança não é o futuro, é o presente. E é no presente e com os meios que temos ao nosso dispor que a devemos ajudar”, defende Manuel Coutinho, secretário-geral do IAC, o instituto que foi pioneiro na criação de uma linha de atendimento telefónica gratuita e confidencial para denunciar os riscos e perigos a que estão sujeitas crianças e adolescentes.

Paula sabe que estatísticas são apenas estatísticas e não se guia por elas. Mas de há um ano para cá começou a ter outra percepção dos telefonemas que atende: “Temos percebido que temos tido apelos mais complicados. Muitas vezes, situações que ficam ali na fronteira. Que não sabemos muito bem se são maus-tratos psicológicos, se são outra coisa.” À conversa com Mónica, partilha um caso que chegara na semana anterior: o de uma criança de 12 ou 13 anos a quem o companheiro da mãe terá rapado o cabelo, depois de lhe ter retirado os pêlos púbicos.

Noutro dia foi uma vizinha quem ligou. Não suportava mais guardar para si que, na casa ao lado, duas crianças, de três e seis anos, passavam o dia sozinhas. E que durante esse período até já tinham sido vistas a passear pelo telhado. O que era feito do pai e da mãe? O pai estaria detido. A mãe contava às crianças, depois de lhes dar o almoço, que ia trabalhar para o Pingo Doce. Quando os técnicos da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens em Risco chegaram ao hipermercado, perceberam que não havia qualquer funcionária com o nome daquela mãe. Estavam perante um caso de abandono ou, no mínimo, de negligência. João e Joana acabaram numa instituição.

Noutra hora é uma professora quem liga em desespero. O que fazer quando uma criança conta na escola que o companheiro da avó vê filmes pornográficos ao seu lado? Ainda para mais, Sara descrevia cenas explícitas dos filmes e tinha sido apanhada na piscina a simular sexo com os rapazes. Como se não bastasse, contava que o pai estava fora e que a mãe era agredida pelo tal companheiro da avó. Já noutra hora, é uma mãe com receio de maus-tratos por parte de uma educadora porque a filha se recusa a ir à escola. Ou um pai que se barricou com os filhos. Ou uma mãe que saiu de casa porque o filho roubava e a agredia. Ou uma mãe que ameaça pôr a filha fora de casa porque já não sabe como lidar com os seus comportamentos agressivos. Um adolescente que fez uma tentativa de suicídio. Ou alguém para quem bastou olhar para os pulsos da neta para sentir que havia perigo.

– A minha neta tem 12 anos e automutilou-se.
Do outro lado do 116 111, numa sala de um prédio lisboeta, durante 17 minutos, Paula tenta acalmar a avó nervosa.

– Não sei o que fazer. Disse-me que não era a primeira vez, que não era de agora. Nunca notei que tivesse problemas. É muito estudiosa, mas talvez a minha filha a pressione muito com as notas. Ela faz isso no corpo. O meu filho, quando estava mais nervoso ou irritado, dava murros na parede. Agora ela faz isto. Serão problemas da cabeça? Isto não é autismo, pois não?

Paula sossega a avó, sugere que vá às consultas do Instituto de Apoio à Criança ou contacte um psicólogo mais próximo da área de residência. Repete que o número 116 111 está disponível 24 horas por dia: que pode voltar a ligar, e que a neta, ou o filho ou a nora, também o poderão fazer. O mais importante é fazê-la interiorizar esta mensagem: aquela criança é uma criança em risco. Se cortou os pulsos é porque está em sofrimento.

– Há qualquer coisa com a qual ela não está a conseguir lidar, percebe? Ela está a pedir ajuda.
“Esta nem é a situação típica. Mas o SOS tem essa especificidade. São situações atrás de situações, o que é muito exigente. Estamos a ouvir coisas difíceis e, por mais preparação que tenhamos, isto marca-nos sempre. E depois é preciso lidar com o sofrimento da outra pessoa. Neste caso era a avó, que estava claramente nervosa e ansiosa. Aqui, o nosso papel não é o chapa 5, registar situações e já está, mas lidar com isso ao telefone. Perceber que aquela situação é muito delicada, que aquela criança está a precisar de ajuda e fazer ver isso ao apelante. É daquelas chamadas em que temos de mostrar que é preciso actuar já”, desabafa Paula depois de pousar o telefone.

Maria José não precisava de se identificar, nem tão-pouco de dizer que era avó daquela criança. A linha garante o anonimato. O único dado necessário é a localização. As técnicas (psicólogas ou assistentes sociais) que atendem das 9 às 19h (nas horas seguintes, as chamadas são reencaminhadas para a Polícia Judiciária) registam a duração da chamada, o género do apelante (nome dado a quem faz a denúncia), o distrito de onde liga e se a chamada tem ou não relação com uma criança. Se o tiver, passa-se à segunda fase: consoante as denúncias, são contactadas as autoridades, as comissões de protecção de crianças e jovens em risco, a Segurança Social ou as escolas. Denúncias que envolvem bebés são tratadas como urgentes. No fim, quem atende e reencaminha os casos faz sempre questão de saber se a denúncia era verdadeira e se a história teve um final mais feliz. Para que conste dos registos e também porque, por mais que histórias que ouçam, nunca as tiram da cabeça.

Quem mais liga são os adultos, sobretudo as mulheres. Mas também há casos de crianças e adolescentes, muitas vezes motivados pelas campanhas de sensibilização que o IAC faz regularmente nas escolas. O apelo, desenvolvido em panfletos, é simples: se tens um problema, liga-nos. A partir daí chegam à linha histórias de crianças e jovens com ideação suicida, falta de auto-estima, problemas na escola ou dificuldade em lidar com pais divorciados e desavindos. “Às vezes o problema é relativo, mas não nos cabe a nós desvalorizar o problema de uma criança”, contam Paula e Mónica, habituadas a partilhar as histórias, e a rir de algumas delas como forma de catarse.

Há quem ligue porque se sente sozinho ou até, cada vez mais, porque os pais não estão e precisa de ajuda para fazer os trabalhos de casa.

“É outra coisa que aqui nos chega muito: o tempo que as crianças não têm para brincar. É frequente não terem sequer quem brinque com elas. O alargamento dos horários de trabalho lesou, e muito, a interacção parental. E se as crianças já estavam demasiadas horas na escola, com recreios desumanizados, ainda passaram a estar mais”, diz Manuel Coutinho, que logo a seguir salta para o orgulho que tem nos percursos de quem ligou durante anos e anos para aquela linha SOS, ultrapassou as crises e se transformou num adulto feliz. Aqueles que depois enviam cartas e desenhos, hoje pendurados na parede do apartamento onde todos os dias se arranjam soluções na hora pelo telefone.

Os mais sós transformam facilmente aqueles telefonemas numa rotina. Como o Rui, que começou a ligar com oito ou nove anos e hoje já está quase a entrar na idade adulta: uma criança solitária, ora eufórica ora deprimida, com um historial de ataques de pânico, conflitos com o padrasto e tentativas de suicídio. Chegou até o dia em que as técnicas tiveram de reencaminhar uma ambulância porque se atirou de um segundo andar. Rui sobreviveu e de vez em quando ainda liga, nem que seja para desabafar dores de crescimento ou simplesmente falar sobre o sol. António também já o faz há anos. Hiberna no Inverno e reaparece nas férias de Verão, quase sempre para repetir histórias em torno de um menino que “não consegue arregaçar as mangas”.

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