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Peregrinos de Mortágua. A morte ao quilómetro 178,8

Peregrinos de Mortágua. A morte ao quilómetro 178,8

Manuel Vicente Rosa Ramos 11/05/2015 10:18

À passagem por Cernache (Coimbra), ainda noite e a seguir a uma curva apertada, cinco peregrinos morreram.

Diogo não chegou a saber a nota do teste de Físico-Química. Andava nervoso e, quando voltou da escola, anunciou à mãe que era capaz de chumbar. Contou que a prova era tão longa que a turma do 11º ano teve de pedir mais tempo à professora. Falhar no teste era problemático. Diogo, escuteiro, andava com ideias de entrar na Academia Militar e quis repetir o 11º para conseguir melhorar as notas. 

Na semana da Páscoa, foi com os colegas do 12º – a turma antiga – à viagem de finalistas. No dia em que o autocarro saiu de Mortágua rumo a Espanha, Flávio, também escuteiro, completava  18 anos. Na viagem houve champanhe e bolo de anos, feito pela mãe do Diogo. Por esses dias, o aniversariante já andava em pulgas com a ideia da peregrinação a Fátima. No ano passado, ainda tentou fazer-se ao caminho, mas a avó morreu e teve de voltar para trás. “Desde esse dia, meteu na cabeça que havia de conseguir completar o trajecto”, conta o pai.

Este era o ano em que Flávio   terminaria a missão. Não é que fosse especialmente religioso: para os escuteiros, a caminhada é convívio e desafio. A  mãe, Margarida, não se deitou na noite de quinta-feira para o levar ao ponto de encontro dos peregrinos, marcado para as 2h da manhã na igreja de Mortágua. 

Mais ou menos a essa hora, num dos quartos do segundo piso da mais exuberante vivenda da aldeia de Gândara, Paulo abraçava o filho, ensonado, pela última vez. Diogo acordou chateado: o pai tinha prometido acordá-lo à 1h30 para se vestir e tomar banho com calma, mas Paulo teve pena dele e deixou-o descansar mais meia-hora. Na aldeia do Freixo, às portas de Mortágua, Aida e Paula faziam as últimas verificações às mochilas que levariam para a peregrinação. 

Antes de trancar as portas da vivenda, rodeada por eucaliptais e à beira da estrada nacional 228,  Aida ainda tratou dos quatro cães. Longe de imaginar que, menos de 48h depois, o marido, emigrado na Zâmbia, e a filha, militar da Força Aérea em Lisboa, estariam em casa para lhe tratar do funeral. À beira da mesma estrada, um quilómetro mais à frente, Paula despedia-se do filho de 14 anos. E, no centro de Mortágua, Heleno fazia o trajecto até à igreja a pé, com um cajado que comprara na peregrinação do ano passado. Na véspera, pedira à mulher que lhe gravasse, numa das máquinas da ourivesaria que geriam, as inscrições “2014” e “2015” – os anos das idas a Fátima a pé. Carminda comentou que só sobrava espaço para registar mais três anos. “Não faz mal. Depois começamos a gravar na parte de baixo do cajado”, respondeu-lhe o marido. 

Na sexta-feira, Heleno telefonou para casa pouco depois das 20h. Estava feliz, contou que o grupo tinha apanhado uma chuvada durante o dia, anunciou que ia descansar e que regressaria à estrada pouco depois das 2h da madrugada. Antes de desligar o telefone, ainda disse a Carminda que não se preocupasse e tomasse os remédios para dormir. 

Uma hora e meia antes, Diogo já tinha ligado ao pai. Paulo estava preocupado com a enorme trovoada que caíra em todo o país: “Deves estar encharcado, tens de trocar de roupa”. O filho respondeu-lhe que já tinha tomado banho e estava enxuto.  “Aposto que não trocaste de sapatilhas. Amanhã calças o outro par, que essas vão continuar encharcadas”, insistiu o pai. Diogo tinha levado dois pares de ténis na mochila, mas fazia questão de andar o tempo todo com um deles, o favorito. Paulo tinha receio de que o filho andasse com o calçado molhado e se constipasse. “Já pus jornais dentro das sapatilhas e, quando acordar, estão secas”, garantiu-lhe o rapaz.
 
A seguir à curva O grupo de 80 peregrinos de Mortágua dormiu a correr e, por volta das 2h da manhã, já estava outra vez na estrada. Duas horas depois, a peregrinação estava terminada. À passagem por Cernache (Coimbra), ainda noite e a seguir a uma curva apertada, cinco peregrinos morreram – quatro deles tiveram morte instantânea – e outros quatro ficaram gravemente feridos.

Pouco depois das 4h, um carro desgovernado surgiu do meio do nevoeiro, numa zona de bermas estreitas onde o trânsito estava condicionado a duas vias – a terceira tinha sido transformada numa faixa de segurança para os peregrinos circularem. O condutor, Levani Moseshvili, um georgiano com 24 anos, perdeu o controlo da viatura e meteu-se pela faixa dos peregrinos adentro. Diogo ainda resistiu e seguiu para os Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), com os quatro feridos, mas morreu no bloco operatório. 

Levani ainda terá tentado fugir, mas foi impedido por um camionista. Segundo o “Diário de Coimbra”, estava alcoolizado – com uma taxa de 1,0 g/lt de álcool no sangue – e drogado. Os resultados das análises ainda não foram confirmados publicamente, apesar de já ter passado uma semana do acidente. Na segunda-feira, o condutor foi levado a um juíza. Está indiciado por cinco homicídios por negligência, ficou proibido de voltar a pegar no carro e terá de se apresentar todas as semanas na polícia até ao arranque do julgamento. Soube-se, entretanto, que já terá cadastro por envolvimento noutros acidentes de viação. 

Um dia depois de ser ouvido, Mortágua chorava as mortes. Quando os cinco corpos chegaram à vila, os comércios fecharam as portas e quatro dos cinco funerais fizeram-se no salão dos bombeiros – o maior espaço do concelho e não muito longe da casa de Heleno, o homem que, há mais de 30 anos, construiu alguns dos primeiros prédios em altura da vila. 

Heleno das Neves, 67 anos O homem de negócios mais popular de Mortágua era o mais novo de três irmãos de uma família pobre. Heleno não pôde estudar e aos 14 anos já andava pelas serras, montado numa caterpillar, a desbravar mato. Depressa conquistou a confiança do patrão e, meses depois de ter sido contratado, passou a tratar-lhe das cobranças, aos fins-de-semana.

Quinze dias antes de embarcar para a guerra colonial em Angola, pediu a Carminda, uma moça que vivia numa aldeia do outro lado do monte, que fosse sua madrinha de guerra. Para que não gastasse dinheiro, deixou-lhe aerogramas suficientes para dois anos. Antes de voltar da guerra, pediu-a em casamento. Respondeu-lhe o pai dela, também por carta, a dar autorização para que o casamento se fizesse. Heleno regressou do ultramar, casou num dia de São Valentim, voltou ao trabalho das máquinas pesadas e, pouco tempo depois, nascia Zita, a filha mais velha. 

Entretanto, o patrão ensinou-lhe o ofício de ourives e Heleno começou a palmilhar o concelho, de porta em porta, a vender ouro dentro de uma mala. Juntou dinheiro e mandou construir uma casa grande para instalar a família e, no piso de baixo, abrir uma ourivesaria. Mais ou menos nessa altura, meteu-se no negócio da serrações e, na década de 1980, começou a dedicar-se à construção. Construiu dezenas de prédios em altura no centro da vila e, num deles, guardou três apartamentos: um para viver com a mulher, outro para Zita e um terceiro para Nuno, o filho mais novo. 

Os filhos estudaram fora – Zita formou-se em design de jóias e Nuno estudou informática –, mas depressa regressaram à vila. Heleno quis sempre manter a família junta e conseguiu. Também foi pela família que se fez à estrada, no ano passado, a pé até Fátima. Em Dezembro de 2013, Nuno foi diagnosticado com  esclerose múltipla e o pai fez uma promessa a Nossa Senhora. Os filhos e a mulher ficaram em pânico: aos 66 anos, nunca tinha dormido num saco-cama. Mas gostou tanto da experiência e do “ambiente” – Heleno era um homem divertido e que gostava de convívios – que este ano quis repetir. Ultimamente, andava a falar em se reformar. Deixar a ourivesaria e gozar a vida com Carminda, que ficou viúva depois de 43 anos de casamento. Não é irónico morrer numa peregrinação? Nuno, Zita e a mãe admitem que sim, mas garantem que a família continuará a ser religiosa.  “As grandes coisas da vida, como a morte, não se escolhem”, diz Carminda. 

Flávio Mendes, 18 anos Em breve, Flávio iria sobrevoar o Atlântico e conhecer, pela primeira vez, o país em que o pai cresceu. Jorge emigrou para o Brasil com pouco mais de um ano e regressou há 25. No Rio de Janeiro, deixou propriedades e imóveis arrendados e andava com ideias de levar Flávio e o irmão, Tiago, a conhecer o património que um dia haveriam de herdar. 

Flávio vivia, desde miúdo, para os escuteiros. Pelo meio, meteu-se na juventude do CDS-PP. Habitou-se a liderar e a organizar os eventos da escola – muitas vezes com o Diogo. No início do ano, estiveram juntos por detrás da organização do baile de finalistas da escola e da viagem a Espanha.

Este Verão teria de se candidatar à universidade. Faltavam poucos meses e Tiago conta que o irmão andava indeciso entre Gestão e Economia. No ano passado, fez-se à estrada até Fátima, com outros escuteiros e para dar apoio aos peregrinos, mas a viagem foi interrompida pela morte súbita da avó. Teve de voltar para trás e, desde esse dia, meteu na cabeça que havia de completar o caminho.

Paula Mendes, 40 anos Paula conheceu o marido na escola de condução onde Flávio andava a tirar a carta. Há mais de 20 anos, Paulo – que hoje é examinador de condução em Tábua – era instrutor em Mortágua. Apaixonaram-se entre pontos de embraiagem, inversões de marcha e sinais de trânsito. Ele ainda andou por fora a estudar, mas gostava dela e meteu na cabeça que haviam de casar. Ela era tudo. Bonita, trabalhadora, esforçada, poupada. Aos 12 já trabalhava, como operária numa fábrica de confecções e só muitos anos depois pôde tirar o curso, à noite e com sacrifício.

Agora estava tudo bem: era administrativa na câmara, tinha uma casa bonita na aldeia do Freixo e um filho com 14 anos. Há uma década, Paulo meteu-se no grupo pioneiro das peregrinações de Mortágua até Fátima. O marido incutiu-lhe o gosto pelas caminhadas e pela aventura e ainda fizeram o caminho juntos. Mas depois de o filho nascer, passaram a ter de ir à vez. Ano sim, ano não, para não deixarem o rapaz sozinho. Este era o ano de Paula e Paulo jura que, quando se despediu dela, sentiu que havia qualquer coisa de errado. Desvalorizou. Não havia razão para lhe pedir que voltasse para casa e não fosse com os outros peregrinos. A vivenda de sonho é agora demasiado grande para um homem só com um filho adolescente. E é só nisso que Paulo pensa: “Continuar a caminhar e conseguir proteger o meu filho”. Talvez ainda volte a Fátima a pé e, quem sabe, já no próximo ano: o grupo de peregrinos está a mobilizar-se para retomar a peregrinação – a partir do quilómetro 178,8, onde se deu o acidente. “Isto não abala a fé, as coisas acontecem porque têm de acontecer e de uma coisa eu tenho a certeza: a Paula morreu feliz porque estava a fazer uma coisa de gostava muito”. 

Aida Silva, 52 anos Aida vivia sozinha com os quatro cães não muito longe de Paula. Dividia o tempo entre a estufa onde trabalhava, a casa dos pais em Gândara e as lides domésticas. O marido emigrou há muito para a Zâmbia e a filha de 27 anos formou-se, entrou na Força Aérea e agora vive em Lisboa.

A distância não era uma novidade na vida de Aida. Os pais  emigraram para França e não a puderam levar. Cresceu com os avós maternos e, nas férias do Verão, viajava até Paris. A mãe, Ilda, trabalhava numa fábrica de bolos e vivia atormentada por ter deixado a filha para trás. Vital, o pai, era carpinteiro, mas teve de deixar de trabalhar: no início da década de 1990 apareceu-lhe uma doença de ossos incurável, que lhe tolheu os movimentos. Por essa altura, os senhorios, um casal de franceses, despejaram-nos para vender a casa. Ilda e Vital regressaram a Portugal, para junto da filha. Voltaram para a Gândara. Mas Aida, que trabalhava numa estufa, mudou-se para o Freixo para ir viver a vida de casada.

Diogo Ferreira, 17 anos A vivenda dos pais de Diogo, construída com dinheiro trazido da Suíça, fica a poucos metros da casa dos pais de Aida. Paulo e Ana Cristina conheceram-se em Zurique,  casaram e depois de os dois filhos nascerem voltaram para Portugal.  

Primeiro estabeleceram-se em Tourigo (Tondela), a terra de Paulo. Abriram um café, mas Cristina não tinha feitio para aquilo. Compraram então o terreno na Gândara e construíram a vivenda. Paulo empregou-se numa farmacêutica e Cristina dedicou-se ao casarão e à educação dos filhos. Ainda miúdo, Diogo quis entrar para os escuteiros. Foi lobito e nunca mais largou o grupo. A casa, rodeada por um grande jardim, servia de palco para festas com os amigos da escola e dos escuteiros. As festas de início de Verão do “Fairy” – era assim que Diogo era conhecido em Mortágua –  eram o evento do ano. E a mãe, Cristina, fazia bolos para todos os amigos.  

Este ano, os pais andaram com o coração nas mãos por causa da viagem de finalistas. Felizmente, correu tudo bem e, assim que voltou a Portugal, Diogo concentrou-se na ida a Fátima – a caminhada, exigente, era um treino para as provas da Academia Militar. Juntou todo o dinheiro que era preciso e recusou a ajuda dos pais. Diogo sonhava ser oficial e tudo prometia dar certo. No funeral, a professora de Físico-Química aproximou-se da mãe e deu-lhe a novidade. Afinal, o Diogo tinha tido “boa nota” no teste. 

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