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Palácio de Mafra. A arte contemporânea está a passar por aqui
A exposição “Identidade e Circunstância” é inaugurada hoje

Palácio de Mafra. A arte contemporânea está a passar por aqui

A exposição “Identidade e Circunstância” é inaugurada hoje Manuel Vicente Ana Tomás 09/05/2015 11:11

Escultura, fotografia e instalação para ver até ao dia 28 de Junho.

Uma visão da história da arte moderna, em 12 peças, obras em grande escala, e fotografias com 14 pessoas com diferentes origens, fisionomias e idades, que poderiam traduzir o que seria uma monarquia pós-moderna. Estas são as propostas que os artistas Joao Vilhena, Natércia Caneira e João Bacelar, apresentam na exposição “Identidade e Circunstância” que inaugura hoje, pelas 16h00, no Palácio Nacional de Mafra. A mostra percorre de forma multidisciplinar leituras, relações e sinergias entre as artes visuais e o público, ao mesmo tempo que propõe uma reflexão sobre a arte contemporânea, através da escultura, instalação e fotografia, num contexto específico, como é o de um palácio. A adaptação dos artistas às circunstâncias do local acabou por ditar algumas escolhas, mesmo quando os conceitos são experimentados nos percursos de cada artista. 

Joao Vilhena, por exemplo, assume que houve um risco calculado na selecção de 12 peças que levou para aquele espaço histórico. “Nunca pensei que ao fazer este trabalho tivesse tantos vícios e manias em relação às soluções que iria encontrar”. Soluções onde matemática e o minimalismo assumiram a direcção das obras feitas com recurso ao mesmo material, garantindo assim uma continuidade, numa série que é uma “timeline”.O artista apresenta as peças por décadas, do início do século XX até aos dias de hoje,  brincando com as respectivas correntes nas artes plásticas mundiais. A escultura que dá início à série de Joao Vilhena é inspirada na Torre de Tatlin; é a que, técnica e formalmente, mais se destaca das seguintes. Do neoplasticismo à fase actual do seu trabalho, representada com três peças, passando pelo futurismo e por “brincadeiras” entre a escultura e a pintura - como a peça feita a partir de um extintor cromado - , o artista baseou-se na circulação das pessoas pelo palácio para falar da história do edifício e da arte contemporânea. A imponência e utilização do espaço pelo público foi, de resto, o maior desafio que encontrou. “Ou ia para uma coisa à escala ou para uma coisa pequena. Quis evitar as duas, ficando numa zona mais segura”, diz o artista, acrescentando que procurou, para isso, um registo simples e eficiente que realçasse o contraste entre o clássico e  monumental e o contemporâneo,  ao mesmo tempo que proporcionasse “algum conforto visual e reconhecimento” ao visitante. À dimensão do espaço e da constante circulação de público, juntou-se o controlo da iluminação, que passou, sobretudo, por tirar proveito da luz natural, para criar jogos de cores e reflexos nas peças em exposição, e de que são exemplo a estrutura que coloca um pequeno buda de frente para uma pequena capela ou a peça que ilustra uma carteira de fósforos, colocada sob a luz de uma janela. No fundo, tratou-se aqui de “ouvir o espaço, mas não demasiado senão ele esmaga”, refere. 

Natércia Caneira também tirou partido do que o palácio lhe tinha para oferecer, mas, ao contrário de Joao Vilhena, foram mesmo as grandes dimensões  que quis aproveitar para dar largas ao tamanho das suas instalações. “Foi uma boa oportunidade de trabalhar em grande escala”, explica, apresentando aos jornalistas a instalação com 30 metros de comprimento por quatro de largura, ou, se quiser, 12 quilómetros de fio de vidro, já que a obra se chama “12 000 Meters Systemic Walking”, que atravessa a Capela do Campo Santo, pendendo do tecto como uma espécie de dossel. A peça levou dois meses a fazer e uma caminhada sistemática, já que  transportou ela própria os fios de um lado para o outro. No seu processo criativo, o corpo não é apenas referência é parte da construção. E foi o seu próprio corpo que utilizou como molde de impressão a folha de ouro, e em várias posições, para os desenhos-pinturas que fez, no seu ateliê, para as camas da Enfermaria. “Senti que este espaço  tinha uma carga muito diferente e vi logo que tinha de intervir aqui”. Já a esfera de grande escala, feita de fibra de vidro para o Torreão da Rainha, foi montada na própria sala.

No caso de João Bacelar foi o próprio palácio que serviu de ateliê ao seu trabalho. O artista usou 14 modelos para as suas fotografias, entre aqueles que o fazem como profissão, actores e “civis”, como gosta de referir”. A ideia foi que os fotografados visitassem eles próprios vários pontos diferentes do espaço, registando as suas reacções com o que observavam e as suas interacções com o espaço, umas vezes surgindo entre peças de arte sacra, como se de uma pintura se tratasse, noutras pousando ao jeito da realeza. “Queria ter pessoas com ares diferentes, uma espécie de família real pós-moderna”, afirma. Com impressões em papel mate e molduras desenhadas pelo próprio artista, as fotografias dividem-se em duas grandes áreas de exposição: uma parte na sala de caça e outras e a outra no início do percurso do visitante. “Faria todo o sentido tirar partido do palácio nas fotografias”, sublinha João Bacelar. A frase acaba por resumir, de certa forma, o conceito por detrás destas três exposições individuais unidas pelo mesmo mote: espalhar a arte contemporânea por todo o monumento, convertendo-o numa imensa galeria, como acontecia nos tempos da monarquia. 


A exposição está patente até dia 28 de Junho, no horário habitual do Palácio (09h -18h), e não tem qualquer custo adicional ao do bilhete para entrar no Palácio, cujo valor máximo é de 6,00€

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