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“Monk With a Camera”. As sandálias do fotógrafo
Nicholas Vreeland é o da direita. Mas à esquerda também está um monge com uma câmara

“Monk With a Camera”. As sandálias do fotógrafo

Nicholas Vreeland é o da direita. Mas à esquerda também está um monge com uma câmara Saskia de Rothschild Tiago Pereira 08/05/2015 12:17

Nicholas Vreeland era um dândi, depois fez-se monge budista. Este documentário mostra o fotógrafo entre os dois.

É um filme para curiosos, mas saber mais sobre os outros nem sempre é pecado, é tudo uma questão de critério. Senão, vejamos: Nicholas Vreeland era um boémio de sucesso, um dândi que fazia de Nova Iorque um clube privado (mas, ao mesmo tempo, sempre aberto). E depois fez-se monge budista.Entre uma e a outra realidade esteve sempre uma câmara fotográfica. O título “Monk With a Camera” explica muito do que se passa neste filme, mas está longe de contar a história toda, que não é inédita mas é, ainda assim, surpreendente.

Para explicarmos o porquê de tudo isto, o melhor mesmo é recordarmos o percurso dos protagonistas. E, aqui, a história gira em torno de um único herói: Nicky, aquele que será para sempre o neto de Diana Vreeland, nem mesmo num templo budista, na Índia, consegue escapar à herança mediática. Diana, também ela uma lady, foi colunista da “Harper’s Bazar” (entre 1936 e 1962) e directora da “Vogue” (de 1963 a 1971). Tornou-se uma das mulheres com mais estilo e mais influentes na moda dos anos 50 e 60. Descobriu Lauren Bacall, aconselhou Jackie Kennedy e mostrou Edie Sedgwick ao mundo, antes de Andy Warhol a transformar numa das suas estrelas.

Muito bem. ENicky, no meio disto tudo? Nicky era o bon vivant apaixonado por fotografia que chegou a ser aluno de Irving Penn e Richard Avedon (a avó deu aqui uma ajuda). Os pais eram viajantes profissionais, mais ou menos isso. Nicholas acompanhava-os. Nasceu na Suíça, viveu na Alemanha e na Rússia e acabou por se mudar para os EUA tinha 15 anos. Pouco depois, encarava os anos 60 de frente, tornava-os coisa sua: estava nos eventos que interessavam, com as companhias certas, impecavelmente vestido e sempre a tirar fotografias. De moda, de gente gira, dele próprio ou das suas coisas.

No documentário da dupla Guido Santi e Tina Mascara (os mesmos que fizeram “Chris and Don: A Love Story”, sobre a relação entre Christopher Isherwood e Don Bachardy), revemos tudo isto, mas também percebemos – através do próprio e graças às palavras de quem com ele conviveu noutros tempos – que o Nicky de então não estava satisfeito. Dizia ter tudo, mas assumia que lhe faltava outro tanto. Ao que parece, não era apenas observação romântica de um tipo que, naquele momento, estaria aborrecido e sem programa.

Foi mais ou menos por essa altura que Vreeland começou a estudar os fundamentos do budismo. Foi acompanhado por Khyongla Rato Rinpoche, professor daquele que é hoje o dalai lama. Daí até à mudança para um mosteiro na Índia foi uma questão de fé e de entrega. Não que a fotografia tenha desaparecido completamente da sua vida, mas as prioridades mudaram. Até que os problemas financeiros desse mesmo mosteiro o motivaram a regressar às imagens com novo alento. Transformou o dia-a-dia em fotografias que depois levou ao mundo de que se tinha afastado. Vendeu-as e juntou os meios necessários à transformação que o mosteiro reclamava.

“Monk With a Camera” acompanha tudo isto. E mais do que atirar-se à missão de evangelizar quem não é budista, a narrativa está centrada nas opções e nos dilemas de Nicholas Vreeland. Conhecemos-lhe as certezas, mas também ficamos nós certos de que nem tudo é branco ou preto, que nem o cosmopolita esquece nem o monge tem de ser um eremita para sempre.

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