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Jorge Pelicano. “Nem o melhor argumentista se lembraria dos diálogos que filmei”

Jorge Pelicano. “Nem o melhor argumentista se lembraria dos diálogos que filmei”

Tiago Pereira 07/05/2015 08:00

O novo documentário do realizador português estreia esta quinta-feira.

Em 2006 mostrou-nos Hermínio, de Folgosinho, o herói da serra da Estrela que é protagonista de “Ainda Há Pastores”, epopeia em busca de uma espécie rara. Quatro anos depois levou-nos à Linha doTua, para que percebêssemos porque desapareceu e o que essa ausência deixou em quem lá vive. Jorge Pelicano faz documentários para se meter na vida dos outros e mostrá-la a quem a queira conhecer. Hoje chega às salas o novo resultado deste método documental. “Pára-me de Repente o Pensamento” é uma viagem ao interior de um hospital psiquiátrico. O que já sabíamos é facilmente ultrapassado pelas descobertas. O realizador ajuda-nos a perceber porquê.

Como surge este filme?
O que me atrai nos temas é o desconhecido e os hospitais psiquiátricos são locais desconhecidos. Como realizador, a ideia é ir à descoberta desses sítios, retratá--los, documentá-los. É, sem dúvida, uma oportunidade única. Ao longo das décadas, estes hospitais têm estado fechados ao exterior. Provavelmente é essa uma das razões pelas quais há um grande estigma face a estas instituições. O objectivo não era alterar isso, mas fazer uma espécie de update desta realidade, tocar algumas verdades sobre o que se passa nestas instituições. E há sempre um lado pessoal, de memória.

Relacionada com estes locais?
Não é bem isso. Sou da Figueira da Foz e, desde pequeno, os meus pais diziam-me: “Se não te portas bem, vais para o hospital dos malucos”, que por lá era o Sobral Cid, em Coimbra. Em Lisboa falavam no Júlio de Matos, no Porto era o Conde Ferreira, e por aí fora. Ao longo da minha adolescência, sempre tive curiosidade em perceber o que se passava ali. Acabámos por ir para o Porto através do Manuel Andrade, que escreveu um livro sobre o Conde Ferreira. Conseguimos que a Santa Casa abrisse as portas para que pudéssemos fazer o filme. 

Porque há reservas em mostrar o que se passa nestes sítios.
Muitas, mas a primeira censura foi minha. Tinha para comigo próprio a regra de não desrespeitar ninguém.Estávamos a lidar com pessoas que têm doenças mentais e que, por vezes, não têm noção daquilo que estamos a fazer nem de algumas reacções próprias. E não posso contar tudo, não tenho de mostrar tudo que se passa. Este documentário toca em algumas verdades daquela realidade, não é a verdade pura e dura, porque há coisas que o cinema não consegue nem pode contar em tão pouco tempo.

Em muitas situações parece que estamos em situações encenadas, dada a alienação face às câmaras, quase sempre.
Algumas pessoas já me perguntaram se este era um filme de ficção, se as personagens do filme tinham um argumento, se escrevemos um texto. É óbvio que isso não aconteceu. O que aconteceu foi um trabalho intensivo sem câmara, quatro semanas em que estivemos dentro do hospital, de alguma maneira, a tentar ganhar confiança com as pessoas, para percebermos quais seriam as personagens que poderiam servir a narrativa. De certa maneira, habituaram-se à nossa presença e isso facilitou o trabalho.Mas esta é a grande vantagem do cinema documental: nós temos algum tempo para fazer com que as pessoas pareçam naturais. E era isso que queria fazer e consegui. Até tive alguns dos utentes quase a ajudar-me.

Como assim?
Por exemplo, quando alguém olhava para a câmara, não era eu que tinha de dizer para não o fazer. Entre eles, havia essa noção e alertavam-se uns aos outros.

Ao todo passou quanto tempo no hospital?
Cerca de oito semanas no total. Na segunda metade já estava connosco o actor Miguel Borges, que estava a fazer uma pesquisa para uma peça de teatro trabalhando com o grupo teatral do próprio hospital. Ele dormiu várias noites no hospital, eu nunca o fiz. Não por medo ou algum outro problema, mas porque senti a necessidade de sair diariamente, de respirar um pouco. O manancial de histórias era tanto que corria o risco de me dispersar do meu objectivo. Por onde andássemos, acontecia alguma coisa, vidas para contar. Ao contrário do Miguel, que procurava estar imerso naquele ambiente. Resumindo: em horas devo ter filmado umas 250.

Fica-se assombrado depois de fazer um trabalho destes?
Tive uma grande surpresa quando cheguei ao hospital. Normalmente temos medo do desconhecido e é claro que tinha receio. Nos corredores pensava, por vezes, se alguém seria violento. Mas a partir do momento em que comecei a falar com as pessoas, a estabelecer diálogos, em que deixei de apenas ver as pessoas, comecei a perder esse receio. Não é que tenha passado a encarar essas pessoas como normais, que não são, mas como pessoas especiais com capacidade de ter uma conversa. E nem o melhor argumentista se lembraria dos diálogos que filmei. A dureza, assim, acaba por ser a rotina.

Os cinco cigarros por dia, a hora certa do café, as terapias marcadas...
Sim. E não tivemos o tempo suficiente para sentir ainda mais isso. Porque é sempre a mesma coisa, é o que pesa. Claro que não podemos ser hipócritas e não sentimos tanto essa rotina porque temos trabalho para fazer, constantemente estava a acontecer algo. Com o Miguel Borges, que viveu lá, já foi completamente diferente. Ficou-me mais o que encontrei lá de bom.

As pessoas, naturalmente.
Mais do que isso. O amor entre as pessoas. E não estou a romantizar nada. Há um cenário e um contexto muito duro. Ofilme é muito chuvoso. Mas no meio disso tudo há uns quantos raios de sol que são representativos desse amor. Dos funcionários, dos auxiliares para com os utentes. É uma grande família, há pessoas que estão ali juntas há muito tempo, quase desde a nascença. Claro que há coisas que não são tão boas, mas ficaram-me mais as outras.

Logo no início vemos o familiar de um doente que está a dar a entrada no hospital. Com as famílias, não foi complicado?
Nesse caso, essa pessoa estava desconfiada.E só autorizou aparecer depois de ver o resultado final, o que é compreensível.Ao ver o filme, concordou. Porque, por vezes, há famílias que são recriminadas, acusadas de deixarem os seus mais próximos naqueles locais, mas há um outro lado importante que quisemos mostrar: para muitas famílias, é extremamente difícil lidar com uma pessoa com uma doença mental se essa família não tiver estrutura, não tiver capacidade de constantemente estar a dar-lhe os medicamentos e as terapias necessárias. Há uma disciplina que não é fácil ter em casa. Por vezes, não há outra alternativa. 

E tudo isto foi acontecendo à medida que os dias passavam? Sem plano nem método?
Trabalhei muitos anos em televisão. Estava habituado a fazer o tradicional plano de entrevista e, a partir daí, estava encontrado o fio condutor do filme. No cinema documental, optei por não ir por esse método de sentar as pessoas e deixá-las falar. O que me interessa é tentar filmar a vida mais ou menos como é na realidade, sem formalismos. E cada vez mais procuro dispositivos para contar a história.Aqui, por exemplo, provocámos a realidade ao introduzir um actor no meio do cenário, o MiguelBorges. Percebi que precisava desse dispositivo porque nas primeiras semanas de pesquisa sentimos que não falavam muito deles próprios. Era preciso provocá-los para falarem da doença. O elemento estranho motiva isso. Isto para explicar que não há um método fechado. Primeiro viver a experiência, depois documentá-la, transformá-la em filme.

E esses documentários, como são depois recebidos em sala, como é que reage o público?
A nível de festivais, estamos muito melhor do que há uns dez anos, por exemplo. O DocLisboa é um grande exemplo disso e há muita gente interessada em ver documentários no cinema. O que é preciso é que surjam mais filmes. Só vamos estar em duas salas, mas é preciso é mostrar. Porque a experiência de sala é completamente diferente. Sobretudo quando falamos de um tipo de cinema que ajuda a perceber as nossas próprias histórias e realidades. 

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