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Semana i. Monárquicos. Nem só de brasões se fazem estas famílias
Tomás Caldeira Cabral

Semana i. Monárquicos. Nem só de brasões se fazem estas famílias

Tomás Caldeira Cabral José Fernandes Isabel Tavares 05/05/2015 10:00

Hoje, as famílias monárquicas já não têm todas sobrenomes sonantes. E as que têm apelidos conhecidos já não são necessariamente abastadas.

Ricos e pobres, católicos e ateus, da esquerda à direita, há um pouco de tudo. A monarquia também se modernizou.

Ficou célebre a história do homem de negócios que, orgulhoso, ia mostrando às visitas os quadros onde figuravam os seus antepassados, entre duques, condes e viscondessas: “E aqui está o meu avô, marquês de…” E, antes de ter tempo de terminar, responde-lhe o outro: “Conheço muito bem. Sabe, por mais um lance, o avô não era seu, era meu.”
Hoje, o sobrenome continua a ter peso – um peso que pode até ter uma conotação negativa, dependendo da história que lhe está associada – e ainda existem círculos fechados, elitistas, mas também já se encontram muitas famílias monárquicas sem tradição, como os Pombo, os Teixeira ou os Silva. Da mesma forma que muitos nomes ligados à nobreza deixaram de se identificar com a monarquia.

Tomás Caldeira Cabral é monárquico. E reúne as duas coisas: nome e convicção política. “No meu caso é, além de uma escolha, consciente e militante, uma tradição que vem do meu pai e do meu avô, monárquicos militantes, mas para quem a liberdade de escolha e opinião foi sempre a linha dominante”, conta.

A prova está em que existem todas as opções políticas nesta família de quatro irmãos, três cunhados, sete sobrinhos, 12 tios direitos e respectivos consortes e 33 primos direitos. “Quase uma tribo, para os dias que correm”, brinca.
Entre os primos está Manuel Caldeira Cabral, um dos 12 economistas que António Costa convocou para preparar o documento “Uma Década para Portugal”, o relatório onde estão contidas as propostas orçamentais do Partido Socialista para os próximos anos.

Professor na Universidade do Minho, Manuel Caldeira Cabral é um socialista assumido e não tem qualquer convicção monárquica (e é, além disso, primo direito de Isabel de Herédia, casada com o duque de Bragança). Afinal, se alguma coisa não é hereditária, é o pensamento.

A tradição, claro, pode ajudar. O primo Tomás, consultor e formador na área dos vinhos, tem três filhos. “Procuro educá--los com liberdade e respeito pelos valores essenciais e igualmente pelo amor ao nosso país, que é parte integrante da nossa própria identidade.” “Ser monárquico, hoje e em Portugal, é uma atitude ética e estética que tem o seu suporte na tradição acumulada desde tempos imemoriais, uma relação personalizada com a história e a materialização da pátria no seu melhor sentido de continuidade e genuinidade – conceitos plenamente representados pelo senhor D. Duarte Pio, duque de Bragança”, considera.

Mas como é, afinal, ser monárquico num tempo sem rei nem roque? Para Tomás Caldeira Cabral, é ter “consciência de que tem de se deixar um legado e criar uma alternativa”. E, na sua opinião, “o senhor D. Duarte dá o exemplo, ao estar disponível para apoiar, dentro das suas possibilidades, as causas que são imanentes ao país, independentes de políticas partidárias ou até de regimes, como o apoio às políticas do ambiente, património, imigrantes e emigrantes, a diáspora, a língua e a cultura portuguesa no mundo, a acção social e a sociedade civil nas suas múltiplas vertentes, desde as caixas de crédito aos bombeiros, passando pelo Refood ou as Misericórdias. E defendendo desinteressadamente causas justas e históricas, como Timor, Cabinda, Olivença e outras que, por estarem acima dos interesses do momento, precisam de uma voz livre, característica do rei”.

Isto não são contos de fadas. Tomás acredita e pratica cada palavra. E por isso defende “um regime que dê espaço e representação real às pessoas, às suas comunidades e regiões, que promova os valores e que seja mais do que uma comissão de gestão, um projecto que dê sentido ao nosso futuro”.

Para Tomás Caldeira Cabral, todos estes objectivos podiam materializar-se numa república, “mas a verdade é que estes exemplos, não apenas na história passada mas na actualidade, aparecem-nos com muito maior frequência e credibilidade nas monarquias”, afirma.

Conciliar convicções e realidade é uma tarefa “difícil de encaixar nas correntes actuais”, concorda. “Nem os políticos sabem bem a que tribos pertencer, quanto mais um simples cidadão. A ter de ter rótulo, procuro seguir a doutrina social da Igreja e contribuir para uma sociedade que promova a justiça, a beleza e a verdade.”

Por isso quisemos saber: vota? “Voto. Menos para a Presidência da República, por motivos óbvios. Procuro mais pessoas do que partidos, em que me revejo cada vez menos. Apesar disso, tenho votado, essencialmente no centro-direita.”

Milhares de famílias mantêm o vínculo emocional e de militância com a causa monárquica, e D. Duarte de Bragança e a sua família são recebidos de norte a sul do país e nas múltiplas comunidades lusófonas, desde os EUA ao Brasil, passando por África ou Timor.

Actualmente, os movimentos monárquicos vão muito além do Partido Popular Monárquico, constituído a 23 de Maio de 1974. Alguns bem recentes, como a APAM – Associação dos Autarcas Monárquicos, presidida por Manuel Beninger e que, com menos de um ano, já conta com cerca de 400 presidentes e ex-presidentes de câmara pertencentes a todos os partidos políticos.

Porque, como diz Tomás Caldeira Cabral, “a monarquia é essencialmente orgânica. Se parasse no tempo, deixava de nos pertencer e passava a ser apenas história. Mudou e adaptou-se”.

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