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Frederico Marques. “Para se ser realmente bom é preciso amar o que se faz. E eu amo o ténis”

Frederico Marques. “Para se ser realmente bom é preciso amar o que se faz. E eu amo o ténis”

Rodrigo Cabrita Rui Pedro Silva 29/04/2015 08:00

Percebeu que não tinha margem para evoluir aos 21 anos e decidiu ser treinador. Está a trabalhar com João Sousa desde 2011

o Marques tem 28 anos e é uma das chaves do êxito de JoãoSousa. Em tempos liderou o ranking nacional nos escalões de formação e foi para Barcelona com 18 anos à procura de dar o salto. Três anos depois percebeu que o talento não estava lá e não quis continuar a exigir tanto esforço financeiro aos pais. Tornou-se treinador, aproveitou todas as oportunidades que teve para aprender e está com o vimaranense desde 2011. A vida é centrada no sucesso do tenista com quem chegou a dividir casa e em 2013 percebeu que estava “uma bolinha”, com 95 quilos. Foi aí que decidiu que queria fazer provas de ironman ao ver uma competição na televisão. Hoje corre dezenas de quilómetros por mês e aproveita esse retiro para analisar os jogos do pupilo. A ambição é o caminho para o futuro: se um vai fazer uma prova de ultraman em Agosto (10 quilómetros de natação, 421 de bicicleta e 84,4 de corrida em três dias), o outro tem de continuar a evoluir. Tem sido sempre assim, desde o início.

Como é que apareceu o ténis?
O meu pai é um amante do ténis e começou tarde, com 35 ou 36 anos. Inicialmente meteu o meu irmão mais velho (nove anos mais velho) e eu como pequenino, com cinco anos, comecei a ir vê-lo jogar. É o que me contam, não me lembro.
O Estoril Open começou por essa altura. Tens memórias fortes da prova?
Sim. Um bocadinho já mais tarde, com dez ou 12 anos. Lembro-me de estar feito maluco a querer uma bola, um punho ou uma raquete. Lembro-me bem que houve um Estoril Open com o Marcelo Rios. Andei a semana inteira a pensar como é que lhe podia pedir uma raquete. Era impossível falar com ele mas via os jogos e imaginava-o a dar-me a raquete e a levá-la para casa.

Como é que o ténis e os jogadores que vias te moldaram?
Sinceramente nunca tive nenhum ídolo ou exemplo, nem no ténis nem no futebol. O que tenho é curiosidade, gostava de conhecer o Mourinho mas pela faceta de treinador. Pelo interesse em saber como é que uma pessoa consegue lidar com aqueles egos todos no balneário e dominá-los para fazer uma equipa tão completa e competitiva.

“Andei a semana inteira a pensar como é que lhe [Marcelo Rios] podia pedir uma raquete”

 

Quando é que começaste a jogar ténis mais a sério?
Aos 12 dei outro passo. Comecei a treinar com o meu irmão, o meu primeiro treinador mais a sério, e fazíamos todos os dias uma horinha ou duas depois da escola. Ele chegou a competir e quando foi para a universidade começou a dar aulas. Foi nessa altura que me pus a pensar em competir e os meus pais a ver que tinha talento e a apostar mais um bocado.

Era talento ou determinação?
Foi natural. Eu ainda era muito jovem. Com 12 ou 14 anos, a criança pode dizer se gosta ou não mas são os pais que decidem. Foram eles que me levaram nesse sentido depois de verem que estava a conseguir alguns resultados e que isso me deixava feliz. Mas nunca os pus entre a espada e a parede a dizer que queria competir e que queria deixar a escola, foi um processo natural até aos 18 anos. E aí apareceu a opção de ir para Espanha. Sentia que Portugal não tinha as condições necessárias – pensava eu na altura que era assim, se soubesse o que sei hoje já não pensava dessa maneira [risos].

Foi o único desporto que fizeste?
Sim. Quando era pequenino nadei… quer dizer, fui 15 dias porque não gostava de nadar. A minha mãe pagou um mês mas eu não queria ir, tinha pânico. E futebol só com os amigos, aos fins-de-semana. O português é futebol, acho. Quando joga futebol é uma alegria. Eu sentia isso e continuo a sentir. Jogar é uma sensação espectacular mas nunca estive num clube.

Ires para Espanha fez de ti o que és.
Foi muito importante. O chamado problema não estava nos treinadores em Portugal ou na mentalidade, estava em mim. Sou uma pessoa superdirecta e tenho a humildade suficiente para perceber que o problema era meu. Não tinha a capacidade, e se calhar o talento necessário, para chegar aos cem melhores do mundo, e aí pensei que Espanha pudesse ajudar. Não ajudou nisso, mas ajudou-me noutro sentido. Foi como se fosse para Oxford ou para Georgetown. Aquilo é o top mundial para o ténis, para jogadores e técnicos.

“Quando era pequenino nadei. A minha mãe pagou um mês mas eu não queria ir, tinha pânico”

Estiveste uma semana no top 1000. É uma feito para contar mais tarde?
Não. Para mim é muito mais importante estar há dez anos em Espanha e ter trabalhado com jogadores que estiveram nos primeiros lugares do ranking. Gostava de ter sido melhor, mas durmo tranquilo por sentir que dei o meu melhor. Sei que podia ter feito melhor pela própria mentalidade, porque me foi incutido que o meu maior objectivo era ser campeão nacional. E a partir daí tinha o objectivo alcançado. Mas o ténis é mais para além de Badajoz. Havia pessoas a trabalhar melhor e com outra intensidade. E isso atrasou imenso a minha evolução.

Ser treinador aos 21 anos foi racional ou irracional, no sentido de quereres continuar no ténis de qualquer forma?
O ténis era a minha paixão. E é. Eu respiro ténis. Acho que em Portugal as pessoas pensam muito só em ser jogador ou então ir estudar para ser médico. E em Espanha não é assim, há grandes treinadores a receber muito bem, com uma grande vida e com grandes objectivos. E foi isso que Espanha me ensinou, que podia continuar. Mas também pensei em todo o dinheiro investido pelos meus pais. Podia perfeitamente ter ido estudar – estava matriculado na Universidade Nova de Lisboa, em Ciências da Comunicação – mas queria dar continuidade, já que fizeram esse esforço económico. Sempre tive a ideia de que para se ser realmente bom é preciso amar o que se faz. E o que eu amo é o ténis.

Andavas a ganhar 118 dólares em futures. E começaste com 375 euros na academia… quase compensava…
[Risos] Sim. Os meus pais ajudaram-me imenso nessa altura. Fui para Espanha porque sabia que ia ser outra experiência, outra intensidade, mas também outra exigência para mim. Os gastos multiplicavam-se, sentia que os meus pais estavam a fazer um esforço enorme e sentia--me mal. Já não conseguia render ao mesmo nível porque sentia uma pressão imensa. Já não conseguia comer, vomitava antes dos jogos. Decidi parar e tentar viver um bocadinho. Queria continuar em Espanha, porque era ali que estavam os grandes treinadores, que estava a mentalidade correcta para fazer as coisas, e fui à procura de uma solução. Falei com a academia e disseram-me logo que sim, que me podiam arranjar algum trabalhinho, algumas horas, nada sério, mas que servisse para começar. E eu aceitei, nem sabia quanto é que ia ganhar, disseram-me que podia rondar os 200, 300, 400 euros máximo, dependendo de onde me metessem.

E começaste com crianças?
Sim… mas era uma mistura, era ali uma salada. Era o primeiro a chegar, chegava às oito da manhã, e tentava ser o último a sair. Qualquer buraquinho que me conseguissem arranjar eu aproveitava. Algum treinador que fosse à casa de banho, que estivesse doente, que quisesse ir ao bar tomar um café, eu estava ali para substituir dez minutos. Queria era ter oportunidade de mostrar trabalho.

E como foi?
Ao princípio foi um desafio para mim, querer aprender e estar com um miúdo de cinco anos e passadas duas horas estar com uma senhora de 60. Andei um bocadinho perdido mas fui-me habituando e acho que deu uma experiência brutal. Hoje em dia trabalho com o João mas não me quis desligar do mundo da academia, porque é algo que me fascina, ensinar crianças. O feedback é instantâneo num miúdo de oito anos. “Gosto”, “não gosto”… adoro ver a cara das crianças quando lhes estou a ensinar uma coisa e eles realmente vêem que aquilo deu certo. Isso fascina-me.

Até chegares ao João passaste por várias aventuras. Qual foi a maior?
As histórias são únicas e nunca me hei--de esquecer. A viagem de comboio [tenista Vladislav Dubinsky gastou o dinheiro da deslocação no casino e fizeram uma viagem entre o Cazaquistão e a Rússia numa longa ligação ferroviária] foi complicada porque também estava doente. Mas saiu-me e tinha de o fazer, ele tinha de aprender que a vida não é isso, que não é gastar o dinheiro todo no póquer. Que não era dele mas do pai. Tentei acordá-lo para a vida porque não devia estar ali a gastar o cartãozinho do pai e a viver do dinheiro do papá e da mamã. E não podia ser. Agarrei ali a oportunidade e disse que íamos sofrer os dois. Ele chorou na viagem mas não aprendeu, continuou igual.

E como é que chega o João Sousa?
Já conhecia o João de alguns torneios aqui em Portugal. Jogava bem, era magrinho, batia bem na bola, mas conhecer, conhecer foi só em Barcelona. Chegámos a viver um ano juntos mas depois ele era muito novo e era complicado, era mais fácil ir viver com uma família. E sempre houve aquele carinho, éramos dois portugueses na academia. Ele era mais jovem e eu tentava aconselhá-lo um bocadinho…

Aí já eras um bocado treinador…
Não era treinador mas tentava ajudá-lo. Era mais jovem mas já via que podia jogar bom ténis. Tinha uma boa mentalidade e estava ali para jogar. Gostava disso nele. Depois a amizade começou a crescer… e começámos a falar da possibilidade de fazermos torneios juntos. Da primeira vez conseguiu uns quartos-de-final e uma final, mas ficou por ali, a academia preferia que tivesse um contrato com um jogador. Mas ficou sempre a noção de que poderia haver espaço para fazer mais. Quando o contrato seguinte acabou, comecei a trabalhar com ele.

E está a correr bem...
Sim. É claro que pode correr sempre melhor. Para mim hoje é muito parecido com o primeiro dia. Somos muito ambiciosos e quero é que ele seja melhor do que ontem e pior do que amanhã. Acho que não há limites. Mesmo na minha vida procuro sempre outros limites e é isso que estou a fazer agora com o ultraman. Ele esteve no lugar 35 mas eu digo-lhe que 35 é pouco.

E quais são as tuas prioridades agora?
Fazer com que ele se concentre só no ténis. Quero que consiga evoluir tacticamente porque quando o faz é quando tem os melhores resultados. Tem de estar estável e controlar o aspecto emocional. Mas o trabalho, a meu ver, está a ser fantástico nos dois. E não é só o ranking, acho que estamos a ajudar o ténis português. Há crianças que olham para o João e começam a acreditar que podem fazer mais. Nós não tivemos isso quando éramos jogadores. Em Espanha existe isso: há miúdos de sete e oito anos que dizem que têm a direita como a do Rafa.  Na altura íamos jogar contra um holandês ou um espanhol e achávamos que íamos perder, só mesmo pela nacionalidade. E o João está a mudar isso: temos feedbacks de miúdos a dizerem que também vão ganhar.

“Se estivesse a dar um karaoke qualquer, ainda andava aqui a cantar tipo Tony Carreira”

Trocas ideias com outros técnicos?
Sim, costumo. E tenho de o fazer. Tenho de aproveitar esta oportunidade que o João me está a dar, que é o que está a acontecer. É devido ao meu trabalho mas é ele que me deixa estar no circuito. Tento falar com o treinador do Nadal, do Djokovic, do Raonic… Tentar perceber o porquê de certos exercícios, porque fazem aquela recuperação, porque está a tomar aquela bebida. Tenho uma boa relação com o preparador físico do Nadal e procuro saber certos aspectos do que está a comer, do que lhe dá. O que trabalham em cada fase. Isso é uma aprendizagem fantástica.

Faz-nos uma visita guiada às indicações que dás em  jogo.
[Risos] Não se pode dar indicações, é proibido. É óbvio que digo alguma coisa e já levámos multas de mil e tal euros, mas é completamente proibido.

Mas por exemplo inclinares-te para a frente é um sinal para ele jogar com mais agressividade…
Sim, não, sim, não. Depende da semana, depende de várias coisas [risos].

Sentes-te um treinador de basebol?
Não, não. A mentalidade espanhola é falar. Eu não sou espanhol mas há aquela parte que se enraíza Os latinos falam mais, gritam, reagem. Nós somos assim, o João também é assim. Há uma ou outra palavra, um ou outro gesto que querem dizer alguma coisa. “Escova” quer dizer um kick para a esquerda, escovar a bola. Para ser sincero, tento posicionar-me um pouco mais longe do árbitro, mais longe das câmaras, tento dizer alguma coisa quando a malta está a aplaudir. Os truques passam um pouco por aí, fingir que estou a falar para a pessoa que tenho ao lado. São coisas que o circuito nos ensina porque é importante que ele sinta que o treinador está envolvido no jogo.

Já imaginaste o que seria se naquele dia em Itália quando estavas a fazer zapping estivesse a dar outra coisa?
[Risos] Se estivesse a dar um karaoke qualquer, ainda andava aqui a cantar tipo Tony Carreira. Pois, não sei. Foi uma coisa que aconteceu [o ironman] e acho que me ajudou imenso. E também ao João. Há muitas coisas que aprendo, de sofrimento, da alimentação… há muitas coisas que posso aproveitar na competição. Torna-se mais fácil perceber o que é jogar cinco sets ou com um calor 40 graus.

Pesavas 95 quilos?
Sim, estava uma bolinha. Não tinha a noção. Estes torneios têm coisas boas e más. A minha prioridade era e é o João e muitas vezes tinha de comer o que ele comia e não tinha tempo para mim. Agora tiro tempo. Prefiro dormir menos porque é um objectivo que tenho. Agora começo a pensar que se tivesse aparecido outra coisa na televisão talvez fosse diferente. Mas acho que ele gosta que eu faça isto e também aproveito para desligar um pouco do ténis. Se bem que também aproveito para pensar no jogo e o que é que aconteceu, o que se pode mudar. Para fazer uma análise. Seja uma vitória seja uma derrota, vou correr 20 quilómetros e quando volto já pensei tudo e até o jantar vai ser diferente. Nunca pensei que pudesse fazer um ironman mas sou assim, uma pessoa de limites. Também quero que ele consiga ganhar ao Nadal, que consiga ganhar ao Federer…

Fazes muita observação de adversários?
Faço. Tenho uma análise feita de praticamente todos os jogadores do top 100 numa base de dados. E não foge muito dali. Guardo indicações de todos os jogadores com quem o João joga, porque nunca se sabe se não se voltam a defrontar. Escrevo a data e refiro o que correu bem, o que podia fazer melhor. Como o jogador nos deu dificuldades ou de que forma conseguimos ganhar. Amo o ténis e gosto sempre de ver jogos, sempre que posso dou uma olhadela e assinalo três ou quatro coisas.

Já conseguiste recuperar todo o investimento dos teus pais?
Não. Ainda faltam muitos anos para eu poder recuperar isso. E não é só dinheiro. Acho que nunca hei-de conseguir porque estou há praticamente dez anos a viver em Barcelona, dez anos longe do meu pai, longe da minha mãe, longe do meu irmão, e isso não tem preço. Posso ganhar muito dinheiro agora mas tenho necessidade de estar com eles. Não é só estar em hotéis muito bons, não é só carros bons, não é só poder comprar o que quiser. Tenho os pés muito assentes na terra e gostava de estar com eles, poder continuar a fazer o meu trabalho mas estar mais fins-de-semana com eles. Porque só vivemos uma vez e a família é o mais importante.

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