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Miriam Assor. Os judeus que marcaram a história de Portugal

Miriam Assor. Os judeus que marcaram a história de Portugal

03/02/2014 00:00

A herança judaica portuguesa estende-se por séculos. Na tentativa de resgatá-la, Miriam Assor recolhe a história de 14 judeus portugueses, cujo legado é até hoje vital. Carolina Pelicano Falcão descobriu, em conversa com a autora, personagens que a história não pode esquecer

 

Antes de Afonso Henriques fundar o reino de Portugal, os judeus já por cá andavam. É o que garantem as pesquisas históricas das últimas décadas. É também assim que Miriam Assor nos introduz à história de 14 ilustres judeus portugueses, que percorrem o tempo desde o século XV ao século XX, e que deram um contributo inestimável ao país, que abrange áreas que vão das ciências à cultura.

Aqui ficam alguns para esclarecer tudo: Garcia da Orta, no século XVI, e a sua investigação pioneira sobre Botânica, Farmacologia, Medicina tropical e Antropologia; Amato Lusitano, no mesmo século, "autor de uma inaudita obra sobre matéria clínica"; Alain Oulman, já contemporâneo, o compositor de alguns dos maiores sucessos de Amália Rodrigues, sobre o qual a diva do fado escrevia - "Antes de o Alain fazer já sabe como é que eu vou fazer" -; ou ainda os irmãos Samuel e Joel Sequerra, que, aquando da Segunda Grande Guerra, foram responsáveis por salvar um grande número de refugiados do nazismo. De todas as 14 personalidades sobre as quais este livro nos elucida, poucas foram as que escaparam ao anti-semitismo, ora da Inquisição, ora do nazismo ou da própria PIDE. Sobre esta fuga forçada escreve Miguel Esteves Cardoso, que prefacia o livro, que "a desgraça de Portugal e dos portugueses não teria acontecido se os judeus não tivessem sido expulsos ou pseudo-convertidos." Miriam Assor explica melhor: "No tempo da Inquisição, por exemplo, houve muitas pessoas que saíram, porque se tivessem ficado teriam sido pseudo-convertidas, passadas para cristãos novos. O que aconteceu é que quem teve a possibilidade de sair levou consigo o seu saber. E é provável que... É provável não, é certo que o saber que saiu, se tivesse ficado cá, Portugal estaria muito mais rico do que o que é hoje, cultural e cientificamente".

O livro "Judeus Ilustres de Portugal", pelo qual Miriam se aventurou por sugestão da editora Esfera dos Livros, levou cerca de dois anos de trabalho, entre leituras, investigações fora do país, encontros com historiadores assim como com algumas fontes vivas, entre elas o filho de Alain Oulmam ou o de Sam Levy. "Quando me propuseram fazer este livro pensei que não seria muito difícil arquitectá-lo, que ser-me-ia até fácil. Enganei-me totalmente. Mas este foi um dos livros mais gratificantes que escrevi.", conta a autora.

Miriam Assor nasceu no seio de uma família judaica ortodoxa, ao qual acresce ainda o facto de ser filha de Abraham Assor que foi, durante 50 anos, rabino da Comunidade Israelita de Lisboa. É fácil compreender as afinidades que Miriam sente com a diáspora do povo judeu. Mas foi aos 19 anos que uma visita aos campos de concentração nazis de Mauthausen, na Áustria, terá provocado um "clique", que ficou em jeito definitivo. Tão definitivo, que, de uma maneira ou e outra, quase trinta anos depois, a conduziu a este "Judeus Ilustres de Portugal". "Nessa visita, recordo-me que todo aquele horror físico me fez esgrimir aquela frase que se diz sempre: "o Holocausto nunca mais". Aquilo despertou qualquer coisa nova em mim. Se não fosse judia, aquele horror também existiria. Claro que há ali uma pertença. Não ignorando toda a outra gente que foi assassinada, há um número maior de judeus. Seis milhões, que hoje seriam muitos milhões. É como se a morte de uma pessoa fosse à carótida de outras pessoas que não nasceram. Foi a primeira vez que o horror entrou em mim. Senti que tinha que fazer alguma coisa."

Um momento catalisador que acabou por conduzir Miriam para outras paragens, bem longe do curso de Psicologia Aplicada que frequentava em Lisboa. Israel foi o destino, quando, em 1986, um ano depois da ida a Mauthausen, uma visita a este país do Médio Oriente, que se converteu numa estada de três anos.

A vida comunitária nos kibbutz - com trabalhos rotativos que vão desde cozinhar, cuidar do jardim, tomar conta de crianças ou apanhar fruta-, o trabalho de voluntária num lar de idosos e a aprendizagem de hebraico, ocupações que manteve durante estes anos, terão sido, então, a maneira encontrada por Miriam para combater esse horror que a conduziu até Israel. Quando lhe perguntámos se tudo isto ajudou a apaziguá-lo, Miriam explica: "Nestes sítios deparei-me com sobreviventes do Holocausto. Isso interferiu com aquele quadro da grande impotência que sentia, de que as pessoas estavam mortas. Comecei a ver que havia sobreviventes. Não é que essa excepção me fizesse pensar que afinal de contas o Holocausto não tinha sido assim tão grave mas que, pelo menos, eu poderia não ter o direito de chorar. Havia gente para viver".

Esse sentido perpetuou-se até hoje, aos 47 anos. Como diz Miriam, "Aos 19, quando senti que tinha que fazer alguma coisa, não sabia bem o que era. Ainda hoje não sei o que é. Vou tentando". Seja isto uma descoberta eterna, hoje vive novamente em Lisboa, rodeada por caracteres hebraicos espalhados pelas estantes e inscritos nas lombadas de velhos livros, por fotografias de personalidades judias ou o símbolo da Estrela de Davi nas paredes. Com a escrita a ocupar-lhe grande parte do seu tempo - foi cronista e escreveu vários livros, desde a poesia "Libi", em 1997, a discursos do pai, no livro "Luz", até uma obra sobre Aristides de Sousa Mendes e uma mais recente, em 2013, sobre Jorge Jesus - actualmente é jornalista freenlancer.

Sobre o livro editado agora, Miriam refere, sem excepção, relativamente aos 14 ilustres: "Todos eles tiveram sempre uma parte que me comoveu. Do conhecimento, da sabedoria, do se transportarem para fora porque aqui não podiam ser judeus. É que a angústia pode ser um travão para que tu não pratiques o teu saber. No caso deles nunca foi".

Abraham Assor, rabino e pai de Miriam, que morreu em 1993, está entre as 14 personalidades e é o último de todos e sobre o qual mais lhe custou escrever. Tão ilustre quanto os restantes, resgatamos sobre o rabino, um excerto de Miguel Esteves Cardoso, também presente no livro: "Um santo e um professor: mas à nossa medida, do nosso tamanho, sem pretensões ou manias. (...) Foi o meu segundo pai, para onde o meu primeiro me mandou".

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LiV

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