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Está provado: açúcar e gordura viciam tanto como a cocaína

Está provado: açúcar e gordura viciam tanto como a cocaína

22/05/2013 00:00
Investigação feita no Canadá diz que combate à obesidade poderá passar por controlar alimentos viciantes, como bolachas de chocolate

Bolachas ilícitas? Batatas fritas com um rótulo a dizer, como no tabaco, que a gordura presente na embalagem pode provocar grave dependência? Por agora são cenários, mas Francesco Leri, investigador da Universidade de Guelph, no Canadá, acredita que as estratégias de combate à obesidade poderão passar por aqui.

A equipa que lidera em Ontário apresentou ontem, no encontro anual da Associação de Neurociências do Canadá, resultados de um estudo que sugere que haverá pessoas mais vulneráveis a ficarem viciadas em alimentos pouco saudáveis, por exemplo, ricos em açúcar e gorduras – um sinal particularmente preocupante, alertam os investigadores, quando alimentos deste género são cada vez mais acessíveis.

Os resultados vêm reforçar a tese de que comidas atractivas ao paladar, disponíveis na sociedade contemporânea, terão um lugar no puzzle que tenta explicar a epidemia mais galopante dos últimos 30 anos. Desde os anos 1980, a incidência de obesidade a nível mundial duplicou, atingindo no ano passado 1,5 mil milhões de pessoas – ou um quinto da população. A ideia não é nova: há duas semanas, quando a Cruz Vermelha Internacional alertou que a obesidade já mata mais do que a fome, Jagan Chapagain, director da organização para a região da Ásia e Pacífico, dizia que o problema, em países como a China ou a Índia, onde ainda há muitas zonas rurais com escassez de comida, estaria na dependência de comida pré-confeccionada ou fast-food.

No novo estudo, contudo, os investigadores quiseram aprofundar a tese. Havia um problema de fundo: a oferta e o consumo deste tipo de alimentos não pareciam explicar, por si só, porque é que umas pessoas são obesas e outras não.

Como nas drogas o problema já tinha sido estudado – entre as pessoas que experimentam cocaína, só uma pequena percentagem se torna toxicodependente –, resolveram partir daí. Leri explicou ao i que usaram ratinhos viciados em cocaína para perceber como reagiam a alimentos saudáveis e a outros com teores elevados de açúcar e gordura, como bolachas Oreo e xarope de milho. No caso das bolachas, a reacção ao doce das Oreo foi positiva para 70%, o que sugere que, pelo menos para alguns indivíduos, estes alimentos geram respostas no cérebro semelhantes às da cocaína.

Para Leri, a tese ganha força. “Agora temos provas comportamentais e neurobiológicas suficientes de que uma dependência de alimentos é possível. Quantos mais destes superalimentos estiverem disponíveis, mais as pessoas tendem a consumi-los em excesso e algumas delas tornam-se obesas”, explica.

Para já, falta perceber os limites a partir dos quais teores de açúcar ou gordura viciam e também se isso se verifica com o sal. Só assim será possível definir cientificamente alimentos viciantes. Depois, o objectivo será compreender os mecanismos envolvidos nesta dependência. Se a prevenção passará por medicamentos – que só agora começam a existir para o alcoolismo – ou por um maior controlo destas substâncias, não sabem ainda. “Acima de tudo será é preciso apostarmos na prevenção através da educação.”

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