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Eduardo Pitta. “Os grandes nomes da cena literária vivem alheados dos holofotes”

Eduardo Pitta. “Os grandes nomes da cena literária vivem alheados dos holofotes”

20/05/2013 00:00

Os amigos, as obras, os lugares que amou e “a multidão de passagem”. O livro de memórias, compiladas entre 1975, quando o seu mundo mudou, e 2001, quando o mundo mudou para todos, é apresentado hoje, às 17h, na Fnac do Chiado. Maria Ramos Silva conversou com o poeta, ensaísta e crítico literário sobre “Um Rapaz a Arder”, fotografado por António Pedro Santos

 

A maioria revela “fair play ou disfarça bem” quando a lâmina da recensão golpeia uma obra. Excepção feita a outros lanhos menos superficiais, como o caso da autora que esteve 20 anos sem dirigir a palavra ao crítico literário, ensaísta e poeta, que agora incendeia memórias com “Um Rapaz a Arder”, apresentado hoje por Eugénio Lisboa. De 1975, quando se despediu de Lourenço Marques rumo a Lisboa, a 2001, quando nos despedimos todos de uma certa bolha de segurança, viaja aos tempos do Frágil, dos primeiros telemóveis e computadores, da apoteose pós-ditadura e da utopia europeia. Acima de tudo, estão aqui “os amigos, as obras, e os lugares que amei, mais a multidão de passagem”.

 

“Nenhum de nós passeia impune pelos retratos”, escreveu em tempos. Como reagiu recuperando esta colecção de fotos, e outras imagens de outros tempos, muitas delas com amigos que já não estão cá?

Quando escrevi esse poema, não tinha a noção de quão exacto é o verso que cita, o que é natural, porque quando somos jovens vemos a vida com outros olhos.

Inicialmente previa passar em revista os nossos anos 80. Quando e como esse projecto se cruza com as memórias pessoais deste “rapaz a arder”?

Não foi exactamente assim. A Lúcia Pinho e Melo [editora da Quetzal] desafiou-me a escrever sobre as minhas memórias dos eighties, mas eu fiz-lhe ver que a década não era estanque, e então partimos para um período mais alargado...

E assim chegamos à fórmula 1975-2001...

Precisamente. 1975 foi um ano importante na minha vida (mudei de país e de hábitos), 2001 foi aquele ano terrível para todos nós...[Referência ao ataque ao World Trade Center, a 11 de Setembro.]

Qual o primeiro impacto quando chega a Lisboa, a 8 de Novembro de 1975, com 26 anos?

O primeiro impacto foi de sujidade. A Portela estava um nojo. Sabe, eu tinha estado em Portugal duas vezes. Em 1964 e 74. Da primeira vez, com 15 anos, não gostei nada. Da segunda, entre Março e Abril de 1974, gostei muito, havia no ar a percepção de que algo podia acontecer a qualquer momento. Mas eram férias, o Estoril era uma zona muito agradável e diverti-me bastante. Fiquei na casa do amigo que me recebeu quando vim definitivamente.

Mas quando veio de vez...

Em Novembro de 1975 era tudo diferente. O país estava à beira de uma guerra civil, as pessoas andavam crispadas, e eu já não era o flâneur da Primavera de 74. Tinha de trabalhar, arranjar casa, fazer tábua rasa do passado... Como fomos viver para Cascais, tive de iniciar-me nos códigos tribais... Era impensável ir almoçar a Seteais de camisa encarnada. E amarelo!? Sempre gostei muito de amarelo, não me preocupo nada com o ditado [“Que seria do mau gosto se não fosse o amarelo”] mas o amarelo estava reservado aos courts de ténis.

De que sentiu mais saudades, uma vez afastado de Moçambique? Por outro lado, que lhe proporcionou a “metrópole” que Lourenço Marques não oferecera?

Não sou pessoa de “saudades”. Quando deixei Lourenço Marques, a cidade não tinha nada a ver com a aquela em que nasci. Com excepção de meia dúzia, as pessoas com quem me dava tinham desaparecido. Eu era um estrangeiro na minha própria terra. O primeiro capítulo de livro explica isso com minúcia.

Contou-me que nunca lá regressou. Nem nos primeiros tempos, após a partida, se sentiu tentado a um regresso, pelo menos pontual?

Gosto muito de viajar, mas ir a Moçambique não é o mesmo que ir a Paris num fim-de-semana... É longe, é caro, e, se quer que lhe diga, não sei mesmo se aceitaria um convite. Provavelmente não. Não tem nada a ver com política. O país maoista de 75 deu lugar a uma “democracia” (com aspas) capitalista. Moçambique saiu do meu radar de interesses... Acompanho à distância a evolução do país, e gostava que os imensos recursos naturais que começam agora a ser explorados em grande escala contribuíssem para a melhoria das condições de vida das pessoas que não pertencem às elites dirigentes. Sobre isso não tenho dúvidas. Agora resorts em Pemba... francamente, mais depressa ia para a Sicília...

Como reagiu a capital a um recém-_-chegado que nunca ocultou a sua homossexualidade?

A capital... não sei [risos]. No meio literário ficavam muito admirados quando apresentava o Jorge [Neves] como meu companheiro [desde 1972, e com quem se casou em 2010]. Mesmo no ministério isso ficou logo esclarecido. Socialmente nunca tive problemas.

Que alteração nas reacções à sua orientação sexual, e à cultura gay em geral, foi possível observar ao longo do intervalo de tempo que contempla no livro?

A diferença é que hoje quase ninguém se espanta por o homem do talho ou o canalizador serem homossexuais. Deixou de ser uma coisa de artistas ou de cabeleireiros. Creio que há cada vez menos rapazes e raparigas a casarem contra vontade para não perderem as pratas da família... Sobre cultura gay, não há em 2013 como não havia em 1975.

Que melhores e piores memórias guarda dos fervilhantes anos 80?

Para ser franco, não me parece que tenham sido mais fervilhantes que os anos 70. Em todo o caso, foi a década dos meus 30 anos, e aos 30 anos temos o mundo aos pés...

Um dos seus feitos, li algures, dizia ser “ter sobrevivido sem canudo num país de doutores”. Não precisou de diploma para se encantar pela literatura. Como começa a sua relação com os livros e os autores?

Mas alguém algum dia se preocupou com a falta de canudo do Cesariny, da Sophia ou do Herberto Helder? A poesia tornou-se um feudo de académicos, isso nem é pecha nossa, lá fora também é assim, mas eu venho de outra geração. E em minha casa sempre houve muitos livros. Leio desde que me conheço.

Publica desde 1967. Como e quando surgiu o gosto pela escrita?

Nos anos 60, tal como em Lisboa havia o “Juvenil”, o suplemento do “Diário de Lisboa” onde Eduardo Prado Coelho e José Pacheco Pereira começaram a escrever, em Lourenço Marques havia o “Diálogo”, do jornal “Notícias”, e foi desse modo que tudo começou, sem mistério algum...

Em 87 estreia-se na crítica na “Colóquio-Letras”. Ao longo de mais de 20 anos, que amizades e inimizades lhe valeu esta actividade?

Uma autora esteve 20 anos sem falar comigo por causa do texto que publiquei sobre um dos seus livros. E era uma pessoa do primeiro círculo das minhas amizades. Mas a maioria tem fair play ou disfarça bem. Em todo o caso, não tenho uma escrita acintosa.

Que recensões tiveram particular impacto?

Não faço a mínima ideia.

Colocando-se no outro lado, qual a pior e a melhor crítica que reservaram a obras suas?

Tenho tido bons leitores, não vou cometer a indelicadeza de citar uns em detrimento de outros.

Entre o que mudou, e o que se mantém, como caracteriza o nosso meio literário?

O que mudou foi que desapareceram as grandes figuras, autores como José Gomes Ferreira, Jorge de Sena, etc. E já não há personagens como Cesariny. A estes há que juntar os que estão afastados da cena literária, seja por opção (o Joaquim Manuel Magalhães), seja por doença (a Agustina). Sobra o Urbano Tavares Rodrigues, mas quantos dos mais novos têm noção da sua importância? De um modo geral, os grandes nomes vivem alheados dos holofotes. Estou a pensar em António Osório, Armando Silva Carvalho, Eugénio Lisboa, João Miguel Fernandes Jorge, Maria Velho da Costa, Mário de Carvalho, Pedro Tamen, Vasco Graça Moura e outros. A geração novíssima rege-se por outros parâmetros.

Lendo o livro, descobre-se uma curiosa semelhança de contexto político entre os anos 80 e a actualidade. Que balanço faz um “soarista” confesso dessa evolução?

Estamos atolados numa crise gravíssima. Do ponto de vista político, tão grave como a de 1975. Do ponto de vista económico, pior que as de 1976 e 1982. A tudo isto junta-se uma crise de valores sem precedentes. E o pior de tudo é que o problema não termina em Badajoz. A Europa vive literalmente à beira do abismo. Não vejo forma de sair do atoleiro.

Encerramos com o 11 de Setembro de 2001. Tenciona dar seguimento às memórias pelo novo século adentro?

Daqui a cinco anos falamos... Vale?

“Um memorialista não pode ignorar o mundo à sua volta.” Já recebeu feedback de alguns dos mencionados no livro? O que têm dito?

Os principais visados já leram o livro. Por “principais visados” entenda-se as pessoas a quem me ligam laços de amizade. Todos fizeram chegar palavras de afecto, sem levantar qualquer tipo de objecção. Quanto à frase que cita [“Um memorialista não pode ignorar o mundo à sua volta”] escrevi-a para lembrar aos distraídos que um autor não vive numa campânula de vidro.

Poeta, crítico, ensaísta. Como gostaria de ser recordado este “rapaz”?

Como poeta. Afinal foi na poesia que me resolvi melhor.

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