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Paredes de Coura. O músico dos Boucabaca é candidato à câmara

Paredes de Coura. O músico dos Boucabaca é candidato à câmara

21/08/2013 00:00
Um dos sócios fundadores da Ritmos, a empresa que organiza o Festival de Paredes de Coura, é candidato à câmara

Vítor Paulo Pereira, 44 anos, é um dos sócios fundadores da Ritmos, a empresa que organiza o Festival de Paredes de Coura há 21 anos. Colibri, como é conhecido na terra, chegou a participar com a sua banda Boucabaca, onde tocava viola baixo, nas três primeiras edições do festival minhoto. Antes de assumir o seu primeiro cargo político, em 2005 - foi membro e porta-voz do Partido Socialista (PS) na assembleia municipal -, Vítor Paulo Pereira foi professor de História na escola secundária e director do centro de formação da vila. Em 2009, o actual presidente da câmara, António Pereira Júnior, convidou-o para assumir o cargo de chefe de gabinete. Quatro anos depois foi escolhido para candidato do PS à câmara municipal nas autárquicas de Setembro. Nesta entrevista fala-se muito de música, bandas, política, e do partido.

Como é que um membro de uma banda chamada Boucabaca, que tocou nas primeiras edições do Festival de Paredes de Coura, decidiu entrar na política e candidatar-se à câmara municipal?

Não tenho um percurso político muito comum. Sempre fiz parte da organização do festival e, em 2009, o presidente da câmara convidou-me para chefe de gabinete. Como gosto de novas experiências, aceitei. Por terem gostado do meu trabalho e ter perfil, a estrutura política local convidou-me para candidato do PS. Achei que era um desafio interessante e achei que poderia contribuir de alguma forma para o desenvolvimento de Coura.

Como nasceram os Boucabaca?

Em Coimbra. Havia lá umas pessoas que tocavam guitarra e eu nunca tocava nada. Apesar de ter alguma inteligência era um rapaz do campo. O meu pai deu-me dinheiro (na altura 40 contos) para o traje académico, mas com esse dinheiro preferi comprar uma viola baixo. Também não gostava muito das praxes (risos).

Quando regressava a Coura no Verão, as noites aqui eram muito calmas e não havia muita actividade para os jovens, por isso comecei a tocar com os meus amigos. Tinha 20 anos e nessa altura já havia um frenesim muito interessante à volta do que se chamava música moderna e das bandas de garagem. Nós víamos sempre aquele programa que dava às três da manhã na RTP 2: o "Pop-Off". Foi nesse contexto que surgiu o nosso grupo.

De onde veio o nome? E que tipo de música tocavam?

O nome é um bocado estúpido. A banda era para se chamar Black Salazar ou Bou com a Baca - Vou com a Vaca. Inicialmente tentávamos copiar os Bauhaus, os Joy Division e os The Sound. Gostávamos muito dos Mão Morta. Tínhamos muitas músicas quase copiadas dos Mão Morta e dos King Crimson também.

E como surgiu o festival?

Foi organizado numa semana, com o João Carvalho a telefonar para as bandas de uma cabine telefónica. Os Boucabaca ainda conseguiram tocar até à terceira edição, mas depois o nível começou a subir e disseram-nos: desculpem lá, mas agora já é a sério [risos].

E como é que aparece a empresa Ritmos?

Surge em 2001, pois foi a partir dessa altura que o festival cresceu de tal modo que foi preciso profissionalizar a estrutura, até do ponto de vista fiscal. Inicialmente o festival era organizado pela Associação de Incentivo à Cultura Courense, quer era o nome para dizer aquele palavrão [risos].

Qual?

Na altura a gente é puto e lembra-se de criar uma piadinha que é ICC: importante comó car? [risos]. Éramos para aí 40 pessoas. Mas depois o festival foi crescendo e passou a exigir mais disponibilidade e maior profissionalismo. Como eram precisas pessoas a tempo inteiro e alguns começaram a estudar deixou de ser possível conciliar. A associação foi perdendo pessoas progressivamente. Quando o festival começou a crescer muito o núcleo duro já só era eu, o Jó [José Barreiro], o João, o Filipe [Lopes] e o Carlos Loureiro, que agora é um empresário de sucesso em Angola. E depois foi através desse núcleo duro que se criou a Ritmos.

Como se organizavam?

O João era mais para a comunicação social, o Jó era mais para a produção, pensar o espaço, o relacionamento com as bandas, o Filipe era o das contas, e eu era o criativo. O que é preciso fazer no espaço? O jazz na relva. Aquele que tinha mais ideias. Também fazia uma parte da comunicação do festival, actualizar os sites, fazer os prospectos, trabalhar com as agências de comunicação, enviar a informação...

A primeira edição custou 180 contos. A deste ano 3 milhões de euros. Como vê a evolução do festival?

Desde 2009 fui-me afastando progressivamente, pois estava concentrado na câmara. O apoio da câmara andou sempre à volta dos 100 mil euros. Mas neste contexto de crise obrigou a reduzir uma fatia significativa do orçamento. Mas o festival foi crescendo e conseguiu outras receitas. Em relação às bandas, até 2002/03 não havia muito critério editorial. Tanto havia uma banda indie independente como os Korn. A partir de certa altura, quando os festivais começam a pulular por todo o lado, compreendemos que tínhamos de nos diferenciar. É evidente que essa diferenciação de início foi difícil porque financeiramente sabíamos que a música independente não arrasta tantas multidões como a comercial. Sabíamos que a curto prazo podia ser perigoso, mas no futuro poderia ser essencial para a nossa sobrevivência. E o festival acabou por criar uma dinâmica económica muito importante para o comércio local.

É verdade que gostava que os Queens of Stone Age fossem uma banda residente?

Por acaso gostava. Foi dos melhores concertos que vi. Eu gosto muito de música independente, mas da genuína, da verdadeira. Agora há por aí muita coisa que aquilo espremido não dá nada. O indie não é só fazer sons estranhos e poesia desconexa. Há bandas que conseguem envolver o público e outras não. Porque são mais verdadeiras e acreditam com mais convicção naquilo que estão a fazer. E na música, tal como na política, é preciso atitude e energia.

Voltando à política. Porque é que entrou no PS e não noutro partido, como o PSD, por exemplo?

Posso dizer que sou mais de esquerda do que de direita. Apesar de não achar que ser de esquerda ou de direita tenha muita influência. Há pessoas de direita que fazem um bom trabalho. A ideologia não é um sinal de bom trabalho ou funcionamento diferente. E dentro da social-democracia há muitas nuances, muitos caminhos. Até há muitos movimentos.

É socialista por uma questão pragmática, é isso?

Hoje é muito comum as pessoas terem problemas com as cores dos cartazes. Eu não tenho problema nenhum. Se faço parte do PS porque não fazer um cartaz vermelho? Parece que o vermelho não é muito moderno ou até politicamente correcto. No fundo os pantones ideológicos podem ser uma coisa, mas quem faz, transforma e realiza são as pessoas.

Um dos actuais sócios da Ritmos é José Eduardo Martins, um conhecido militante do PSD natural de Paredes de Coura e ex-secretário de Estado de Durão Barroso e Santana Lopes. Presumo que já tiveram grandes discussões, não?

Ele nutre uma grande simpatia por mim e eu por ele. Todas as pessoas sabem. Falamos muito de política mas também de muitas outras coisas. De bandas, de música. Às vezes resvala para a política nacional e para a luta partidária.

Acha possível ele vir apoiar a sua candidatura?

Se o fosse convidar ele provavelmente diria que não, mas eu sei que no coração gosta de mim.

O que é ser de esquerda?

É mudar, ousar, transformar e arriscar. Se calhar até às vezes revolucionar, agora não é destruir tudo. É estar mais aberto à mudança.

Há pessoas de direita que são capazes de subscrever o que acabou de dizer?

Sim, mas acho que os partidos de direita têm muito mais constrangimentos quanto à mudança. Um partido de direita, por princípio, defende mais os valores conservadores. Não estou a dizer que os valores são maus. O que estou a dizer é que muitas vezes não estão tão abertos à mudança porque até têm medo de perder eleitorado. O eleitorado de direita é mais prudente. Também não estou a dizer que o de esquerda não é prudente, mas em determinados assuntos as coisas têm de mudar. Eu sou adepto de uma maior liberdade sexual. Sou mais aberto à mudança e se a sociedade muda não podemos estar agarrados ao passado. Agora não é uma mudança gratuita. É uma mudança com respeito pelas outras opiniões. Mesmo em termos de co-adopção por casais gay, sou completamente a favor. Não acho que seja o sexo que tem influência. O amor entre as pessoas é que tem, não é o sexo. É evidente que é capaz de fazer confusão a muitas pessoas, mas sou mais adepto de uma criança que é adoptada por um casal homossexual estruturado, organizado, e que tem amor pelas crianças. Há casais heterossexuais que tratam mal as crianças e não cuidam delas. As pessoas podem dizer-me que é um cliché, mas o amor não tem sexo. Admito que seja muito mais difícil para as pessoas de direita compreenderem isso. Não estou a dizer que estão erradas, têm é outra visão da sociedade. Mas se a sociedade está a mudar e as pessoas já olham para a sexualidade como não olhavam há 30 anos, e se a sociedade muda, o poder político tem de mudar.

Essa questão não é pacífica, mesmo dentro do PS.

Sim, mas por isso é que digo que mesmo dentro de um partido de esquerda há pessoas mais conservadoras e outras mais ousadas, mais liberais, dispostas a mudar. Isto é um caminho. As pessoas estão cada vez mais abertas. Muitas vezes temos noção de um certo conservadorismo da sociedade portuguesa, mas há outras sociedades que aparentemente são mais avançadas e com estruturas democráticas muito mais desenvolvidas e depois os assuntos também são muito polémicos. Não acho que a sociedade portuguesa seja diferente das outras. É evidente que temos um condicionalismo, pois tivemos uma ditadura de 48 anos que tirou energia ao país. O segredo da política é este: saber quais as coisas que serenamente tens de aceitar mas também ter a coragem para saber quais são as coisas que têm verdadeiramente de mudar. Eu não tenho uma visão negativa dos partidos. Antes dos partidos estão as pessoas e os aspectos negativos que os partidos têm são os aspectos negativos da natureza humana. Os partidos são as pessoas.

E porque é que as pessoas estão tão cansadas dos partidos?

Porque a sociedade avança muito mais depressa do que eles. Os partidos têm a sua forma de comunicação e ainda não descobriram, por exemplo, a importância das redes sociais. Eu tinha um preconceito, até por desconhecimento, de que os brasileiros eram um povo que só gostava de samba. Eram um povo sem grande dinamismo democrático, que se preocupava mais com os aspectos lúdicos do que propriamente com os problemas fundamentais. E de um momento para o outro vemos pessoas com cartazes a dizer: e quando eu tiver o meu filho doente levo-o ao estádio? Nós fizemos aqueles estádios todos e não apareceu um único português com uma cartolina a queixar-se de que não investíamos nos hospitais. A nossa democracia é dinâmica, mas há um sentimento de impotência, de que não vale a pena protestar. E os partidos têm estruturas muito rígidas. Para ser militante tens de entrar naquele calvário e fazer o caminho das juventudes partidárias e entrar nas fases todas para chegar lá.

Mas você não fez esse caminho?

Nunca estive ligado a juventudes partidárias nem nunca tive grande envolvência política e de um momento para o outro estou aqui. Os partidos são estruturados, têm regras, mas no fundo permitem a uma pessoa que não tem um percurso político conseguir ser candidato a uma câmara. A renovação dos partidos não é fácil. Há alguns constrangimentos, nomeadamente haver uma certa profissionalização da política. Eu não estou dependente da política, o que me confere alguma liberdade, e isso é bom.

Tendo em conta que o PS está na câmara há tantos anos, não teme que os courenses decidam que está na altura de mudar?

Isto até pode ser contraditório, mas as pessoas vêm mais mudança no partido que está no poder do que propriamente na oposição.

Na apresentação da sua candidatura disse que "é preciso pensar fora do quadrado". Os courenses estão preparados para isso?

Pensar fora do quadrado não é fazer uma revolução. Pensar fora do quadrado é ter a ousadia de pensar diferente.

O que é que vai concretizar "fora do quadrado"?

Eu sei que isto podem ser ideias gerais mas são ideias que depois se podem concretizar com pequenos projectos. Coura tem uma paisagem que a distingue do resto dos concelhos limítrofes. E se tem uma paisagem invejável, porque não aproveitar essa paisagem? A tendência dos portugueses é fazerem um projecto turístico e depois ficarem de braços cruzados a fazer um site na internet e prospectos para atrair pessoas. O que tem de se fazer é ir a uma agência de turismo alemã ou inglesa e apresentar o projecto, nem que seja só para 60 pessoas. E depois envolver as pessoas da terra e criar riqueza económica. Se isso acontecer, depois virão outros.

Os outros candidatos não poderiam estar a dizer o mesmo?

É evidente que sim. As palavras ainda não custam dinheiro e cada um pode utilizar as palavras que quiser. Agora eu sinto isso e sei que é preciso ter ideias e saber qual o caminho que o mundo segue. Se não sabes não tens hipótese. Não é só criar um site na internet, que muitas vezes nem sequer está em inglês, e depois ficar de braços cruzados à espera.

Se ganhar as eleições, qual vai ser a sua primeira medida?

[Silêncio.] Uma das coisas que terei de fazer é uma nova organização interna e distribuição de pelouros. Primeiro começa-se por fazer o que é necessário, depois o que é mais difícil e quando dás por ela estás a fazer o que as pessoas não imaginavam. Como se verá o sucesso da minha candidatura? Será Paredes de Coura não perder pessoas a longo prazo. Pelo contrário, até ter mais pessoas.

Há quem diga que se tornou o "Vitinho" das feiras. É verdade?

É um facto [risos] mas com todo o gosto e prazer. Quando passamos a ser figuras políticas temos de ter o contacto humano. Não posso achar que sou muito bonito, muito moderno e inteligente e não entrar em contacto com as pessoas, não falar com as associações ou não ir ao rancho folclórico, a uma festa ou romaria. Devem fazer-se mudanças nas campanhas eleitorais mas não é de um momento para o outro que se inverte toda uma cultura que está instalada. E se está instalada tens de fazer esse papel.

Isso não é contraditório com o discurso de ousar fazer diferente?

Sim, mas para fazer diferente tens de ganhar eleições.

Tem de se fazer cedências.

Até nem acho que sejam cedências. A democracia é ouvir as pessoas e onde é que se ouvem as pessoas? É nas festas. É nas romarias, é nos comícios. É onde for.

Tem a ambição de se envolver na política a nível nacional?

Não. Não vou dizer que o futuro a Deus pertence mas se fizer um bom trabalho e surgirem outras oportunidades, seja onde for, na altura decidirei.

Vê-se como deputado?

Não. Agora estou a ver que tenho que trabalhar muito para ganhar as eleições e depois de acordo com as circunstâncias decidirei.

E ministro ou secretário de Estado?

Nem pense nisso. Não tenho ambições políticas absolutamente nenhumas. E se porventura cheguei aqui à câmara foi por isso. Tenho a ambição de ganhar a câmara e conseguir afirmar este território pela positiva.

Qual foi o melhor líder do PS?

Eu gostei? deixa-me ver? gostei do José Sócrates. E gosto muito da postura e da sensatez política, apesar da muita pressão, do António José Seguro. Será porventura o líder do PS que enfrentou a situação mais difícil. Está a fazer um trabalho de persistência e espero que chegue a primeiro-ministro. Agora há muita tentação da sociedade e até de alguns quadrantes do PS, de correr mais depressa.

Seguro tem estofo para ser primeiro- -ministro?

Eu acho que sim.

Há muita gente dentro do próprio PS que acha que não e que é um líder para queimar nesta fase.

Uns acharão que sim, outros acharão que não.

Numa disputa entre António José Seguro e António Costa, em quem votaria?

Depende dos projectos. Mas estou muito contente com o nosso actual líder.

Se não ganhar as eleições, o que vai fazer?

Eu vou ganhar [risos].

Mas e se perder?

Eu não vou perder.

O que fará então depois de deixar a política?

Vou fazer uma coisa de que gosto. Sou professor e gosto muito. Gosto muito de fazer investigação e deixei a meio um doutoramento. Se as condições se propiciarem e se os meus sócios me deixarem, gostava de criar mais eventos culturais, e sobretudo fazê-los de maneira diferente e em contexto com o território.

Voltando à música. O que é que anda a ouvir agora?

Estou a ficar velho. Depois do rock passei para o jazz e agora gosto muito de música clássica. O meu sonho era que o festival viesse a ter uma tenda de circo com areia, onde as pessoas pudessem ouvir numa cadeirinha de praia. Olha, pode ser uma novidade para o festival nos próximos anos. Um espaço chill-out de música clássica [risos]. Mas continuo a ouvir rock. Gosto muito dos Black Rebel Motorcycle Club, Queens of Stone Age e coisas assim.

Ainda tem a viola baixo?

Não. Emprestei ao meu irmão e rebentaram-na. Quando dei por ela estava numa carpintaria. Apertavam as cordas demasiado e em vez de ir a uma loja de instrumentos foram a uma carpintaria e estava colada com umas talas de madeira.

Em Coura toda a gente tem uma alcunha. Porque lhe chamam Colibri?

Essa alcunha vem de Coimbra. Tinha um colega de quarto que era de Alcanena que andava sempre a chamar às pessoas Colibri, Nenúfar e outras coisas assim estranhas. Eu achava piada e comecei a tratar as outras pessoas assim. Mas depois virou-se o feitiço contra o feiticeiro e começaram a chamar-me a mim. Até foi bem feito [risos].

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