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Cunhal e Brejnev. Crónicas de um tempo que se quer esquecido

Cunhal e Brejnev. Crónicas de um tempo que se quer esquecido

08/10/2013 00:00

José Milhazes recorda a influência paternal da União Soviética no PCP e conta pormenorizadamente como Álvaro Cunhal, líder histórico dos comunistas portugueses, nada fazia sem o conselho e a autorização dos seus camaradas soviéticos. Luís Rosa apresenta-lhe o novo livro do jornalista que vive em Moscovo desde 1977

A persona de Álvaro Cunhal tem sido alvo de uma limpeza de imagem de que poucos estalinistas beneficiaram desde que a pátria do comunismo, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), se desmoronou. Desde a sua morte, em 2005, que o Partido Comunista Português (PCP) tudo tem feito para humanizar a figura de Cunhal – seja promovendo exposições sobre a vida do seu dirigente histórico, seja patrocinando obras sobre o “Álvaro” e a sua família (como é o caso do último livro de Judite Sousa). Além de fomentar uma espécie de culto do chefe, tudo serve para camuflar o óbvio: Álvaro Cunhal sempre apoiou de forma inequívoca a ditadura totalitária na URSS e nos restantes países do Leste signatários do Pacto de Varsóvia, que provocou a morte de mais de 21 milhões de pessoas.

Há quem queira esquecer ou ser benevolente, mas o comunismo e o nazismo são duas faces da mesma moeda: o totalitarismo em que o indivíduo é subjugado à vontade do Estado.

Cunhal, que tentou replicar o modelo soviético em Portugal, foi um comunista que nunca reconheceu o falhanço catastrófico desse projecto político por si defendido ao longo de uma vida. Tal como o PCP, recorrentemente apelidado de partido patriótico, sempre foi um filho subserviente perante os interesses do seu pai: o Partido Comunista da União Soviética (PCUS).

Estas evidências, que têm sido convenientemente substituídas pelo eufemismo da coerência de Cunhal e do PCP, são-nos recordadas pela pena de José Milhazes no seu livro “Cunhal, Brejnev e o 25 de Abril”. “Como se dizia na URSS, em tom irónico, [o PCP] ‘era mais vermelho que os muros vermelhos do Kremlin’” – o centro do poder soviético, escreve Milhazes.

Conhecido jornalista como correspondente em Moscovo (onde vive desde 1977) de vários media portugueses, Milhazes é também historiador. Estas duas facetas coexistem no seu livro, prevalecendo, contudo, o lado do cientista social que imprime uma escrita seca, fria e descritiva dos factos documentais ou testemunhais que recolheu na sua investigação.

Verdade seja dita, o título da obra não é o mais feliz. Não só o livro abrange um período muito mais largo que o 25 de Abril, como é analisada a relação de Cunhal com outros secretários-gerais do PCUS, nomeadamente Mikhail Gorbachov, e outros importantes dirigentes comunistas internacionais. O tema do livro acaba por ser a influência da URSS no PCP durante o período da Guerra Fria, em que os soviéticos usavam o movimento comunista internacional como arma de arremesso contra os Estados Unidos e os seus aliados.

A escolha do título pode explicar-se mais por razões de marketing. Em termos históricos, é conhecido o envolvimento do PCP no golpe militar do 25 de Novembro levado a cabo pela extrema-
-esquerda – embora se tenham envolvido no início das operações militares, os comunistas acabaram por retirar-se, facilitando a vitória das forças democráticas. Diversos historiadores viram o dedo da URSS nessa decisão do PCP.

A obra de Milhazes ajuda-nos de facto a compreender melhor a influência soviética. Baseando-se em documentos do Centro de Conservação da Documentação Moderna, antigo arquivo do Comité Central do PCUS, no diário de Anatoli Tchernaiev, ex-vice-chefe da Secção Internacional do Comité Central do PCUS, e em depoimentos de importantes ex-dirigentes soviéticos, o jornalista mostra como a URSS, preocupada com uma resposta dos Estados Unidos e da NATO, impediu que o PCP se envolvesse num golpe militar ou numa guerra civil para implementar o comunismo em Portugal. Ironias da história, Leonid Brejnev, secretário-geral do PCUS entre 1964 e 1982 e conhecido ortodoxo comunista, acabou por ser o maior aliado da democracia portuguesa.

A luta Milhazes descreve em pormenor a luta que ocorreu na época do 25 de Abril na liderança soviética entre duas facções: a de Brejnev e Andrei Gromyko, ministro dos Negócios Estrangeiros, contra a implementação do comunismo em Portugal, e a de Boris Ponomariov (BN), responsável pela Secção Internacional do PCUS, e Mikhail Suslov, ideólogo ortodoxo.

Numa das suas habituais visitas a Moscovo em 74/75, Cunhal aconselhou-se com Ponomariov, conta Tchernaiev: “BN ensinou-LHE, numa linguagem muito atabalhoada, como salvar e fazer a revolução avançar: saber o que se passa nas Forças Armadas, ter a sua espionagem (junto do comité central do partido), como organizar a segurança dos dirigentes, bem como seguir a CIA”, descreve Milhazes.

Apesar de Cunhal seguir à risca a táctica leninista para implementar uma ditadura do proletariado, os soviéticos cedo perceberam que as forças democráticas em Portugal (lideradas por Mário Soares, Francisco Sá Carneiro e Freitas do Amaral) estavam muito mais unidas que as congéneres russas depois da Revolução de Fevereiro de 1917. Acrescem a isso que os sinais dos Estados Unidos e dos líderes europeus da Internacional Socialista de que não permitiriam a implementação do comunismo em Portugal.

Depois das eleições para a Assembleia Constituinte, em Abril de 1975, em que o PCP apenas recolheu 13% dos votos, Brejnev e Gromyko perceberam que nada havia a fazer. Milhazes cita o diário de Tchernaiev, onde relata uma conversa entre Edward Gierek, secretário-geral do Partido Operário Unido da Polónia, e Olof Palme, primeiro-ministro social-
-democrata sueco: “Gierek: Sabendo que ia ser abordado o tema de Portugal, telefonei do avião para Brejnev [que] disse: ‘Diz-lhe que nós não tencionamos e não nos iremos ingerir, que travamos os comunistas em Portugal no seu arrebatamento pelas transformações revolucionárias [...] Não precisamos de qualquer base em Portugal e não tencionamos dedicar-nos a isso.’”

Isso mesmo transmitiu Vadim Zagladin, funcionário da Secção Internacional do PCUS, a Cunhal em Lisboa em 1975. Enviado pelo Comité Central do PCUS, Zagladin ficou muito surpreendido por um militar do MFA ter pedido o envio de uma esquadra soviética: “‘Imagina o que isso significa?’ Em Lisboa, havia uma base da NATO, no Tejo estavam ancorados navios de guerra ocidentais. ‘Quer que combatamos contra eles? Depois de um confronto desses nada restará da vossa revolução’”, respondeu Zagladin, que aconselhou Cunhal a mandar parar os militantes do PCP.

Isso não impedia que a espionagem soviética tivesse estado muito activa (como a norte-americana) em Portugal. Tal como na Segunda Guerra Mundial, Lisboa foi palco de uma luta entre serviços secretos. Os soviéticos, dado o clima revolucionário do Verão Quente, circulavam muito à vontade pelo país, tendo ficado espantados com as facilidades que encontraram. A forma como parte dos ficheiros da PIDE, polícia política do Estado Novo, foram transferidos para Moscovo com a ajuda do PCP demonstra-o. Esses ficheiros, pelo pouco que se sabe deles, acabaram por ter alguma importância na Guerra Fria, já que permitiram aos soviéticos conhecer melhor a CIA e os seus espiões.

A influência do PCP junto dos movimentos de libertação africanos também foi importante para os soviéticos. Milhazes relata um episódio relevante, ocorrido em 1963, em que Álvaro Cunhal impediu em Moscovo que o PCUS reconhecesse a Frente Nacional de Libertação de Angola, de Holden Roberto, como legítimo representante do povo angolano, escolhendo, ao invés, o MPLA de Agostinho Neto – facto histórico que explica ainda hoje as excelentes relações entre o PCP e o MPLA.

Encontro com Gorbachov Passada a euforia revolucionária, o PCP continuou a manter uma relação muito forte com o PCUS. Além de receberem elevadas quantias anuais de Moscovo (700 mil dólares em 1981 e 3 milhões de dólares entre 1987 e 89), Álvaro Cunhal não dava um passo importante sem o aconselhamento e a autorização dos camaradas soviéticos. Milhazes relata um encontro entre o líder do PCP e Mikhail Gorbachov, secretário-geral do PCUS entre 1985 e 1991, que é paradigmático. Regressado de Pequim, onde tinha recebido um convite do PC chinês para reatar relações, interrompidas nos anos 60 quando o PCUS entrou em confronto com os chineses, Cunhal diz a Gorbachov: “Sinto-me feliz por ter a possibilidade de discutir consigo esses problemas. Isso é importante para que a política do meu partido seja mais precisa e clara.” Ao que Gorbachov responde: “Obrigado, camarada Cunhal, pela informação muito interessante. Penso que têm fundamento as suas opiniões de não suspender os contactos com o PC da China, de os manter ao nível que se encontram. Que se dê o processo de aproximação, mas não se deve forçá-lo. Penso que esta é a linha correcta.”

É irónico que Mikhail Gorbachov venha provocar, com a perestroika e a glasnost, o primeiro e único afastamento entre o PCUS e o PCP – o que levou os comunistas portugueses a apoiarem publicamente o golpe de estado de que Gorbachov foi vítima em Agosto de 1991. A URSS não resistiu à abertura decretada por Gorbachov, ao contrário de Cunhal e do PCP.

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