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São Tomé e Príncipe. Evitar que a memória das roças se apague

São Tomé e Príncipe. Evitar que a memória das roças se apague

29/11/2013 00:00
Um total de 122 roças de São Tomé e Príncipe estão documentadas num livro que mistura arquitectura, fotografias e visão social

Só existem roças em dois sítios do mundo: Brasil e São Tomé e Príncipe. Foi pelo último país que os arquitectos Duarte Pape e Rodrigo Rebelo de Andrade se apaixonaram e é fácil perceber porquê. Cada roça - propriedade com agricultura de plantação - podia albergar entre 100 e 3 mil trabalhadores. "Havia uma sede com várias dependências. E tudo isto funcionava em rede. Essa roças-sede tinham os seus hospitais, a sua escola, a sua sanzala, serralharias, carpintarias. Eram praticamente auto-suficientes", conta Rodrigo. Ou seja, cada roça funcionava como se fosse uma pequena vila ou aldeia, onde não faltavam os pormenores mais surpreendentes. "Muitas destas sedes estavam ligadas por quilómetros e quilómetros de linha férrea. Chegámos a encontrar uma roça que tinha um teleférico, pois estava num terreno abrupto onde construir uma linha férrea era muito caro. Era o teleférico que levava a mercadoria do alto da roça para ao porto." Um mundo a funcionar, com casas de influências arquitectónicas tão diferentes como os seus moradores, tanto da Europa como do Brasil, que hoje está parado e em risco de desaparecer. Mas comecemos pelo princípio desta história que levou ao livro "As Roças de São Tomé e Príncipe".

Duarte Pape e Rodrigo Rebelo de Andrade, que também são primos, chegaram às ilhas do golfo da Guiné para trabalhar numa ONG local, em desenvolvimento e cooperação. "Na altura estávamos ainda a estudar e ficámos fascinados com o património das roças, que era precisamente o espaço de acção em que trabalhávamos. Achámos que tinha imenso potencial", conta Duarte. Começou aí um novo projecto, para o qual arrastaram o fotógrafo Francisco Nogueira.

Regressados a Portugal, meteram mãos à obra e começaram a investigar o que havia documentado sobre o tema das roças, que era na verdade "muito pouca coisa", como explica Duarte. O primeiro grande passo viria depois, quando Rodrigo decidiu fazer desta ideia a sua tese de final de curso.

Para se perceber a importância de documentar este património perdido na periferia desse grande mundo que é África, é necessário conhecer a importância que tinham em São Tomé e Príncipe. A organização territorial de todo um país foi feita com base nas roças, que entraram mato adentro para conseguirem chegar a pontos mais distantes da costa. "Eram estruturas muito complexas. Só quem lá vai é que acredita na imponência deste património. E esse é o encantamento das roças. De facto, este modelo é único. Não acreditamos que exista outro país que se tenha desenvolvido com base num modelo de roças como motor de um grande desenvolvimento e que tenha na sua estrutura interna todos estes elementos, das escolas aos hospitais, às pontes e aos portos", conta-nos Duarte.

descolonização O primeiro passo para a degradação deste património começou precisamente aqui, há não mais de 38 anos. Quando os proprietários começaram a desaparecer, as roças foram nacionalizadas. Com o tempo, o Estado deixou de ter meios de manter os trabalhadores e abandonou grande parte delas. "Mas as comunidades continuaram a habitá- -las. E agora está tudo retalhado. As pessoas têm o seu pequeno cantinho com as suas plantações", explica Duarte. E, continua o primo, Rodrigo, "a partir do momento em que uma coisa não é de ninguém ninguém cuida. Ou seja, as roças começaram a entrar em colapso".

"As Roças de São Tomé e Príncipe" é um livro de dois arquitectos com colaboração fotográfica de um fotógrafo/ arquitecto, em que a visão arquitectónica é amparada pela social. Não esqueçamos que foi uma ONG que os trouxe a estas terras. "O objectivo do livro é mostrar a importância cultural das roças e procurar que ao mesmo tempo isso possa ser motor para a regeneração das comunidades que aí vivem em condições de subsistência", explica Duarte.

Mas o outro arquitecto deixa um aviso: "O livro não pretende julgar nada, só alertar e dizer "Isto tem qualidade e isto é vosso e o que fizerem com isto é o vosso futuro". No fundo, quisemos fazer um documento que preservasse a memória e incitasse o público a apaixonar-se pelo património, sejam ou não são-tomenses."

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