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"Morte Súbita". Obituário em cenário público

"Morte Súbita". Obituário em cenário público

27/11/2013 00:00
A tortura e as suas armas, empunhadas pela companhia 33 Ânimos. Em cena a partir de amanhã no palco da Barraca

O mundo morre de um momento para o outro, numa rua pouco movimentada onde ninguém dá por ele, até que alguém recolha o cadáver e passe a esfregona pela história. Crime cometido, corpo escondido, ou o modus operandi da tortura que aqui se escuta como o pingo da torneira. Em palco, poucos adereços, que a violência dispensa grandes acessórios. "Preferi optar por uma estética mais limpa, depurada, já que isto é um espectáculo sobre coisas sujas, violência, sangue. O espectáculo começa com o palco vazio, montamos o cenário à vista do espectador e vamos colocando elementos até à limpeza total. Vamos sujando para limpar novamente", explica Ricardo Cabaça, que assina e encena o texto levado à cena na Barraca a partir de amanhã.

Caixas de choques eléctricos, bastões, bidons de afogamento, paus de arara e uma estrutura sonora movida a estridências assistem esta "Morte Súbita" que vai deixando o seu lastro. "Quem anda a sujar eu sei. E quem tem de limpar também. Partimos das ditaduras de uma forma geral, mais centrado nas da direita, e misturamos espaço e tempo. Sem sabermos bem quando, o Estado vai-nos aniquilando. Mantemos uma ilusão de vida e liberdade, mas infelizmente..."

Sem reticências, tanto estamos nos anos 70 como seguimos para um quadro mais actual. Surgem referências a outros países e os elementos históricos intrometem-se por sugestão, pondo o espectador em permanente trabalho de reflexão. Em vários tempos, num só tempo, em várias dimensões geográficas, estamos entre Portugal e o Brasil do século xx, ao mesmo tempo que se colocam os sistemas políticos actuais num mesmo plano. "Se fosse marcadamente histórico, as pessoas distanciavam-se e não se reconheciam no perigo para que isto no fundo alerta. Se fosse marcadamente actual perdíamos as referências do passado. Chegámos aqui por algum motivo."

Um óbito iminente que é uma reflexão sobre o tempo em que vivemos, o caminho que seguimos e a tortura e as suas formas de legitimação, sem diabolizar ditadores ou endeusar resistentes, sem panfletos que comprometam o imperativo estético e artístico. "São tratados como homens comuns, que bebem café connosco todos os dias no nosso bairro."

As origens deste ensaio alargado fazem--nos recuar até "Gota de Água", espectáculo embrionário desta peça, mostrado no festival de curtas do Primeiros Sintomas. Só aborda um interrogatório da PIDE, ficção que partiu de pesquisa. "Queríamos passar para um espectáculo longo e foi isso que fizemos."

O espectáculo encaixa também a possibilidade de se mudar sem perder unidade, adaptando-se à exportação, um dos objectivos do grupo, saído da confluência de caminhos muito distintos. "Há uma base de amizade e confiança. Pretendemos que ao longo dos anos a companhia permita que todos façam experiências. Apresentem textos, encenem. E não ficarmos dentro de casa, pensar na internacionalização."

No final de 2011, Ricardo formou a 33 Ânimos com a mulher, a brasileira Daniela Rosado, uma das actrizes em palco, ao lado de Ana Vilela da Costa, que se vai dividindo entre a performance e o trabalho com diferentes companhias; de Fernando Serpa, que há dez anos não fazia as vezes de actor, apesar da ligação ao teatro ao leme de outras funções; e de Ulisses Ceia, experimentado na comédia e no teatro infanto-juvenil.

Compete a este quarteto cruzar as histórias da história e aguardar os incentivos que chegam ao Zarpante, site de crowdfunding, onde se apresentam como o primeiro projecto de teatro em Portugal a recorrer a esta forma de financiamento.

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