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José A. Salvador. O que faz falta é redescobrir Zeca Afonso

José A. Salvador. O que faz falta é redescobrir Zeca Afonso

23/04/2014 00:00
Um dos poucos jornalistas que Zeca Afonso não repudiava lança a segunda versão de uma biografia que saiu em 1984, agora com documentos inéditos e histórias que ficaram por contar. Tudo em jeito de celebração dos 40 anos de Abril e dos 50 de "Grândola, Vil

Em Novembro de 1968, Coimbra começava a rebentar sob a égide das capas e das batinas. O negro invadia a Tomada da Bastilha, festa de contestação estudantil que reivindicava eleições académicas de igual forma que trazia Zeca Afonso para uma plateia de 3 mil estudantes. José A. Salvador era um desses dirigentes que fizeram silêncio para ouvir "o último dos dinossauros", como um repórter do "Libération" diria mais tarde, em Novembro de 1981 - título que o cantautor português não apreciou. De resto, a sua queda para modificar títulos já vem desta primeira versão em 1984. "Quando falámos sobre o título o Zeca disse-me para lhe chamarmos "Livra-te do Medo", porque, segundo ele, toda a sua vida andou a enfrentá-lo", recorda José A. Salvador. As efemérides são essenciais nesta conta. Trinta anos depois da primeira versão, as novidades são sobretudo três: um retrato distinto de Zeca Afonso baseado na sua biblioteca pessoal; um texto sobre a perseguição que a PIDE manteve ao cantor durante 16 anos (1958-74); e ainda um capítulo que revela a perseguição que sofreu nos meios de comunicação social antes e depois da Revolução dos Cravos. Quarenta anos depois do 25 de Abril e 50 anos após a viagem que levou José Afonso a cantar na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense - inspiração que serviu a música que trouxe a liberdade.

de coimbra à troika Zeca Afonso não enfrentou o medo sozinho, isto é, quase nos obrigou a lutar também, deu-nos armas com tiros simbólicos. Coisa que se manifesta desde muito cedo na sua carreira. "A obra poética e musical do Zeca Afonso, do meu ponto de vista, desdobra-se em três períodos. Primeiro são os fados tradicionais de Coimbra e que revelaram sobretudo a sua voz, fantástica, por sinal. Depois há o "Menino do Bairro Negro", cantiga que ele desenvolve após ter visto toda a pobreza da Ribeira do Porto. É aí que surge a canção de intervenção. Segue-se um tipo de canção mais politizada com "Os Vampiros", eles comem tudo... que hoje está na ordem do dia, acho que a troika adoraria ouvir esta canção traduzida em inglês. Todas estas fases e sobretudo a partir do "Menino do Bairro Negro" ensinaram-nos a olhar a realidade à nossa volta e a resistir, combatendo o medo", confirma.

"Se achares que o que digo não tem interesse, não faças o livro" Frase de Zeca Afonso para José A. Salvador que surgiu inúmeras vezes durante as seis horas de entrevista que serviram de base à edição de 84 e que agora chegam também aprofundadas, pela recuperação do discurso de Zeca Afonso. Apenas um dos traços passíveis de ser entendidos da sua personalidade. "Sim, ele disse-o mais de uma vez. Isso é algo que está relacionado com a postura do Zeca Afonso perante a sua própria obra. Ele nunca ficava contente, a malta dizia-lhe que aquilo era tudo bonito e ele negava sempre, embora elogiasse os músicos que o acompanhavam nos projectos. Se havia alguma coisa errada, a culpa era dele", recorda o autor do livro. Antes de acrescentar: "O que mais me impressionava no Zeca era a sua grande ironia em relação à vida, na forma de estar, no discurso. Ele ria-se de tudo, até da sua própria doença. Ao mesmo tempo era um homem profundamente tímido, muito sensível e lúcido", garante.

pastorícia na arrábida Em Maio de 1983 a esclerose lateral amiotrófica já era uma certeza no rosto de Zeca Afonso. Foi até Novembro desse mesmo ano que decorreram as várias sessões de entrevista/conversa entre ambos, na casa de Zeca e de Zélia (sua mulher) em Vila Nogueira de Azeitão. Mas nem sempre o gravador estava ligado, havia tempo para tudo, ao ritmo de José Afonso, pois claro. "Ele ia muitas vezes à Arrábida. Ia ver o ti Zé Pastor, que dizia que era o grande filósofo que existia. É preciso ver que o Zeca tinha uma grande relação física com a terra e gostava muito de passear por lá. Lembro-me de numa dessas vezes o ti Zé Pastor lhe pedir para ele trazer uma varina de Setúbal, ao que o Zeca respondeu: "Eh, pá, isso já é mais complicado." Conversavam sobre filosofias que eu nem sequer entendia", diz o jornalista, que fala ainda da vontade de Zeca Afonso de ir viver para a região, sem gira-discos, imagine-se. "Sim, é verdade, conto isso no livro. Esses seus desabafos eram sentidos, mas acabaram por nunca se realizar. A falta de aparelhos para ouvir música não seria um grande problema, ele não era grande ouvinte. Só se fosse jazz, uma vez pediu-me um disco do Don Cherry, e alguma música do cancioneiro popular. Mas ele era sobretudo um leitor compulsivo", comenta.

cancioneiros criativos Falou-se do cancioneiro popular na altura certa. Aproveitamos a deixa para pôr José A. Salvador à vontade para nos contar a importância que este teve na sua carreira, assim como outras inspirações.

"O cancioneiro popular é muito importante na carreira do Zeca. O "Canta Camarada", que hoje muitos confundem com um hino do Partido Comunista, foi gravado pelo Zeca Afonso em 1969, repito a data, 1969. Encontrou-a nos contrabandistas da Beira Baixa que usavam esta expressão para comunicarem entre si que a GNR estava por perto. Outro exemplo é uma canção que quase ninguém conhece e que se chama "Oh! Que calma vai caindo", que é uma cantiga da Beira Baixa que, quando José Afonso andava nas suas investigações no terreno, uma velhota ceifeira do Rio Pônsul lhe cantou."

Avançamos para o processo criativo de um génio desta dimensão, que, curiosamente, não sabia escrever em pauta. "Quando esteve preso em Caxias e dirigiu um requerimento a pedir um gravador, fê-lo porque não sabia escrever música em pauta. Ele trauteava as músicas para o gravador e depois, juntamente com a ajuda dos amigos, é que aquilo se tornava escrita musical. Era muito aquele cantarolar intuitivo e instintivo, se bem que por vezes também pegasse na guitarra. Por outro lado, não podemos esquecer que o Zeca era muito amigo do Giacometti, que visitava regularmente. Assim como leu e ouviu Lopes Graça, são pessoas que o formaram e o inspiraram imenso."

animar a malta Bem sabemos como é ingrato fazer suposições sobre alguém que já morreu, mas é um pedido a que José A. Salvador não se importa de corresponder. "Não sei ao certo quem seria Zeca Afonso, que visão teria do mundo e que música faria, sei que já na altura falava do imperialismo alemão através do domínio económico. Acho que cantaria "Os Vampiros", perante o que se passa hoje é uma música com muita actualidade, sem dúvida. E talvez também importasse dizer que "o que faz falta é animar a malta". Faz falta a malta juntar-se para quebrar esta invasão financeira, isto só lá vai resistindo e pondo o ocupante fora. Não sei como é que se faz, não tenho nenhuma receita, mas cantar o Zeca Afonso era capaz de ajudar."

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