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A turma dos alfaiates africanos

A turma dos alfaiates africanos

18/04/2014 00:00
Desde 2011 que o curso para alfaiates africanos da Modatex, em Lisboa, ajuda imigrantes a ganharem formação na área em que trabalham desde pequenos. Alguns conseguem legalizar-se no país graças ao curso e até abrem os seus próprios ateliês

"Isto é que são horas de chegar? Os seus colegas já estão quase a acabar de fazer o casaco." Desculpe? Sem saber ler nem coser, levamos uma reprimenda de um professor assim que abrimos a porta da Modatex - Centro de Formação Profissional da Indústria Têxtil, Vestuário, Confecção e Lanifícios (uff, nome comprido), de mochila às costas. O único casaco que temos ali está na mão, é Made in China e a situação é demasiado constrangedora para tentar esboçar qualquer justificação. Decidimos avançar sala adentro de cabeça baixa sem saber bem para onde - talvez para a última fila, como nos tempos da escola. É aí, no fundo da sala, que avistamos a nossa turma por entre imponentes máquinas de coser e outros instrumentos que nem sabemos o nome: a turma dos alfaiates africanos.

Não que fosse difícil descobri-la. Muito menos identificar os trabalhos do período lectivo passado, com vestidos coloridos de padrões africanos em manequins espalhados pela sala. Este ano, a turma do curso de alfaiates africanos tem nove alunos - sim, nove, agora que Fodédabo saiu do hospital.

"No início pensei que ele tinha desistido do curso, só depois é que soube que tinha sido hospitalizado", confessa Elisa Carvalho, professora de costura, que trabalha "nisto" há 30 anos. Nisto, na costura. Já teve um ateliê, uma loja e há dois anos que dá aulas de "Modista de ateliê", "Costura 1" e "Costura 2" na escola Modatex, em Benfica. Ela própria já pensou em desistir de dar aulas de "costura, modelagem e corte" ao curso para alfaiates africanos. Mas mudou de ideias.

"No início foi um pouco complicado", desabafa. "Por norma gosto de sentir o aluno quando dou formação, de perceber o que lhe vai na cabeça e no início tive dificuldades. A linguagem, a adaptação deles... Sou muito exigente e isso criava-lhes stresse. Quando acabava a aula ia sempre muito exausta para casa."

As dificuldades foram superadas com a típica conversa de professora: "Estou a dar o meu melhor, dêem o vosso também." Resultou.

LEMBRAM-SE POUCO DELES Aboubacar Mané, 36 anos, diz que na turma de nove imigrantes oriundos da África Ocidental "ninguém vai para casa com dúvidas". "Nunca na vida pensei que ia ter uma professora assim com essa vontade", afirma o guineense a viver em Portugal desde 2007. "Ela fez-me ver que vou chegar lá. É só uma questão de tempo, mas vou chegar lá."

Aboubacar aprendeu a costurar em casa com a mãe quando era pequeno. "O meu sonho era ter um ateliê, fazer roupas para as pessoas. Gosto de fazer tudo, desde roupa para crianças a roupa para deficientes... Os alfaiates lembram-se pouco deles."

Quando chegou a Portugal não arranjou trabalho na área da costura e teve de se orientar de outra maneira. "Trabalhei como condutor e depois trabalhei numa fábrica. Mas gosto mesmo é de costurar." Um amigo falou-lhe do curso da Modatex, que existe desde Novembro de 2011, e Aboubacar decidiu tentar a sua sorte. Entrou. "Depois inscrevi-me noutro aqui também na escola para aperfeiçoar o meu trabalho. Passo aqui o dia inteiro."

Não trabalha mas, tal como os outros alunos, recebe um "subsídio de alimentação" e o "passe" de transportes públicos. "Se não recebesse esse dinheiro viria na mesma ao curso mas com muita dificuldade. Moro em Rio de Mouro."

CASACO Na aula de hoje o tema é "casaco". Outra coisa não seria de esperar. No período passado a turma já criou um vestido e Aboubacar inspirou-se "nos anos 60, com um tecido africano". Para o casaco decidiu apostar num "modelo mais clássico" e usar "tecido europeu". "Mesmo assim quero pôr qualquer coisa de africano no casaco."

Fodédabo, também da Guiné Bissau e de 46 anos, está a ter mais dificuldades com o casaco. "Lá em África não fazemos casacos. Só roupa de homem e senhora, tipo túnica", explica o alfaiate que começou a trabalhar aos 10 anos na loja do tio. "Em África é muito diferente, não trabalhamos com módulos nem com as medidas exactas. Tiramos a medida a olho e com este trabalho ganho muita experiência. Para fazer bom trabalho tem de haver um bom acabamento de roupa."

CARNAVAL O guineense esteve há pouco tempo internado no hospital e aliás é por causa de problemas de saúde que está em Portugal. "Vim para aqui para fazer tratamento ao estômago", conta. "Tenho uma loja na Guiné e são os filhos e os ajudantes que fazem o meu trabalho lá."

Em Lisboa, e quando não está no curso, trabalha na loja do cunhado na Rua do Benformoso, no Intendente. "Eu faço as roupas e ele vende. Temos clientes africanos e clientes brancos. Por exemplo, no Carnaval vendemos umas cinco ou seis peças. Também tenho uma máquina e costumo fazer em casa."

Por falar em máquinas, foi com elas que Aboubacar teve mais dificuldades. "Nunca na vida usei essas máquinas. A minha mãe tinha aquelas máquinas de casa e isso foi o mais complicado. Pelo menos durante uma semana, agora já aprendi muitas coisas, já superei essa fase."

NA RUA O curso de formação para alfaiates africanos foi uma ideia da designer de moda Sofia Vilarinho. A propósito do doutoramento que está a fazer sobre a capulana de Moçambique, viajou para Maputo e percebeu que "os alfaiates são importantes agentes na produção de moda africana". "Produzem muito moda diária para um cliente normal, mas também são eles a mão de obra dos estilistas", conta.

Quando esteve em África, percebeu que a moda lá acontece "na rua". "É feita ali, no momento, com outro ritmo e não à porta fechada como na nossa sociedade", explica. "Mesmo assim em condições muito limitativas em termos de electricidade, em mercados ao ar livre ou em alpendres."

Quando chegou a Lisboa decidiu ir à procura de outros alfaiates africanos com ateliês para perceber que condições de trabalho tinham comparativamente com África. "Com a ajuda de outro alfaiate encontrei alguns a trabalhar nas zonas mais periféricas da cidade e eles próprios me abordaram com necessidade de formação. São pessoas que vêm para a Europa para trabalhar na área e para se formarem, mas há poucos que conseguem e acabam por trabalhar na construção civil."

LEGALIZAÇÃO NO PAÍS Sofia juntou um grupo de doze alfaiates nestas condições e propôs um curso à Modatex. Para que os alfaiates o pudessem frequentar conseguiu um "pequeno apoio de uma bolsa de formação", vindo de "financiamento público".

O primeiro curso começou em Novembro de 2011 e dos 12 alfaiates ficaram oito. "Alguns tiveram de desistir e emigrar. Um da Gâmbia regressou para o Luxemburgo e um ano depois perguntou-me se podia voltar. Está aqui agora."

O curso piloto teve uma série de ajustes, com aulas três vezes por semana e quase sempre ao fim da tarde - até porque a maior parte trabalha durante o dia. Desde então tem funcionado todos os anos com turmas novas. "Possibilita-lhes que tenham um certificado numa série de áreas, desde o desenho, à modelagem, ao corte e costura e à modelagem." A muitos deles também lhes permite ter "legalização no país", adianta Sofia.

EMPIRISMO A designer que criou o curso também tem aprendido com o "empirismo africano". "Há muito saber que eles têm ao nível dos tecidos que me interessa e dialogamos muito sobre os lados estéticos. Eles são muito viajados, falam várias línguas. Aliás, os alfaiates são muito camaleónicos, adaptam-se às várias sociedades."

No final do ano lectivo, as peças criados pelos alunos são apresentadas ao público numa exposição da Modatex. Depois disso, alguns deles continuam a formação na escola e outros abrem os próprios ateliês. "O Dabo, por exemplo, abriu um espaço dele no Martim Moniz."

Num futuro próximo, o objectivo é que depois da formação alguns alfaiates fiquem a trabalhar com Sofia num ateliê, o Ateliê Alfaiates Africanos, que já tem página de Facebook embora ainda não tenha um espaço físico. "A ideia é formar uma cooperativa com os [alfaiates] que estão a trabalhar", explica. "Primeiro passam a formação e depois entram no ateliê. Queremos abrir mercado para outros designers que queiram esta mão de obra ou, por exemplo, para o teatro, ou para fazer modelos próprios."

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