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Serra da Estrela. De sanatório a Pousada de Portugal

Serra da Estrela. De sanatório a Pousada de Portugal

14/04/2014 00:00

Pode uma casa assombrada ser um hotel de luxo? Rosa Ramos foi conhecer a nova Pousada da Serra da Estrela e não viu fantasmas. A única experiência aterradora foi fechar as janelas antes de dormir: a vista nocturna é memorável.António Pedro Santos gostou tanto que acordou às seis para fotografar o nascer do sol

Cottinelli Telmo acabou por se tornar num dos mais importantes nomes da arquitectura portuguesa, mas na década de 1920 não passava de um jovem arquitecto. Promissor, mas sem provas dadas. Mesmo assim, quando recebeu da CP a encomenda de um grande sanatório para internar trabalhadores tuberculosos na Serra da Estrela, fincou pé: mais do que um hospital, era preciso construir uma espécie de estância de montanha com todos os luxos que, na altura, a empresa podia pagar. Poucos anos depois, em 1944, era então inaugurado, na Porta dos Hermínios, a 1300 metros de altitude, um grande hospital-hotel, considerado um dos maiores e mais notáveis edifícios da Península Ibérica.

Os últimos doentes, esperançados na cura natural pelos ares da serra, saíram do imponente sanatório há já 45 anos. Depois disso, o edifício ainda serviu para acolher centenas de retornados das ex-colónias - que chegaram à Covilhã de comboio em Março de 1976, no meio de um grande nevão e enganados por falsas promessas de que ficariam alojados na cidade e num hotel de três estrelas. Na década de 1980 e já à beira da ruína, ainda se fizeram na Porta dos Hermínios os bailes do Carnaval da Neve, organizados pela caprichosa elite industrial covilhanense, que começava a acusar a decadência do negócio das fábricas. Quando se fecharam os panos das festas, o sanatório teve o mesmo destino que a maioria das unidades fabris da cidade, entretanto falidas: o abandono.

Nos últimos 25 anos, e quase em jeito de vingança, a grande casa de montanha apropriou-se da paisagem. As ruínas fundaram raízes e construíram um carisma próprio. O sanatório ganhou fama de assombrado, tornou-se pesado e sombrio, sobreviveu aos invernos rigorosos da Estrela e a milhares de grafittis e inscrições anónimas nas paredes. Transformou-se numa espécie de monumento à ruína. Foram precisos mais de 15 anos para reabilitar a saúde do grande hospital ferroviário. O processo de reconversão em hotel de luxo conheceu, desde 1998, mais recuos do que avanços. De tal forma que quando o arquitecto Souto Moura apresentou o projecto, patrocinado pela Enatur, poucos acreditaram que algum dia avançasse. Mas a Pousada da Serra da Estrela abriu no primeiro dia deste mês.

A Pousada. É possível transformar um sanatório com fama de assombrado em hotel de luxo? É. E sem renegar o passado. Entre 1953 e 1967, morreram no Sanatório das Penhas da Saúde mais de uma centena de doentes. Durante décadas, desfilaram aos olhos dos médicos filas intermináveis de tuberculosos, a maioria já com lesões bilaterais, demasiado magros e demasiado pálidos, a precisar uma largo período de sanatorização.

A imagem não é propriamente apetecível para quem procura tempo de descanso um hotel de qualidade superior. Mesmo assim, o Grupo Pestana não teve qualquer pudor em recuperar o passado. O arquitecto Souto Moura manteve todos os traços do projecto do início do século passado: a fachada é a mesma, recuperaram-se as cores originais do edifício (o ocre e o azul) e até a estrutura funcional do hotel é semelhante à do sanatório. Os dois grandes salões principais do piso nobre foram transformados em bar e restaurante - com mobiliário e decoração de época -, nas paredes há quadros com imagens das décadas de 1950 e 1960 e nos 92 quartos a decoração é sóbria, clássica e convidativa a uma viagem ao passado.

A Pousada, integrada na categoria de Histórica, assume a história sem complexos, mas reinventa-a: o piso térreo, onde funcionavam as zonas de apoio, a morgue e os laboratórios de análises, foi transformado num centro de bem-estar com piscina, sauna, banho turco, espaços de massagem e quartos SPA. Se antigamente a cura era do corpo, agora é do espírito. Mas o melhor de tudo é mesmo a vista, a 1300 metros de altitude. O edifício de Souto Moura é uma varanda gigante com localização privilegiada. Poucos hotéis em Portugal se podem gabar de oferecer um espectáculo assim: das janelas dos quartos avistam-se as serranias espanholas até à linha do horizonte e a Cova da Beira, de Belmonte à Serra da Gardunha. A vista ganha ainda maior dimensão à noite, com centenas de fios de luzes desordenados. Apesar da beleza natural, o turismo na Serra da Estrela padeceu sempre de muitos males. A começar pela comida servida na maioria dos hotéis, muito inferior ao que seria de esperar numa região com uma tradição gastronómica tão rica. Neste ponto, a nova Pousada é uma espécie de oásis na Serra da Estrela, com o restaurante a posicionar-se como um sério candidato a um dos melhores da região. Não se esqueça de provar o cabrito assado no forno e o pudim de requeijão e sésamo sob cascata de doce de abóbora e amêndoa.

A história. Bastou uma noite na Pousada da Serra da Estrela para apagar toda e qualquer memória de décadas de histórias de assombrações e de mortes inesperadas. O anteprojecto de Cottinelli Telmo ficou concluído em 1927 e foi imediatamente aprovado. O lançamento da primeira pedra, que marcou o início das obras, aconteceu só em 1930. Seis anos depois ficava concluída a construção do hospital, inteiramente custeada pela CP, que arrendou o edifício à Sociedade Portuguesa de Sanatórios, que ficou com a obrigação de receber todos os doentes que precisavam de tratamento de altitude que a CP entendesse mandar internar. Depois de pronto, o edifício esteve fechado oito anos. Não se sabe ao certo porquê. Todos os documentos oficiais consultados pelo i fazem apenas referência a "circunstâncias alheias à CP".

Só em 1944, a 11 de Novembro, ocorreu a inauguração. Abriam-se assim as portas daquele que era o melhor Sanatório da Península Ibérica e que oferecia conforto - tendo em vista, antes de mais, o bem-estar dos doentes. É por isso que as dimensões gigantescas do edifício estavam em aparente desacordo com a sua capacidade originária de apenas 170 doentes. O edifício tinha duas alas distintas, destinadas a duas classes de trabalhadores diferentes; os doentes menos favorecidos não tinham acesso a algumas divisões, destinadas às classes altas. Oito anos depois, em 1952 e devido às condições económicas precárias da Sociedade Portuguesa de Sanatórios e da própria CP, o edifício passou para o Estado. O Sanatório da Covilhã passou a ser gerido pelo Instituto de Assistência Nacional aos Tuberculosos (IANT) que, a partir de 1953, mandou internar doentes de classes baixas no edifício.

Só que o monumental sanatório, construído de molde a atender doentes ricos, oferecia vários inconvenientes no alojamento massificado de tuberculosos. A começar pela capacidade, que teve de ser aumentada para 284 camas. Na altura, havia mais de 1100 doentes a aguardar o internamento nos 11 sanatórios que o Estado detinha em todo o país. O da Serra da Estrela era o que apresentava melhores resultados na cura, culpa da altitude e do ar puro.

O tempo médio de permanência no sanatório era de oito meses e meio e quem saía levava um rótulo na bagagem: curado, melhorado, piorado ou estacionário. Havia também quem não chegasse a sair. Entre 1953 e 1967, dos 4264 doentes internados, 1252 ficaram curados, 1964 melhorados, 1608 estacionários, 149 piorados e 101 morreram. A disciplina era férrea, até para assegurar que o risco de contágio fosse mínimo. Existiam cantinas separadas e nada se cruzava: a roupa e as refeições dos doentes subiam e desciam dos quartos através de pequenos e modernos elevadores. Tudo o que sobrava era queimado num forno crematório, com formol e a altas temperaturas.

Graças à quimioterapia antituberculosa, começou a prevalecer o tratamento ambulatório e os sanatórios, geralmente afastados dos grandes centros, dispendiosos e pouco rentáveis, iam perdendo a razão de existirem, tal como a própria cura natural. Muitos sanatórios foram adaptados ao tratamento de outras doenças ou simplesmente encerrados, como foi o caso do Sanatório das Penhas da Saúde, em 1970, por ordem do Ministro da Saúde e Assistência.

O abrigo dos Hermínios. A seguir ao 25 de Abril, o edifício serviu de albergue a retornados das antigas colónias. Aproveitou-se a estrutura, mas mudou-se o nome: o sanatório passou a chamar-se "Abrigo dos Hermínios". Só de Angola, em Março de 1976, chegaram 800 retornados, recebidos na primeira noite por um grande nevão. O Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais (IARN) tinha-lhes prometido que ficariam instalados num hotel de três estrelas na cidade da Covilhã. Mas foram enganados: afinal a casa nova era um hospital desactivado e isolado no meio da serra, o que dificultava a procura de emprego. À medida que iam resolvendo a vida, os retornados abandonavam o edifício. Muitos mudaram-se para a cidade e foram ficando na Covilhã.

No início da década de 1980, o edifício ainda era propriedade do Ministério da Saúde e serviu para fazer as grandiosas festas dos Carnavais da Neve e receber os Encontros Nacionais de Motards organizados pelos Lobos da Neve. Desde 1992 e até ao ano passado, a última tripulação do sanatório fazia-se notar pelos grafittis nas paredes, enquanto o poder político discutia o destino a dar ao edifício. Em 1998, foi vendido por um escudo à Empresa Nacional de Turismo, com a contrapartida de que a ENATUR o transformasse num hotel. A cerimónia foi apadrinhada pelo então primeiro-ministro, António Guterres. O projecto nunca avançou e o sanatório regressou às mãos da Turistrela, a empresa que concessiona o turismo na Serra da Estrela. A reconversão foi encomendada ao arquitecto portuense Souto Moura em 2004, que cobrou um milhão de euros pelo projecto - que, entretanto, teve de ser reformulado por a sua execução ter sido considerada demasiado dispendiosa.

Actualmente, o edifício pertence à Turistrela, que cedeu a exploração à Enatur (de que o Grupo Pestana é accionista) pelo prazo de 30 anos. A obra foi adjudicada há dois anos à Soares da Costa, por 13 milhões e meio de euros. A Pousada da Serra da Estrela representa um investimento global de mais de 19,5 milhões de euros, financiados a 70% por fundos comunitários.

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