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Paulo Gonzo. "Se não cantar o "Jardins Proibidos", as pessoas crucificam-me"

Paulo Gonzo. "Se não cantar o "Jardins Proibidos", as pessoas crucificam-me"

09/12/2013 00:00
"Avós e miúdos com chucha", todos cantam este e outros sucessos. Com mais de meio milhão de discos vendidos, lança um álbum de duetos

Podia ter tido "a vida estragada" se não tivesse fugido das aulas da velha professora de música. Tempos distantes em que os testes ainda seriam assinados como Alberto Paulo, o verdadeiro nome do músico que "até para levantar coisas na alfândega" assina como Gonzo, o mesmo que decidiu cortar o cabelo depois de fazer um cruzeiro cheio de cabeleireiras. "Duetos" é uma volta ao mundo com a participação de Ana Carolina, Anselmo Ralph, Jorge Palma, Mario Biondi, Matias Damásio, Carlos Rivera, Tammy Payne, Fafá de Belém, Tito Paris, Rui Reininho, Bernardo Sassetti e India Martínez.

Há um blogue de um fã que lhe chama Tom Jones português.

Eu? Nunca tal ouvi falar. É a primeira vez que me chamam Tom Jones português. Mas porquê?

Presumo que seja um elogio.

Claro. Talvez pelo registo vocal, ou pela projecção. Ele há coisas... Nunca me tinha ocorrido. Por acaso, é uma boa referência. Já me chamaram vilão, tipo herói de banda desenhada, talvez pelo cabelo.

Quando é que o cortou?

Há quantos anos, não me lembro. Já estava a ficar um bocado farto. Há uns anos, num cruzeiro da L"Oréal com 500 cabeleiras, achei por bem pedir ajuda.

Cortou o cabelo a bordo?

Isto já foi fora do barco. Lá dentro, não arrisquei. Tive um receio idiota. Primeiro foi pente três, depois pente dois. Apeteceu-me. Vim de lá cheio de loções e cremes.

Faz 30 anos de carreira a solo para o ano. Porquê um álbum de duetos?

Pensei nos duetos, mas depois parte-se para aquela ideia de que um músico que não tem nada para reinventar faz duetos. Não era isso que queria. Queria fazer algo que não tivesse feito antes. Não gosto de me repetir muito. A seguir aos Coliseus, pensei nisso. Tinha feito um dueto com a India Martínez, que me soube muito bem, e tinha convidado também alguns músicos do Jorge Palma, com quem nunca tinha gravado nada voz com voz. Não queria morrer sem ter gravado com o Jorge Palma. Fiz um arranjo para o "Só", que tínhamos gravado há 20 anos, e decidi recuperar essa canção. O Paulo Junqueiro, presidente da Sony, não me pôs entraves nenhuns. Fomos tacteando o que me apetecia fazer e as coisas sucederam-se.

Não é necessariamente mais fácil que um disco de originais?

Não, aí controlo eu tudo, o espaço para arranjos. Aqui peguei em canções nas quais fiz arranjos novos. Tinha de as enviar sempre aos intervenientes para dizerem se gostavam ou não. Apetecia--me fazer Angola, Brasil, México, Itália, Espanha, Cabo Verde e Portugal. Queria saber como ia descalçar esta bota. São pessoas totalmente diferentes. Não me saí mal, com grande alegria minha. Sou grande fã do Mario Biondi. Se calhar, há dez anos achava-se estranho um italiano a cantar assim, como, se calhar, em 86 achavam estranho que eu cantasse o "So do I". O pedido veio de Itália. Ele adorou a interpretação. A nossa escola é um bocado a mesma. Ele tem uma voz meio barrywhitiana. A Ana Carolina moldou--se à minha voz. Foi genial, envolveu-se imenso.

De onde vem a sua voz?

Não vem de lado nenhum. Sou um bocado autodidacta. Aliás, a minha carteira profissional na Go Graal Blues Band dizia "instrumentista de harmónica diatónica e cromática". É uma invenção da minha parte. Não sei cantar. Ainda faltará muito tempo. Não sei, há pessoas que têm uma voz fina.

Já era assim no tempo da escola António Arroio?

Não teria essa voz, mas por acaso ouço coisas de há muitos anos e fico um pouco impressionado. Já se cantava um pouquinho bem. À medida que se cresce, a voz vai ficando mais grave. A música não é mais que um exercício de estilo. As pessoas vão-se moldando em função das armas que têm. Acho que se vai tendo mais calma, mais experiência, vamos iluminando o que interessa, o que nos sai melhor. Dantes queríamos meter tudo dentro da música, mas aquilo não sabia a nada. Neste momento, o difícil é conseguir o silêncio numa música. Não sei como explicar isso.

Se não tivesse substituído um vocalista por acaso num dos primeiros concertos, que andaria hoje a fazer?

No Coliseu? Pois foi. O José Carlos Cruzeiro ficava muito enervado e andava com um frasco de mel e uma colher. Não estava previsto eu cantar. Eu acabei por assumir aquilo. Lá apareceu Paulo Gonzo não sei quê na página do "Se7e". A Go Graal lá começou. E depois vieram os ciúmes, e quando aparece uma miúda no meio... é um caso recorrente. O mercado é pequenino e, de repente, há um tipo que decide fazer um disco a solo. Avisei-os, mas passei um bocado por traidor.

Mais pela carreira a solo ou pela miúda?

Não, não era esse o ponto mais importante, mas uma miúda no meio não dava muito jeito. Avisei que tinha uma proposta para gravar o "So do I". Claro que todos disseram muito bem, mas... Aquilo foi um sucesso estrondoso, o que não era expectável com uma canção em inglês. Mas era bem cantada para a altura. As pessoas não conheciam Paulo Gonzo, mas imediatamente fui catapultado para uma zona mediática de que não estava à espera. Acabei por arcar com as consequências disso. Ainda fizemos mais um disco na Go Graal e depois era inevitável a minha saída. Assinei pela CBS, que deu origem à Sony. Tínhamos ido antes como Go Graal e não estavam interessados. Passado um ano, estavam interessados em mim... até a mim me caiu mal.

Na música, sempre foi o Paulo Gonzo ou chegou a ser o Alberto Paulo?

Nunca. Nem a minha mãe me chama Alberto. Eu próprio me esqueço do meu nome. Até levanto coisas na alfândega como Paulo Gonzo. Há coisas em que não o faço, mas até nos bilhetes das viagens, às vezes, escrevem Paulo Gonzo. Alberto é nome de príncipe. Nunca uso. Só para assinar papéis nas finanças, e até aí aceitam.

A sua mãe costuma ir aos concertos?

Não. Foi uma vez ou duas, mas não. Agora muito menos, mas sabe sempre o que se passa. É fã e canta. Gosta de música.

Andou sempre de volta da música?

Fiz muita coisa. Passava a vida a fugir de casa. Ia para França fazer coisas. Devia ter uns 19. Era um tipo curioso. As pessoas eram menos acomodadas. Esta nova geração nem sabe o que é o terreno. Íamos de comboio, sem dinheiro, e aprendia-se muito mais.

Os concertos acabam por ser um momento de reunião?

Aí é óptimo, porque os miúdos vão todos. É uma espécie de ponto de partida para tudo. Dantes evitávamos a Música, a Religião e Moral e a Ginástica, porque não contavam para nota. Eu, hoje, podia ter a minha vida estragada se não tivesse fugido das aulas de Música porque a professora batia-nos com uma régua. Era velha, feia e tinha um cravo de pedal. Hoje é precisamente o contrário. A música ajuda a complementar o sucesso nas outras áreas. Depois é que fui para a António Arroio, porque era a primeira escola mista. Foi uma alegria. Passa-se a ser um artista. Cheguei a representar os alunos. Esta capacidade de poder ter feito coisas, este arriscar, no passado, dá--nos calo. Hoje podia fazer rádio, dar aulas, sei lá.

Tem quase meio milhão de discos vendidos. Qual a receita do sucesso?

Mais de meio milhão, com certeza. Para mim, é um elogio. O sucesso, não percebi. O "Jardins Proibidos" nem sequer era aquela música que achava que iria vender. Começa por haver indícios com o "So do I", mas ainda não tinha a carreira esclarecida. Não havia grande preocupação com estudos de mercado. Passei de uma coisa quase artesanal para uma indústria que tem de ganhar dinheiro. Tive de começar a auscultar o mercado. A partir de certa altura, percebi como se faz uma canção que possa eventualmente ter sucesso. Há regras técnicas, como a duração. Os processos têm de ser objectivos. Nem sempre se vende por causa de um refrão.

É. como se diz na gíria, "tocar ao sentimento"?

É, é, as pessoas têm de ouvir. Temos de dar às pessoas aquilo que elas querem. O "Jardins" nem era para existir. É do primeiro disco em português que fiz, e reconheço que ficou aquém tecnicamente. Aparece quatro dias antes de fechar o disco e só tem sucesso uns seis anos depois, quando fiz a primeira parte da Tina Turner. A novela veio muito depois, quando já era conhecida por 9 milhões de pessoas, tal como o "Quase Tudo". Por acaso, tive um clique e deu-me para cantar o "Jardins" nesse concerto. De repente vejo milhares de pessoas com isqueiros a cantar aquilo. No dia a seguir, o presidente da Sony ligou-me e combinaram-se mais umas músicas. O Olavo Bilac disse que sim a um dueto às cinco da manhã, à porta de uma discoteca [risos]. Entretanto fiquei com uma cruz às costas.

Continuam a pedir-lhe o "Jardins Proibidos"?

Se eu não cantar a música, as pessoas crucificam-me. E assim há-de ser. Tive a sorte de fazer aquela música. Há ali um fenómeno que até hoje não consigo explicar, mas tenho avós e miúdos com chucha a cantar aquilo. A canção vai sendo passada. Não tem tempo nem fim. À medida que se vai crescendo, sei que a minha responsabilidade é vender discos. Faço músicas para mim, mas as pessoas esperam que faça músicas também para elas. As minhas músicas estão no melhor e pior das vidas das pessoas.

Recorda algum concerto especial do tempo em que se demorava muito mais tempo na estrada?

Demorava 12 horas a chegar a Mirandela, mas eram tempos engraçados. Actuávamos em tractores, atrelados. Conheço o terreno. Vou aos sítios todos onde os músicos vão. Apesar das calamidades que há, com o país vergado pela recessão, toco em sítios onde as pessoas vão aos espectáculos. Não se fica indiferente a isso. Ponho o que faço nas mãos do povo.

Disse uma vez em entrevista que tinha substituído as drogas pelo vinho, pela cerveja e pelo... frango assado?

Eu não disse isso. Naquela altura não havia drogas, havia era frango assado. Fazíamos os bailes de finalistas, um circuito enorme. Só havia frangos para comer e vinho tinto, mas pronto, as coisas evoluíram. Gosto de comer bem, de rir, de andar a cavalo, de tomar um gin ao fim da tarde.

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