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My Farm. Neste Farmville, os legumes saem do ecrã directamente para a mesa

My Farm. Neste Farmville, os legumes saem do ecrã directamente para a mesa

11/07/2014 00:00
Baseada no jogo Farmville, a empresa My Farm permite gerir hortas reais à distância, escolher as sementes, acompanhar o crescimento e, no fim, receber os produtos em casa. Tudo sem químicos

João Duarte fala dos seus produtos com o paternalismo de quem os segue desde que eram semente. "Aprendi a trabalhar a terra com os meus avós e foi deles que herdei este gosto", conta ao i o agricultor, enquanto levanta do chão uma das muitas joaninhas que enchem a horta, "a prova de que estes produtos são bons", garante.

Aos 38 anos, o agricultor decidiu mudar a forma de fazer render o espaço de 3 mil metros quadrados no qual trabalha em Aruil, no concelho de Sintra. Com o objectivo de se dedicar a uma agricultura mais tradicional, tornou-se um dos utilizadores do programa My Farm, trabalhando para clientes que seguem o crescimento dos produtos de forma virtual.

O sucesso do jogo Farmville em Portugal fez perceber a vontade do contacto com a agricultura, mesmo para aqueles cujo trabalho passa por sete horas diárias sentados a uma secretária. Neste caso, em vez de dedicar horas de trabalho a uma horta virtual, o projecto My Farm pretende fazer do jogo uma interacção real entre agricultor e cliente, para que este possa provar os legumes que plantou, ainda que sem mexer na terra de uma forma directa. Na prática, através de uma plataforma digital, semelhante à do jogo do Facebook, o utilizador escolhe o tamanho da horta que pretende desenvolver, pagando um montante inicial que pode ir dos 50 aos 100 euros. A inscrição dá acesso a uma planta da sua horta e a todas as opções de produtos a plantar, assim como opções de rega e trabalho da terra. Depois de escolhidos os produtos e as quantidades, o agricultor implementa a horta no terreno no prazo máximo de três dias úteis. O processo é sempre acompanhado por um gestor de cliente que ajuda na escolha das melhores práticas, abrindo o leque a todos aqueles sem experiência agrícola. Com o pagamento de uma mensalidade, o utilizador tem acesso aos produtos que cresçam na área que lhe pertence, com a garantia de que lhe serão entregues na altura da colheita. Além disso, cada horta tem uma câmara de filmar que permite ao cliente controlar todos os processos que decorrem nas suas terras, desde a sementeira à colheita dos produtos.

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Neste caso, João Duarte aderiu ao mais recente projecto da My Farm - o My Farm Free, uma nova modalidade que permite aos aderentes adquirir pedaços da horta do agricultor, ficando a aguardar o crescimento das hortícolas que serão entregues todas as semanas. Neste caso existe um carregamento inicial de 30 euros, mas o trabalho não fica dependente de mensalidades, com o cliente a investir apenas naquilo que o agricultor garanta como produção mínima. "Com este novo modelo, em vez de o cliente ter uma horta com tudo, tem diferentes partes de uma horta grande", explica Alice Teixeira, gestora do projecto que nasceu por iniciativa de um grupo de alunos e professores do Instituto Politécnico de Beja. Em três anos, são já 30 os clientes da modalidade "A minha horta" e a lista de inscrições para o recente My Farm Free conta já com mais de 20 pedidos.

Apesar da comodidade para o utilizador em ter uma horta à distância de alguns cliques numa página de internet, as vantagens não se esgotam em quem está em casa. Também os agricultores podem apostar numa agricultura de maior proximidade, evitando excedentes e a consequente perda de dinheiro.

João Duarte optou por uma agricultura familiar depois daquilo a que chama de "grande desilusão" com os grandes mercados. A trabalhar apenas para grandes armazéns, estava habituado a um pagamento que considerava "pouco justo" face às suas rotinas diárias. "Tinha cerca de 6 mil alfaces prontas a sair e o armazém oferecia-me apenas dez cêntimos por quilo, quando eu sei que o cliente a compra a 1,39 euros no supermercado", explicou ao i. Foi nesse dia que o agricultor decidiu transformar a sua horta num espaço dedicado a um trabalho mais tradicional, apostando na criação de cabazes de entrega ao domicílio e, mais recentemente, nas hortas My Farm. Das seis mil alfaces, conseguiu vender 1500, dando as restantes a instituições de caridade. "Preferi oferecer a quem precisa do que vendê-las a um preço ridículo", acrescentou. Actualmente, ainda recorre aos grandes armazéns para escoar os excedentes da sua horta, algo que espera que tenha fim com a entrada do My Farm.

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O fim dos excedentes é exactamente uma das bandeiras que Alice Teixeira levanta na defesa do projecto. "Queremos que o pagamento seja o mais justo possível e, neste caso, isso acontece porque o agricultor vai cultivar apenas aquilo que sabe que vai vender", referiu. Actualmente, o projecto centra-se em Odivelas e Sintra, em contacto com três agricultores, mas o objectivo é criar mais pontos em redor de Lisboa, para que depois seja exequível noutras cidades do país.

Habituada a fazer a ponte entre cliente e agricultor, Alice Teixeira garante que a informação sobre o trabalho agrícola é, geralmente, muito reduzida. "Foi engraçado perceber que o fosso entre o rural e o urbano é tão grande", garante a responsável, que conta com o apoio de mais dois agrónomos no contacto com clientes e agricultores.

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