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Matilde Campilho. "É bom poder dizer que adoro o meu trabalho. Ser poeta é do cacete"

Matilde Campilho. "É bom poder dizer que adoro o meu trabalho. Ser poeta é do cacete"

08/07/2014 00:00
Das páginas de "O Globo" e "Folha de São Paulo", e dos vídeos na internet, para "Jóquei", a tomar as rédeas à poesia

O sotaque ora malha no calçadão ora desfila sem sambas na calçada portuguesa, mas o fuso horário é sempre o da escrita, trabalhada com esferográfica Bic, ao som de "Purple Rain", ou do sabor de edições frias do "Finantial Times". Referências que se atropelam com sentido nesse cavalo de corrida que é "Jóquei".

A estreia em livro, que já chegou à segunda edição, é uma manta de retalhos cosida com os fios de Lisboa, do Rio de Janeiro e de todas as coordenadas que desobedecem aos limites do planisfério, com "poemas alegres para capitães" como Whitman e para todos os timoneiros que não se deixam encandear pela luz do sol. Matilde voa para todo o lado sem sair do lugar. E nós voamos com ela mal nos sentamos no Jardim das Amoreiras.

Uma surpresa assistir à segunda edição de "Jóquei"?

Pois é, saiu agora da fornada. Não estava à espera, acho que ninguém está. Fazemos um livro não para vender, mas porque temos de o fazer, e isto é tudo muito rápido e uma grande surpresa. Estou ainda a olhar de fora e a ver o que está a acontecer, como as outras pessoas.

"Fazemos um livro porque temos de o fazer." Quando sentiu que tinha de ser feito?

Demorei muito tempo. Escrevo desde que me lembro, morei muito tempo no Rio de Janeiro, e a maioria dos meus amigos escreviam, eram poetas e tinham livros publicados. Chegou uma altura em que muitos me perguntaram: "E você?" Achei sempre que não era hora.

O que faltava?

Quanto mais trabalhava, quanto mais lia, mais via que ainda não era a hora. Tinha muito para aprender. Um dia, quando voltei para Portugal, o ano passado, foi hora para me sentar e começar a olhar para isto tudo que tinha estado a fazer, e ver se fazia sentido. Demorou um ano a olhar para o que tinha feito, a tirar muita coisa.

Releu muito material antigo?

Tinhas coisas escritas há muito tempo. Tudo aquilo era também novo para mim. Foi isso. Achei que só muito tarde na vida haveria publicação. Agora, acho que não foi cedo nem tarde. Foi aos 31, mas acho que ainda tenho tudo para aprender. É o primeiro livro.

Havia esse estímulo no Brasil. Que diziam os amigos de cá?

Cá também havia esse estímulo, mas como comecei a escrever mais a sério no Brasil e já estava lá há uns anos, os meus amigos do dia-a-dia acabavam por ser esses. Conversava mais sobre o meu trabalho com eles. Foi irónico porque o livro acaba por ser publicado aqui.

Pensou publicar lá?

Sim, pensei, mas aconteceu assim. O editor veio falar comigo e eu pensei "porque não?". Conhecia o meu trabalho. Eu publicava muito na internet, no Facebook, e tinha acabado o livro naquela altura.

Os videopoemas e essas publicações na internet acabam por trazer algo de fresco ao embrulho da poesia?

É engraçado porque as pessoas deram- -lhes o nome de videopoemas. Aquilo eram recados. Eu vivia longe, com um fuso horário diferente, e muitas vezes aquilo eram só observações do mundo. Embora o poema seja normalmente curto, via que, quando a coisa passava um certo tempo, perdia-se. Temos muito para fazer. Aquela coisa do vídeo e do som talvez se apanhe de outra forma. Não sabia se chegavam a ser poemas. Para mim, são histórias que ia contando. Lá estava meio escondido, mas foi aparecendo. Trabalhava com notícias e misturava as duas coisas. Usava aquele espaço para contar as coisas como queria.

Era jornalista.

Sim, foi um dos meus 30 mil trabalhos: jornalismo, produção, escrevi para uma artista plástica brasileira, editais. Sempre ligado à escrita. Ia fazendo uma coisinha aqui e ali. Tão depressa estava no morro da Mangueira a fazer decopagem como numa redacção no Jardim Botânico. Tive muitas casas diferentes. Deu para fazer um mapa diferente da cidade.

Até que ponto as geografias se contaminam? Acontece-lhe escrever sobre Lisboa estando no Rio e vice-versa?

Sim, acontece com tudo. Por acaso morava entre essas duas cidades, mas isso é o bom da poesia. Posso estar aqui sentada nesta esplanada, onde escrevi umas quantas coisas, e estar nos EUA. Nunca estive nos EUA e os meus poemas têm muitas referências americanas. É a minha forma de lá ir. O bom do poema é essa viagem.

Referências que chegam até a filmes como o "When Harry met Sally".

Sim, aí vi o filme e cinco minutos a seguir escrevi. Fui-me apaixonando por este trabalho pelas possibilidades que me dava só de estar sentada no mesmo lugar, a partir da leitura, da observação. Entro a escrever e vou para outro lugar. São viagens baratas, na verdade [risos]. Sem sair do Jardim das Amoreiras fui a Brooklyn com a poesia.

O que saiu desta mesa?

Já não sei. A noção de tempo para mim é sempre estranha. Como estive entre duas cidades durante muito tempo e não há grande distância entre este eixo, nunca sei bem onde escrevi o quê e quando. Os lugares, às vezes, misturam-se demais em mim.

Convive bem com os mais antigos?

Há sempre uma estranheza, mas imagino que seja como com os filhos. Vês o filho pequenino e um dia, de repente, tem 16 anos e pensas como é que aquilo aconteceu. Não deixa de ser teu, gostas dele na mesma. Não sei se é um bom paralelismo, mas há poemas pelos quais posso ter alguma ternura. Os anos vão passando, mas há muito poucos em que diga: "Que horror, isto não sou eu." Isso sou sempre. A nossa construção é muito feita do erro. Com os poemas passa- -se isso. O erro é importante para a construção.

Trabalha muito o poema?

Os do livro foram muito trabalhados. Tirei muita coisa. A maioria é mais recente, escritos depois de 2009. Nunca leio o livro. Acho que nunca o li. Ando sempre com ele, já se fartou de viajar, está todo sujo, já levou com água, mas já é externo. Até porque, se for abrir, pode acontecer isso. E daí, também não. Olhei tanto para eles que agora tenho de arrumar. É como o fim de um namoro. Tens de dar aquele espaço.

Diz que os poemas a ensinaram a clarear as coisas. De que forma?

Na verdade, acho que aqui, como na vida, há o factor das decisões e o aleatório. Mas a maior parte são decisões. Com os poemas, foi acontecendo isso. O lado claro de que falam no livro foi muito uma decisão. Estava numa cidade onde, apesar de todas as tristezas, o carioca puxa mais para cima. Aprendi isso ali. Mas sempre gostei mais do sol do que do escuro. Foi bom chegar àquela cidade e sentir essa pertença ao eterno Verão.

Daí produzir um "álbum de Verão", como escreve Pedro Mexia sobre "Jóquei"?

O meu optimismo melhorou muito com aquela cidade. Acho que somos todos contaminados pelo espaço e pelo tempo. Realmente, é outra cabeça. A minha escrita mudou muitíssimo. Temos uma tradição de poesia diferente. Mas não gosto de comparar; tenho tantas referências cá como estrangeiras. Para mim, foram linhas que coseram uma manta que agora me diz respeito e me tapa os pés. Há que buscar a luz. A vida é curtinha e a noite vem sempre, todos os dias. Mas se há coisa que aprendi em 31 anos, é que a manhã vem sempre e eu gosto dela. No meu trabalho, claro; a vida privada é outra coisa. O J. D. Salinger, que acho maravilhoso, escreveu o que teve para escrever e desapareceu. O que interessa a vida privada do escritor quando há personagens como o Seymour Glass, que a mim me interessaram muito mais?

Não podemos ter algum interesse por quem cria personagens como essas?

Chega-me o que ele faz e como transformo isso nos meus dias. Claro que há sempre história para contar mas, para mim, é estranho tirar fotos ou dar entrevistas. O que me importa é o livro. Tenho sempre medo de desviar a atenção do trabalho. Por este lado solar, às vezes parece que o que faço é uma coisa fácil, um copo de água, mas bolas, foram anos de leituras e a ouvir histórias de pessoas nas ruas. Tenho um orgulho danado do livro por ser trabalho.

Essa ideia da imediatez da sua escrita ameaça desvalorizar esse lado menos visível?

Essa imediatez até pode acontecer. Essa artista brasileira encomendou-me um trabalho e deu-me um mês. Fui para a biblioteca, dei voltas, e quando faltavam três dias não tinha nada. No dia antes sentei-me, escrevi tudo e ficou direito. Foi uma grande lição. Sim, foi escrito de imediato, mas o trabalho levou-me um mês. Tudo me estava a chegar sem eu dar por isso. É mais fácil contabilizar um trabalho das nove às cinco. Há quem fique dias a conversar com um poema. Posso ter isso quando escrevo muito nos cadernos, mas também tenho coisas concretas que acontecem naquela hora.

Escreve em qualquer sítio?

Sim, mas um poema inteiro e trabalhado, não. Uso muito os cadernos. Os meus amigos ficavam irritados, mas agora, como acham que isto é a sério... [risos] Tenho sempre não sei quantas notas.

"Jóquei" vem confirmar uma vocação ou não era preciso fixar em livro para se sentir poeta?

Não. Acho maravilhoso o livro e receber esta crítica toda, mas foi tudo de repente. Continuo a ser a mesma Matilde que bebe cervejas com os amigos, que me dizem "lá está ela a escrever", e eu estou a aprender. Demorei a dizer a palavra poeta; é muito difícil, principalmente com o peso dos poetas neste país. É quase heresia. E a palavra é pesada. De poetisa não gosto nada e poeta é mais curtinha, podes dizer mais rápido e quase nem se dá por isso [risos]. Continuo a ter mil empregos para pagar as contas, mas fui olhando e o meu trabalho é realmente este, sem fins-de-semana, sem férias. Acordo de manhã para escrever. É estranho, claro. Se for à biblioteca e me perguntarem a profissão, se eu escrever poeta, as pessoas ficam...

Acontece?

Sim. "É a sua profissão?" É, é o que eu faço. E isto na biblioteca, que até tem alguma coisa a ver. Custa-te a dizer o nome, mas o eixo da verdade, para o bem e para o mal, é este.

Sente que há uma atenção especial por ser nova, por ser mulher?

[risos] Tento não pensar nisso; é como com as entrevistas. Tudo o que quero é que as pessoas olhem para o meu trabalho. Corpo, cara e cabelo, todos temos. O que fazemos com isso, cada um vai decidir. O meu trabalho é como o dos locutores de rádio. Ouves a voz e só um dia conheces a cara. Um escritor, até há algum tempo, era isso. Faz-me uma certa impressão e tento não pensar nisso. Sou só a minha mão e a minha cabeça.

Os amigos que brincavam com as notas estão a ler o livro?

Estão a ler devagarinho. De vez em quando recebo uma mensagem a dizer "olha, li este, gostei muito". Outros viraram críticos, o que também gosto. "Li aquele e, na verdade, não percebi muito bem. Podes explicar?" [risos] "Ah, sim, agora também vais ligar para os outros escritores a perguntar?" O poema vai muito para além do poeta. Já não é meu. Quando liberto o "Jóquei", longe de presumir que vai coser a manta de alguém, mas quando aquela pessoa está a ler, ele já não é meu.

Sabe bem largá-lo?

Sabe. Tinha muito medo disso. Não de achar que era só meu, mas lembro-me de entrar numa livraria em miúda e de sentir que, a não ser que tivesse alguma coisa a dizer ao mundo, não deveria cuspir mais uma lombada. Foi aí que percebi que, se quisesse fazer alguma coisa, tinha de trabalhar. Ter jeito é uma coisa, mas o que fazes com isso? Percebi que tinha jeito e devia respeitar isso, mas trabalhando como um arquitecto. A vocação só não chega. Tenho de ler, olhar.

Lia de tudo?

Lia muita coisa. Vou muito a livrarias com livros em segunda mão. No início há sempre um certo medo de ir ao desconhecido, mas é maravilhoso. Depois tinha alguns amigos a quem recorrentemente perguntava o que devia ler. Estudei literatura na faculdade, mas estava distraída, vivia nesta cidade incrível. A poesia era como aquelas coisas na vida que estão tanto ali que podem esperar, mesmo quando não as aceitas. Foi como o Rio. Quando alguém lá ia, dizia-me que era a minha cara. Eu sabia que havia ali qualquer coisa, mas podia esperar. Cheguei, entrei e entendi. Com a escrita foi o mesmo. Estava ali.

Não ia escapar.

Sem querer ser poeta demais, é como aqueles grandes amores. A gente gosta--se, mas não é a hora, precisamos de viver. Distraidamente, quando damos por isso, acontece. Também ligado a uma série de circunstâncias. Quando finalmente me sentei, vivia no Rio e estava à rasca. Não tinha trabalho, vivia num quartinho alugado, tinha tempo, e o que começou por excesso de tempo agora é o contrário. Agora arranjo empregos quando preciso de ganhar dinheiro, mas isto é que é o meu trabalho. É muito bom poder dizer que adoro o meu trabalho. E é um trabalho do cacete.

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