25/5/19
 
 
Cemitério dos Prazeres. Aqui jaz uma história de amor

Cemitério dos Prazeres. Aqui jaz uma história de amor

13/02/2014 00:00
Para fugir ao estereótipo do Dia deS. Valentim, o Cemitério dos Prazeres organiza uma visita guiada que conta histórias de amor através de jazigos

Quando nem a morte põe fim às grandes histórias de amor, elas perpetuam-se na memória, nas artes e nos túmulos. No Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, contam-se histórias através de um percurso que junta romances que se tornaram conhecidos por desafiarem as regras sociais da época. O percurso "até que a morte nos separe" tem três protagonistas: Inês de Castro, Adelaide Coelho e a condessa d"Edla, esta última a única sepultada no cemitério lisboeta.

O i antecipou a visita que se realiza hoje e amanhã inserida no projecto Enamorados por Lisboa. A iniciativa inclui vários programas por toda a cidade para celebrar mais um Dia dos Namorados. "São histórias de amor que se podem contar através de jazigos, num percurso bastante dramático e romântico, mas nada mórbido", avisa a historiadora Anamaria Mimo, convencendo assim os mais cépticos quanto à escolha do programa.

Dos mais de 7 mil jazigos, dez são de personalidades que tiveram um papel principal ou secundário nas três histórias que romperam com os bons costumes de outros tempos. Jorge de Sena será o primeiro narrador, já que foi um dos principais ensaístas a investigar os amores de Inês de Castro e D. Pedro, nomeadamente a importância das suas sepulturas. ""Até ao fim do mundo" é a frase gravada nos túmulos de Pedro e Inês e que dá o mote ao amor eterno que ainda hoje alimenta as artes", explicou Anamaria Mimo, guia do cemitério desde 2007.

O segundo capítulo da história continua a ser contado por escritores, num jazigo comum a vários, entre eles Natália Correia. No seu conjunto, os escritores são os "responsáveis por passar a figura de Inês de história a lenda e de lenda a mito", lembrou a historiadora, acrescentando que "Inês é uma figura mitológica no sentido em que conseguiu através da sublimação do amor vencer a morte".

Ainda nas artes passamos pelo jazigo de Henrique Lopes de Mendonça, autor da peça de teatro "A Morta", baseada também na tragédia de Inês de Castro. É neste ponto que as histórias de amor se cruzam e Anamaria apresenta Adelaide Coelho, a segunda protagonista. Aos 48 anos, fugiu com o motorista, 20 anos mais novo, abandonando o marido e com ele uma vida de luxo. Acaba presa num hospital psiquiátrico depois de o marido ter provado, de forma pouco científica, que estaria louca. O seu "crime de amor", como lhe chamaram na altura, venceu as adversidades e o casal viveu em pecado mais de 30 anos.

O terceiro jazigo é o de Henrique Lopes de Mendonça, que escreveu "A Portuguesa" - mais tarde reconhecida como hino nacional - no ano em que Adelaide casou com o marido e no ano em que o "Diário de Notícias", do qual era herdeira, passa por uma grave crise. O seu pai, Eduardo Coelho, na altura director do jornal, está também sepultado no Cemitério dos Prazeres.

Várias personalidades que de uma forma directa ou indirecta participaram nesta história de amor completam o percurso. O militar Paiva Couceiro, num jazigo ainda sem cruz - símbolo que só começou a ser introduzido em 1850 -, entra nesta narrativa por permitir a fuga de Adelaide Coelho do hospital psiquiátrico sem que fosse rapidamente apanhada.

As artes voltam ao percurso com o jazigo de Rafael Bordalo Pinheiro, que privou com toda a família de Adelaide Coelho. Já o irmão, Columbano Bordalo Coelho, sepultado noutro jazigo, foi auxiliado pela condessa d"Edla nos seus estudos de pintura no estrangeiro.

A condessa d"Edla é a única das três protagonistas com sepultura no Cemitério dos Prazeres. O jazigo destaca-se por um elemento que deixou como exigência no seu testamento: a reprodução da cruz alta da serra de Sintra. A condessa, a par do marido, D. Fernando II, viúvo de D. Maria II, protagonizou um casamento contra todas as regras quando falamos de 1869. Nenhum dos dois era solteiro e a condessa, que era cantora lírica, tinha já uma filha. Os ingredientes fizeram do casamento um escândalo, mal visto pela realeza e bastante criticado pela imprensa.

Em duas horas de percurso não se percorrem os 12 hectares do cemitério na totalidade, mas cruzam-se ruas que juntam a arquitectura de 1800 (o cemitério foi construído em 1833), com pormenores de modernização e reconstrução, feitas ao longo das últimas décadas.

Constituído quase exclusivamente por jazigos particulares, o Cemitério dos Prazeres tem obras de autores anónimos ao lado de peças de arquitectos de renome. "Até 1930 não havia o hábito de os arquitectos assinarem as obras e por isso temos muitos jazigos sem autor conhecido", explica Anamaria Mimo.

Turismo de morte Para reaproveitar o espaço e desmistificar a simbologia negativa dos cemitérios, a Câmara Municipal de Lisboa organiza visitas guiadas ao espaço. Além da temática do Dia dos Namorados, que conta histórias em que o juramento de amor eterno se cumpriu à letra, existem visitas dedicadas a escritores, arquitectos, escultores e à maçonaria.

O facto de o cemitério ter as portas abertas ao público sem controlo de entrada ou de saída impede que se conheça o número de visitantes. No entanto, Jaime Vieira, assistente técnico do cemitério, garante que "são às centenas" todos os dias. "Temos sempre autocarros cheios de estrangeiros a parar aqui à porta, principalmente alemães." Anamaria Mimo salienta que grande parte dos visitantes são de classe A, "com um nível cultural acima da média e que, mesmo quando não vêm em excursões organizadas, fazem questão de incluir o cemitério no programa de visitas a Lisboa".

A historiadora explica que o facto de os turistas estrangeiros visitarem a cidade em excursões com guias dos próprios países faz com que os registos incluam apenas as visitas organizadas por portugueses. Os números de 2013 dão conta de 72 visitas guiadas a 571 visitantes. A do Dia dos Namorados tem já 20 marcações, mas para os que querem fugir ao simbolismo da data a visita repete- -se em Março.

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×