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Yuval Adler. "Muitas vezes os agentes israelitas não espancam, seduzem"

Yuval Adler. "Muitas vezes os agentes israelitas não espancam, seduzem"

30/07/2014 00:00
"Belém", filme de estreia do israelita recebido com "sentimentos contraditórios" no país e pelos palestinianos, estreia hoje no Cinema City Alvalade (Lisboa) e no UCI Arrábida (Porto)

Yuval Adler acha que levou "demasiado tempo" a escrever e a completar "Belém" (2013), filme de estreia do realizador israelita que chega hoje ao Cinema City Alvalade e aos cinemas UCI Arrábida. Depois de se licenciar em matemática pela Universidade de Telavive, a sua terra-natal, trabalhou em várias áreas antes de se mudar para Nova Iorque, onde completou um doutoramento em filosofia pela Universidade de Columbia.

Foi por essa altura, em 2006, enquanto escrevia uma dissertação sobre o apontar de dedos como fenómeno linguístico, que lhe ocorreu que gostava de fazer um filme "diferente dos típicos filmes em Israel, que ou mostram os israelitas como sacanas ou os palestinianos como terroristas".

O que Adler queria fazer, explica ao i ao telefone a partir dos Estados Unidos, era mostrar "a complexidade da coisa" que muitos chamam de conflito israelo-palestiniano, um que por força das circunstâncias Adler acompanha desde sempre, mas sobre o qual quase nada diz de um ponto de vista pessoal ("Não sinto que seja a situação certa para discutir isso", responde quando lhe perguntamos sobre a actual ofensiva de Israel na Faixa de Gaza).

"A ideia para "Belém" surgiu porque eu e o Ali Waked, um jornalista palestiniano que escreveu o guião comigo, queríamos fazer um filme que mostrasse o funcionamento interno dos serviços secretos israelitas e da sociedade palestiniana. Queríamos sobretudo lidar com as vidas de indivíduos que estão no coração da questão."

"Belém" foi escrito e reescrito "inúmeras vezes ao longo de quatro anos", desde o momento em que um escritor amigo de Adler lhe recomendou Waked durante a busca por um palestiniano que conhecesse a realidade a partir de dentro e que o ajudasse a escrever um filme que abordasse "o funcionamento interno da sociedade palestiniana", a juntar ao dos serviços secretos israelitas.

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"Queixam-se mais da autoridade" Quando começaram a procurar actores em Israel e em partes da Cisjordânia para os três principais papéis do filme - Razi, o agente israelita, Sanfour, o miúdo que Razi seduz, e Badawi, o líder das brigadas Al-Aqsa - conversas com reais membros das brigadas de resistência e outros palestinianos levaram Adler e Waked a mudar o texto "muitas, mesmo muitas vezes". O resultado final, apesar de contencioso entre israelitas e palestinianos, orgulhou a ambos.

"A ideia era mostrar a coisa do ponto de vista interno e mostrá-la de ambos os lados. E também quebrar alguns clichés sobre como funcionam os serviços secretos de Israel. Mostrar como eles seduzem e encantam pessoas para eventualmente usarem e abusarem delas. Muita gente pensa que eles recrutam informadores através de espancamentos mas nem sempre é assim, muitas vezes o trabalho deles está totalmente centrado em seduzir alguém."

Em "Belém", Razi (Tsahi Halevi) aproveita o facto de o jovem Sanfour estar ao abandono pelo pai - mais concentrado em Ibrahim, o filho mais velho que luta contra a ocupação da Cisjordânia - para se tornar ele o pai que o palestiniano gostaria de ter. É a Razi que Sanfour telefona quando leva um tiro de um amigo para cumprir uma aposta em jeito de medição de forças ou quando não tem por onde fugir. "Acho que esta forma de sedução usada por agentes israelitas nunca foi retratada apropriadamente [no cinema israelita] e foi isso que eu e o Ali tentámos mostrar de forma meticulosa".

O que também acaba por ganhar protagonismo nesta espécie de episódio de Law & Order passado no berço de Jesus Cristo é a corrupção endémica no seio da Autoridade Palestiniana. "Daí mostrarmos as coisas do ponto de vista de Badawi, por exemplo, que é tido como um herói e que luta não só contra Israel como contra o funcionamento corrupto da Autoridade. Foram pessoas como o Hitham Omari [Badawi] e membros das Al-Aqsa que nos falaram disso... Queixaram-se mais da Autoridade do que de Israel", explica.

As brigadas Al-Aqsa, coligação de milícias palestinianas da Cisjordânia, são contrapostas ao Hamas, que domina a Faixa de Gaza, e à Autoridade liderada por um fictício Abu Musa, a retratar Mahmoud Abbas, líder real do governo cisjordano que é conhecido entre palestinianos e israelitas por Abu Mazen. O lado israelita fica relegado para segundo plano, algo que Adler teve intenção de fazer com "Belém".

"Sobretudo os cristãos de esquerda de Israel odiaram o filme, disseram que não mostra o lado mau da ocupação, e isso é verdade, mas também não era isso que eu e o Ali queríamos retratar", defende o israelita. "Palestinianos iguais ao Omari, por exemplo, adoraram porque conhecem bem esta realidade interna da Cisjordânia. Não podes controlar como é que as pessoas vêem o que fazes, foi o que aprendi com "Belém". Fazes o teu melhor e depois cada pessoa vai ver aquilo que quer ver."

Solução Durante as filmagens, em 2007 e 2008, Adler sentiu que a questão israelo-palestiniana "ficou para segundo plano porque os israelitas estavam concentrados nas eleições sem falarem [dela], o que não está correcto. Este assunto tem de ser gerido e resolvido, não pode ser uma coisa secundária e, até ao ponto em que podíamos fazer alguma coisa sobre isso, acho que conseguimos fazê-lo e é algo de que eu e o Ali estamos muito orgulhosos".

Por alturas da estreia de "Belém", o filme do palestiniano Hany Abu-Assad, "Omar", também estreou em Israel, abordando a mesma temática de recrutamento de informadores, mas de um outro ponto de vista. Adler viu o filme e diz apenas: "Guardo as minhas opiniões para mim, como se costuma dizer."

A recepção negativa de "Belém" por israelitas proeminentes, como o jornalista e director do "Ha"aretz" Gideon Levy, que citou "mais um filme de propaganda israelita", levam o realizador de 44 anos a dizer que "pessoas demasiado ideológicas acham que todos os filmes que não mostram Israel como criminoso de guerra e os palestinianos como vítimas são maus." Diz não achar que "este filme seja assim tão mau para os palestinianos" antes de acrescentar: "Acho que retratei toda a gente em vez de me juntar à propaganda."

Sobre o incontornável conflito que grassa há décadas entre o seu país e os vizinhos é tão crítico quanto é esquivo. "A situação é desagradável. E há sempre gente na direita que faz muito barulho. Mas acho que a maioria dos israelitas quer uma solução, está disposta a pagar o preço por ela, só que infelizmente não é ouvida. Espero que o governo, cuja função é liderar, nos lidere na direcção certa." Qual é essa direcção, perguntamos. "Uma solução de dois Estados. Espero que as pessoas tenham... sabes... olha, não sei..." Os dois projectos em que está a trabalhar, sobre os quais não quer revelar nada para já, "não têm nada a ver com isto".

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