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Campertales. Sobreviver ao rock numa carrinha

Campertales. Sobreviver ao rock numa carrinha

22/09/2014 00:00
Acampar em festivais é para meninos. Desses que emprestam a tenda aos pais para um festival de rock psicadélico para gente grande. Clara Silva foi por outro caminho e pernoitou com outras sobreviventes numa carrinha

As previsões não eram animadoras. Chuva para o fim-de-semana inteiro, que prometia transformar a primeira edição do Reverence Festival numa espécie de Woodstock lamacento perto do Cartaxo. Em Valada, essa nova capital do rock psicadélico, várias placas avisavam até onde tinha chegado a água das cheias de 1979, as piores do século xx, com uma altura suficiente para uma baleia ou duas nadarem mariposa à vontade. Tiram-se as botas de guerra do armário – alguém começa a fazer o inventário do guarda-roupa para a próxima estação e resolve que tem mesmo de arranjar umas Dr Martens  –, os impermeáveis não encolheram, mas e a tenda? Será que vai aguentar as intempéries?

Acampar num festival pode ser traumático. Trocamos experiências antigas, de tempos de berros “Ó Elsa” e de quando uma berma de estrada ainda servia de colchão e depressa percebemos que ainda carregamos o peso de alguém com pouco equilíbrio que nos aterrou na tenda num Super Bock não tão distante.

Estamos a ficar velhas carcaças para acampar, mas e se... A ideia de dormir numa pão-de-forma durante o festival começa a estacionar na nossa mente. Afinal não vamos para uma espécie de Woodstock?
A Camper Tales, uma pequena empresa com três carrinhas pão-de-forma que surgiu este ano, avisa no seu site: “Escreva o seu conto.” É isso que queremos, fazer história, e num piscar de olhos já temos nas mãos as chaves da Taiga, uma carrinha com mais 20 anos que nós.

“Vamos lá dar uma voltinha para ver se conseguem conduzir.” O test-drive da Taiga mais parece um teste de condução. Tudo parece estar a correr bem até que a Taiga, com quatro mudanças, tem de voltar para trás numa qualquer estrada do Estoril. “Tem de dar aí um jeito, empurrar para baixo”, ensinam-nos, mas a Taiga parece não querer colaborar de maneira nenhuma. Enfim, adiante que já se faz tarde, e esperamos não ter de recuar.

Fazemo-nos à estrada e lá atrás a loiça tilinta num armário. No termo que assinámos responsabilizamo-nos pelo material da carrinha, de rolos de papel higiénico a esponjas, passando por uma faca de pão, molas e até um estendal que nunca chegamos a ver. Nem o Maioral Zé, o café com as melhores bifanas de Valada, a 1,40 euros, está tão bem equipado.

Estacionamos a Taiga longe das tendas, mas os vizinhos são como melgas atraídas pelo verde. A escassos centímetros, alguém de uma banda com nome argentino há-de montar uma tenda – “Tive de a pedir emprestada ao meu filho”, explica – e há-de queixar-se de dores de costas e de uma rocha espetada na espinha.

Dois dias é pouco para acampar numa carrinha. Se o festival continuasse, provavelmente ainda lá estávamos, a tomar banho com um chuveiro que se encaixa do lado de fora. É fazer as contas: 12 litros de água do depósito dão para quantos banhos de água mais ou menos fria e para quantas escovagens de dentes? É esse o tempo que lá aguentávamos.

O chuveiro da carrinha poupou-nos horas na fila da meia dúzia de chuveiros do festival e se calhar de pé de atleta. Poupou-nos muita coisa, à excepção das melgas, que também se quiseram refugiar de uma banda que ainda vomita qualquer coisa ao longe perto das sete da manhã.

Wi-fi, um frigorífico para guardar águas tónicas, duas camas espaçosas. Enfim, estamos na tenda VIP. E nem a chuva quis estragar o festival e molhar a Taiga. Fica para a próxima – que podia ser neste fim-de-semana chuvoso. Dentro de uma pão-de-forma é sempre Verão.

LiV
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